bibliografias
O gosto pela bibliografia nos Açores, ainda que se possam certamente encontrar indícios anteriores, remonta ao segundo quartel do século XIX e tem em José de Torres o seu pioneiro. Foi ele quem recolheu uma bibliografia de interesse açoriano, que permaneceu inédita nas Variedades Açorianas, mas que Ernesto do Canto aproveitou para a sua obra. Em boa verdade, a bibliografia açoriana desenvolve-se em três vectores: a) livros, estudos e publicações nacionais e estrangeiras sobre os Açores; b) livros, estudos e publicações de autores açorianos, quer digam respeito, quer não, aos Açores; c) livros e publicações editadas nos Açores. Esta última secção praticamente não tem tido desenvolvimento.
Falar de bibliografias açorianas é falar de dois nomes que se destacam e são os mestres. Para o século XIX, Ernesto do Canto e para o nosso tempo, João Afonso. A eles se deve a parte substancial das pesquisas em matéria bibliográfica. Pode-se juntar a estes dois, num campo que não tem a ver com a bibliografia açoriana, mas antes com a bibliografia portuguesa, José do Canto, mestre nacional de bibliografia camoniana.
Ernesto do Canto seguiu a orientação expressa em a), sendo a sua Biblioteca Açoreana, ainda hoje, a trave-mestra da busca de estudos sobre os Açores. João Afonso, na sua Bibliografia Geral dos Açores, em publicação, optou por juntar as orientações a) e b), alargando horizontes e, tal como o título indica, dá uma panorâmica mais alargada do campo da bibliografia de interesse açoriano.
Mas para além do trabalho destes dois mestres, há uma vastíssima gama de bibliografias parcelares que justificariam até a empresa de uma bibliografia das bibliografias açorianas que, evidentemente, este artigo não pode ser.
O campo bibliográfico especializado mais vasto e mais variado é aquele que se dedica à literatura e aos literatos, onde encontramos muita informação, quer restritamente bibliográfica, quer biobibliográfica. Bibliografias de açorianos de projecção nacional, com destaque para Antero de Quental, com moderna bibliografia de âmbito da investigação universitária; Teófilo Braga, com a teofiliana que João Afonso incluiu no volume I da sua Bibliografia Geral; Vitorino Nemésio, com uma bibliografia notável levantada por Martins Garcia e Natália Correia, que encontrou em Ângela Almeida a sua bibliógrafa. Mas fora da literatura, são de destacar a bibliografia de Manuel de Arriaga e a de Joaquim Bensaúde, este com a Opera Omnia, recentemente publicada pela Academia Portuguesa de História.
Outros literatos de dimensão essencialmente regional têm tido bibliografias especiais de mérito, podendo-se destacar de entre elas as dedicadas a Armando Cortes Rodrigues, um catálogo do centenário, da responsabilidade da Biblioteca de Ponta Delgada, a de João Cabral de Melo e José António Camões, por José Guilherme Reis Leite, a de Frederico Lopes (João Ilhéu), também em catálogo do centenário, elaborado pela Biblioteca Pública de Angra do Heroísmo, etc.
No campo da biobibliografia, para além do clássico Urbano Mendonça Dias Literatos dos Açores, merecem destaque as Antologias de Poesia Açoriana de Pedro da Silveira e outra de Rui Galvão de Carvalho, a Antologia Panorâmica do Conto Açoriano, elaborada por João de Melo e, ainda, pela maior abrangência, a colaboração de Eduíno de Jesus no Dicionário Cronológico de Autores Portugueses.
Fora estritamente do campo literário, muitos outros autores açorianos têm tido bibliografias especializadas, de onde sobressaem as de Luís da Silva Ribeiro, por João Afonso, José Agostinho, por Manuel Azevedo, Arruda Furtado, por Luís Arruda ou o pedagogo Jerónimo Emiliano de Andrade, não só com a bibliografia que ainda no século XIX lhe dedicou José Augusto Cabral de Melo, mas a mais recente, por Azevedo Rosa.
Merecem destaque as bibliografias temáticas dedicadas à etnografia por João Afonso, Carreiro da Costa e Rui Martins; as dedicadas à história, quer descritivas, como a que José Guilherme Reis Leite dedicou a António Ferreira de Serpa, quer críticas, como a de António Santos Pereira sobre historiografia açoriana de 1875 a 1925, ou a daquele primeiro autor sobre a historiografia dos Açores (1972-1992) inserida no panorama da historiografia ultramarina. Mas, neste campo é ainda de realçar o ensaio erudito que João de Simas elaborou sobre as Saudades da Terra, de Gaspar Frutuoso.
Um ramo da bibliografia especializada que desde cedo se autonomizou foi aquele dedicado às ciências naturais, porque já Ernesto do Canto, no volume II da Biblioteca Açoreana, a pôs em destaque e Eugénio Vaz Pacheco do Canto e Castro lhe dedicou, em 1890, um ensaio bibliográfico crítico, obra-prima e clássico no género. Foi um começo que não mais se abandonou e as bibliografias de Afonso Chaves sobre zoologia, em 1920, de João Afonso dedicada à vulcanologia, em 1964, e, mais recentemente, as investigações de Luís Arruda, Frias Martins e Victor Hugo Forjaz, no âmbito do trabalho universitário, são um esteio notável da tradição bibliográfica açoriana.
Ainda com utilidade é de destacar a pesquisa dedicada aos jornais açorianos, cujo pioneiro foi, uma vez mais, Ernesto do Canto, o qual deixou uma obra, principalmente para os jornais de S. Miguel, que dificilmente pode ser igualada, mas a que se acrescenta a de Porfírio Bessone, no Dicionário Cronológico dos Açores, e que encontrou recentemente obra de vulto no catálogo comemorativo do sesquintenário da morte de Manuel António de Vasconcelos, sobre jornais açorianos, preparado pela Biblioteca Pública de Ponta Delgada.
Não existe infelizmente um trabalho paralelo para as revistas e outras publicações periódicas açorianas, mas os índices de algumas delas são um elemento bibliográfico a ter em conta. Os índices do Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais (1945-1954), da revista Atlântida (1954-1985), do Instituto Açoriano de Cultura, da Insulana (1944-1990), do Instituto Cultural de Ponta Delgada e do Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira (1943-1980) são os principais.
Por último, uma palavra para catálogos de exposições que se têm realizado principalmente nas bibliotecas públicas de Ponta Delgada e Angra do Heroísmo, nos quais se incluem bibliografias temáticas, de que só citarei, pela qualidade e vastidão, as dedicadas por cada uma das instituições ao centenário da autonomia dos Açores, em 1995, que constituem um exaustivo levantamento do tema, ainda que sejam também dignos de nota os catálogos de publicações, levantamento de trabalhos ou de bibliotecas privadas (como a do visconde de Botelho, entretanto desaparecida) levados a efeito pelos serviços de documentação da Biblioteca da Universidade dos Açores que também elaboraram o catálogo da bibliografia açoriana existente no Museu Carlos Machado.
São fontes imprescindíveis para elaboração e pesquisa de bibliografias de interesse açoriano os catálogos postos à disposição dos utentes nas bibliotecas da região, como sejam a pública e a da Universidade, em Ponta Delgada, a pública, em Angra do Heroísmo, que é a que possui o mais vasto catálogo, e também a pública, na Horta, porque todas elas albergam colecções de bibliófilos que se dedicaram ao coleccionismo de espécies açóricas, com destaque para José Rodrigues da Costa, Mendo Bem, António Ferreira de Serpa, Marcelino Lima, Carreiro da Costa, Pedro da Silveira, Vitorino Nemésio, Francisco Lourenço Valadão, Corte-Real e Amaral e muitos outros. J. G. Reis Leite (Jul.2000)
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