bibliófilos

Como coleccionadores esclarecidos de livros, são nos Açores típicos do século XIX e a maior parte deles confundem-se com os bibliógrafos, contribuindo com o seu trabalho para o desenvolvimento da bibliografia. Muitos bibliófilos reuniram, ao longo destes dois últimos séculos, colecções de generalidades ou de especialidade, conforme os seus interesses imediatos, mas nem todos conseguiram que as suas colecções lhes sobrevivessem, por estas terem sido dispersas, nalguns casos sem ao menos ter ficado, como memória, um catálogo. Contudo, um número apreciável de colecções reunidas tiveram melhor destino e acabaram por ser recolhidas em bibliotecas e outras instituições públicas, sendo desta maneira postas ao serviço da comunidade. Infelizmente, podem-se enumerar tais recolhas, mas só em pouquíssimos casos se dispõe de instrumentos descritivos do seu conteúdo e mesmo os existentes são parcelares e pouco esclarecedores. Nem todos, sequer, podem hoje ser identificados na globalidade, por não ter havido o cuidado de as marcar com um ex-libris ou outras marcas de posse. O trabalho iniciado pelas bibliotecas públicas de publicação de catálogos, como na de Ponta Delgada, o da livraria de Antero de Quental (1991), está no início e há um longuíssimo caminho a percorrer. O trabalho existente de descrições sumárias, como o da livraria de Ernesto do Canto, feita por Eugénio do Canto, em 1905, aquando da entrega do espólio na Biblioteca de Ponta Delgada, é pouco fidedigno e, nalguns casos, nem mesmo esclarecedor. Catálogos de mostras de pequeníssimas partes das colecções, como o da ex-biblioteca nemesiana de Angra do Heroísmo (1989) ou da livraria de Natália Correia, de Ponta Delgada (1999), abrem o apetite mas não servem de instrumentos de trabalho e sistematização.

Uma das mais antigas colecções de um bibliófilo açoriano é a de José de Torres, Variedades Açorianas, cuja parte de impressos, que é o que nos interessa agora, não possui uma simples catalogação, mas está depositada na Biblioteca de Ponta Delgada. Aliás, é nas bibliotecas de Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Universidade dos Açores, também naquela cidade, que se recolheram as mais significativas colecções de bibliófilos açorianos. Na primeira destacam-se as colecções, a todos os títulos notáveis, dos irmãos Canto, Ernesto, José e Eugénio, os três distintos bibliófilos e bibliógrafos. A mais famosa é a camoniana de José do Canto, com um erudito catálogo elaborado pelo seu proprietário e pedindo actualização. Nessa mesma instituição encontram-se as bibliotecas de Antero de Quental, Teófilo Braga e Natália Correia e colecções destacáveis de livros feitas pelo marquês de Jácome Correia, conde de Fenais, José Bensaúde e são dignas de registo separado a anteriana recolhida por José Bruno Carreiro e a colecção de João Maria Aguiar, especializada em estudos coloniais. Com as excepções apontadas, a todos faltam guias ou catálogos.

Na Biblioteca de Angra do Heroísmo, onde existe um bom catálogo geral, estão colecções de bibliófilos, mas infelizmente não existem registos separados de cada uma delas, o que seria essencial para o estudo de bibliofilia. A livraria de Francisco Jerónimo da Silva, rica em raridades tipográficas nacionais, a de Francisco Moniz Bettencourt, o Mendo Bem, notável pela sua açoriana, cujos livros, felizmente, se encontram marcados por carimbo de proprietário, a de Pedro da Silveira, também com marca de posse específica, a de José Agostinho, de Vitorino Nemésio, Francisco Lourenço Valadão, Manuel Gonçalves Ferreira, Fernando Rui Corte-Real e Amaral e outras, esperando urgentemente o tratamento que merecem.

A novel biblioteca da Universidade dos Açores recolheu, por sua vez, livrarias de bibliófilos locais, ou por compra ou por doação, das quais se destacam a do visconde do Botelho e a anteriana de Rui Galvão de Carvalho, infelizmente ambas desaparecidas num desastroso incêndio, mas a primeira, pelo menos, com memória fixada em catálogo. Além destas, a de Carreiro da Costa e a de José Bruno Carreiro, com a excepção da já citada anteriana da biblioteca pública da cidade.

Fora estes três núcleos principais, existem ainda colecções de bibliofilia postas à guarda de instituições públicas, mas de menor volume e infelizmente sem qualquer tratamento; o que resta das bibliotecas de Marcelino Lima e Ferreira de Serpa, na Biblioteca Pública da Horta, conjuntamente com a livraria de Corte-Real e Amaral; além destas, a de Cortes Rodrigues, na Casa-Museu em Ponta Delgada.

Algumas câmaras municipais possuem também livrarias directamente relacionadas com a bibliofilia açoriana, como a da Praia da Vitória, herdeira da biblioteca de José Silvestre Ribeiro e a das Velas, com livros da família Soares de Sousa.

Por últimos, uma nota sobre os nomes dos coleccionadores de jornais açorianos, utilíssimos e hoje inalcançáveis em colecções completas: António Gil, poeta graciosense, cuja colecção foi incorporada nas dos irmãos Canto e que fazem a glória da Hemeroteca de Ponta Delgada; em Angra do Heroísmo, as do general Rodrigues da Costa e do conde da Praia da Vitória.

Com o desenvolvimento cultural e económico dos nossos dias, tem aumentado o número de bibliófilos açorianos, mas sobre a qualidade e sobrevivência das suas colecções é cedo para se fazer um juízo crítico. O futuro falará delas. J. G. Reis Leite (Jul.2000)

Bibl. Afonso, J. (1985), Preliminar In Bibliografia Geral dos Açores. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional de Educação e Cultura, I: 7-27. Biblioteca Pública de Ponta Delgada (1990), Catálogo da Exposição Evocativa do Centenário na Morte de Camilo Castelo Branco. Ponta Delgada, BPPD. Id. (1991), Catálogo da Livraria de Antero de Quental. Ponta Delgada, BPPD. Id. (1995), Jornais Açorianos. Ponta Delgada, BPPD. Id. (1999), Livraria Natália Correia. Mostra Bibliográfica. Ponta Delgada, BPPD. Canto, E. (1905), Inventário dos Livros, Jornais, Manuscritos e Mapas do Sr. Ernesto do Canto, Legados à Biblioteca Pública de Ponta Delgada (Ilha de S. Miguel) e entregues por sua Viúva D. Margarida Leite do Canto. Évora, Minerva Comercial. Canto, J. (1895), Colecção Camoniana de (...) Tentativa de um Catálogo Metódico e Remissivo. Lisboa, Imprensa Nacional [existe uma 2ª ed. fac-similada, de 1972]. A Cidade (1929), A Biblioteca Silvestre Ribeiro. Angra do heroísmo, 246, 12 de Dezembro. Secretaria Regional de Educação e Cultura (1989), Ex-Biblioteca Nemesiana. Catálogo de Exposição. Angra do Heroísmo, SREC. Universidade dos Açores (1983), A Biblioteca do Visconde do Botelho. Ponta Delgada, U. A.