beterraba sacarina
HISTÓRIA NATURAL Trata-se de uma planta que pertence à família das Quenopodiceae, espécie Beta vulgaris L. var saccharifera.
A beterraba sacarina é constituída por uma forte raiz aprumada, tuberculosa, que pode atingir a profundidade de 1,70 m a 2,00 m, nela se distinguindo duas partes, a saber: a coroa, também designada por epicótilo, onde se inserem as folhas, e a raiz propriamente dita, que se subdivide em hipocótilo, zona de cerca de 5 cm abaixo do epicótilo, quase completamente desprovida de raízes, e corpo radicular que começa na zona de maior diâmetro, logo abaixo do hipocótilo, tem uma forma mais ou menos cónica e apresenta dois sulcos longitudinais designados por sulcos sacaríferos, nos quais têm origem dois sistemas radiculares diametralmente opostos.
As folhas têm origem no epicótilo, e constituem uma roseta que varia de amplitude de acordo com o estádio de desenvolvimento da planta, com a estação e com o ambiente edafo-climático. Têm uma coloração verde claro no início do ciclo vegetativo e verde intenso no seu fim, e o limbo adquire formas diversas, não só de variedade para variedade como de planta para planta. A beterraba sacarina é por natureza uma planta anual, mas a técnica e o melhoramento adaptaram-na à condição de bienal. No primeiro ano produz-se a raiz, carregada de açúcar, e no segundo, com suporte nas reservas nela acumuladas, dá-se origem a um caule floral ramificado e provido de folhas de pequena amplitude, que pode atingir uma altura de 1,5 a 2 m. É sobre estas ramificações que surgem flores pentâmeras, isto é , constituídas por cinco peças: 5 sépalas e 5 pétalas, no interior das quais se inserem os 5 estames e o ovário. Após a fecundação, e durante o desenvolvimento do fruto, uma a quatro flores de um mesmo conjunto soldam-se para formar um glomérolo, que vulgarmente se conhece por semente mas que, na realidade, é formado por 1 a 4 sementes. Desta forma, a semente da beterraba é uma semente plurigérmica, mas por necessidade das técnicas da mecanização é possível produzir sementes monogérmicas, de há cerca de vinte anos a esta parte, como resultado de um trabalho de selecção intenso.
PRODUÇÃO Vem do princípio deste século a produção de açúcar de beterraba na ilha de São Miguel. Existem notícias de que as primeiras experiências sobre a beterraba sacarina, nesta ilha, foram feitas por iniciativa de Henrique Bensaúde, por volta de 1890, nas zonas dos Arrifes, Lagoa, Vila Franca do Campo, Ribeira Grande, de entre outras.
Nesta época existia nos Açores uma florescente industria de álcool, cujo parque industrial era constituído por 5 fábricas, das quais 2 se situavam na Terceira e 3 em São Miguel. Porém, em 1901 foi publicado um decreto que proibiu a entrada do álcool açoriano no Continente português. Sem mercado para vender o seu produto, as 5 fábricas constituíram a União das Fábricas Açoreanas de Álcool, que encerrou 3 delas, mantendo a de álcool da Lagoa e transformando a de Santa Clara em fábrica de açúcar, que hoje são pertença da Sinaga - Sociedade de Indústrias Agrícolas Açoreanas.
Em 1903 efectuaram-se, de novo, ensaios sobre a beterraba sacarina, mas desta vez para estudar a possibilidade da sua produção com fins industriais, sob a orientação do Engenheiro Agrónomo José Canavarro de Faria e Maia. Os resultados obtidos foram animadores, confirmando os primeiros.
Em Janeiro de 1906, a direcção da União das Fábricas Açoreanas de Álcool decidiu entregar à firma alemã Rohring & Konig a transformação das instalações de produção de álcool de Santa Clara em fábrica de açúcar, que vem produzindo o açúcar açoriano desde Julho daquele ano, sem qualquer interrupção. Na sua primeira campanha, a Fábrica de Santa Clara trabalhou 7450 t de beterraba, com uma riqueza sacarina média de 11,29%, cultivada em 520 ha por 3220 agricultores.
Foi assim que a beterraba sacarina chegou a S. Miguel, e com ela benefícios de ordem social e económica importantes no contexto da agricultura micaelense do princípio do século XX, e é curioso constatar, à distancia de quase um século, que a época em que a beterraba sacarina chegou aos Açores não se encontra muito longe da sua chegada a algumas regiões do Continente europeu, hoje importantes zonas produtoras de açúcar. Por exemplo, foi introduzida em Espanha em 1878, tendo a primeira fábrica deste país iniciado a sua actividade em 1882; na Dinamarca em 1872; na Suíça em 1889.
A produção de beterraba sacarina concentra-se exclusivamente na ilha de S. Miguel, com uma excepção na década de 60 em que também foi cultivada durante alguns anos, a título experimental, em maior ou menor escala, nas ilhas Terceira, Graciosa, S. Jorge, Pico, Faial e Santa Maria mas sem continuidade, por causa do transporte marítimo para S. Miguel, a má qualidade com que se apresentava depois do transporte, e os elevados custos que de tudo isto advinham.
Em S. Miguel, a época de sementeira da beterraba é, tradicionalmente, a Primavera, durante os meses de Fevereiro e Março. Assim aconteceu até à década de 70, quando a indústria decidiu ensaiar a época de sementeira de Outono no pressuposto de que clima açoriano permitiria produzir esta cultura numa época do ano diferente da habitual, com o objectivo de incentivar os agricultores a produzir mais beterraba. Com efeito, no início daquela década, a indústria estabeleceu com êxito campos de ensaio em redor da ilha. Os agricultores adoptaram com entusiasmo esta inovação, de tal modo que, em poucos anos, ainda na década de 1970, o cenário da produção da beterraba foi completamente alterada, na medida em que a área de produção de Primavera foi largamente ultrapassada pela de Outono. As sementeiras nesta época do ano devem concentrar-se entre 15 de Outubro e 15 de Novembro para que as plantas, chegado o Inverno, tenham o desenvolvimento necessário para suportar a enorme intensidade dos ventos outono / invernais.
Também nos anos 70 a indústria considerou necessário modernizar a velha Fábrica de Santa Clara, que foi equipada com o que de melhor existia em equipamentos apropriados na Europa. Foi também nesta ocasião que o sector da recepção da beterraba sofreu alterações profundas. Para além de ser equipado com um moderno sistema de descarga da beterraba e seu transporte para os silos, foi montado um laboratório para analisar todas as entregas efectuadas pelos produtores. Após um período experimental, a beterraba passou a ser paga à produção não só pelo peso das raízes, como tinha sido desde 1906, mas também pela sua riqueza sacarina.
Poder-se-ia considerar S. Miguel como a região ideal para o cultivo da beterraba sacarina, no que diz respeito a pragas e doenças, não fossem as condições de clima que incluem os níveis de temperatura e humidade relativa do ar óptimas para o desenvolvimento de um fungo denominado Cercospora Beticola Sacc., vulgarmente conhecido pelos agricultores por alforra, que ataca as folhas da planta, provocando pequenas manchas circulares que inicialmente se apresentam isoladas, de cor amarelada, que proliferam e cobrem completamente as folhas, secando-as. A Cercosporiose é considerada como uma das mais graves doenças que atinge a beterraba sacarina, dado que provoca quebras na produção que podem atingir 30 a 45% no peso das raízes e os 3%, ou mais, na riqueza sacarina. O início da infecção verifica-se quando a temperatura do ar ultrapassa os 17º C (o óptimo são 25º a 30º C ), e a humidade relativa do ar 90%.
A beterraba sacarina é considerada uma cultura melhoradora, o que significa que influencia favoravelmente as culturas que a seguem na rotação. Em S. Miguel não se pratica uma rotação de culturas tradicional, pelo que a beterraba pode ser seguida por qualquer das culturas que os agricultores mais utilizam nas suas explorações, como o milho, a chicória, ou ainda pelos prados temporários e permanentes.
Consideram-se como produções médias 55 t/ ha de raízes com 15% de riqueza sacarina na cultura de Outono e 40 t/ ha com 13,5 % de riqueza sacarina na cultura de Primavera.
São sub-produtos da beterraba a polpa (aparas da beterraba depois de extraída a sacarose por difusão), as folhas e coroas, o melaço e as escumas de defecação. A polpa, as folhas e as coroas são utilizadas na alimentação do gado bovino, o melaço utiliza-se adicionado a forragens diversas e no fabrico do álcool e as escumas de defecação como correctivo da acidez dos solos.
CULTURA Sendo o objectivo final do cultivo da beterraba sacarina a extracção do açúcar que as suas raízes carnudas têm a capacidade de armazenar ao longo do ciclo vegetativo, a sua condução cultural deve ser muito cuidada, desde a preparação do solo à colheita, como forma de favorecer as condições necessárias à produção de elevadas quantidades de sacarose. Poder-se-á mesmo dizer que a beterraba sacarina é extraordinariamente exigente, se dela quisermos obter os melhores resultados económicos.
A preparação do solo visa criar as condições óptimas para o desenvolvimento das plantas e é constituída por duas fases distintas: a lavoura, com charrua de aivecas e as gradagens, com grades que podem ser de diferentes tipos. Após as gradagens, a camada superficial do solo, chamada cama de sementeira, deve apresentar-se nivelada, com alguma compactação a 4 - 5 cm de profundidade para facilitar a colocação das sementes no solo à mesma profundidade e às mesmas distâncias, criando as condições necessárias para que estas germinem e cresçam de forma uniforme. Na cama de sementeira, o solo não se deve apresentar muito fino, mas com alguma granulometria que facilite o seu arejamento; a retenção e circulação da água, evitando a formação de crostas e o arrastamento de terras; a protecção das sementes.
Não é fácil determinar a fertilização óptima para a beterraba sacarina, na medida em que se deverá ter em conta o solo onde a cultura vai ser instalada, a variedade, a época de sementeira, e o rendimento de açúcar/ha. Todavia, foi possível definir em S. Miguel uma adubação-tipo que resultou do conhecimento da cultura ao longo de muitos anos, tendo também em consideração as necessidades da planta nos diferentes elementos e as indicações dadas por análises do solo feitas nas diferentes zonas de produção de beterraba da ilha. Para a generalidade dos terrenos de S. Miguel têm sido recomendadas adubações dentro dos seguintes limites: azoto (N) 140 a 190 kg/ha, fósforo (P2O5) 150 a 180 Kg/ha e potássio (K2O) 200 a 240 Kg/ha.
As sementeiras podem ser plurigérmicas ou monogérmicas. As primeiras são usadas na chamada cultura tradicional, usada em S. Miguel desde a introdução da beterraba nesta ilha, totalmente feita por processos manuais, mas exigem um intenso desbaste cultural, muito oneroso. As monogérmicas poderão evitar este trabalho, dado que são semeadas a distâncias convenientes através de semeadores de precisão em culturas total ou parcialmente mecanizadas. A indústria tem vindo a fomentar a utilização de processos mecânicos, de há alguns anos a esta parte, cedendo para o efeito aos agricultores as máquinas necessárias, numa tentativa de contribuir para a modernização da cultura da beterraba sacarina, tornando-a de mais fácil condução, mais rentável e, como tal, mais aliciante para os agricultores.
A execução de sachas tem por objectivo, para além de outros aspectos, promover a mobilização superficial do solo e assim facilitar o seu arejamento, que pode ajudar a cultura a desenvolver-se na sua fase inicial. Quando feita manualmente, também tem por finalidade destruir as ervas infestantes para evitar que façam concorrência à cultura. Normalmente, há necessidade de fazer três a quatro sachas. Na cultura mecanizada, é norma recorrer à monda química através da utilização de herbicidas para combate das ervas infestantes e, quando necessário, fazer uma mobilização ligeira do solo, usando sachadores mecânicos.
A partir do momento em que as folhas da beterraba apresentam o desenvolvimento necessário para cobrir as entrelinhas e se tocam entre si, considera-se que estão criadas as condições para se iniciar o tratamento sanitário contra a Cercosporiose. Tratando-se de um fungo que ataca as folhas, devem ser feitos tratamentos fungicidas preventivos, que se destinam a evitar o desenvolvimento da doença para níveis que prejudiquem a produção e a qualidade da beterraba. O tratamento deverá começar logo após o aparecimento dos primeiros sintomas da doença nas folhas da beterraba, e ser repetido de 15 em 15 ou de 20 em 20 dias, de acordo com as condições do tempo, pelo que se recomendam nos Açores 5 a 6 tratamentos, ou mesmo mais.
A colheita da beterraba sacarina deve coincidir com a maturação industrial, isto é, com a conjugação óptima do peso das raízes e da riqueza sacarina, ou seja, o momento em que se atinge o peso máximo de açúcar por ha. Como em S. Miguel se produz beterraba de Outono e de Primavera, pode-se iniciar a colheita da beterraba outonal em fins de Junho e continuar até meados de Agosto, seguindo-se a de Primavera a partir de Agosto e prosseguir até Novembro. Na cultura tradicional, a colheita é manual e consiste no arranque das raízes e de toda a planta com um forcado de forma típica, seguido do corte das folhas. As raízes, já sem folhas, são colocadas em pequenos montes, de onde são carregadas para os transportes que as levam à indústria. Nos casos em que se faz a colheita mecânica, são utilizadas máquinas apropriadas. As mais utilizadas são automotoras que executam o corte das folhas e a colheita numa só passagem. As raízes arrancadas são conduzidas por um sistema de elevação para um cesto com a capacidade de 1 tonelada ou mais, que quando cheio pode descarregá-las directamente para o transporte.
COMÉRCIO À Região Autónoma dos Açores está atribuída uma quota da ordem de 10 000 toneladas de açúcar e a possibilidade de refinar uma quantidade de açúcar em bruto de beterraba igual à diferença entre a produção efectiva realizada no âmbito da quota atribuída e 20 000 toneladas. A indústria de açúcar local faz anualmente com os agricultores contratos de fornecimento de beterraba. Através destes contratos, os agricultores comprometem-se a entregar a totalidade das suas produções à indústria, e esta a pagar a beterraba entregue nas suas instalações a um preço que varia de acordo com a riqueza sacarina determinada no momento da entrega da beterraba, com base numa tabela de valorização que estabelece anualmente os preços antes das sementeiras.
A indústria garante ainda aos produtores o fornecimento da quantidade de semente necessária às áreas contratadas, para além de outros serviços, nomeadamente a assistência técnica para a resolução de problemas pontuais e para o aperfeiçoamento das técnicas culturais. Jacinto Fernandes Gil (Abr.1998)
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Área total (ha) |
Produção total (t) |
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1906 / 1915 |
941 |
22.002,7 |
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1916 / 1925 |
708 |
17.272,9 |
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1926 / 1935 |
919 |
22.083,8 |
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1936 / 1945 |
872.4 |
22.328.8 |
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1946 / 1955 |
1.685 |
45.034,7 |
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1956 / 1965 |
2.505,7 |
92.712,8 |
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1966 / 1975 |
2.289,5 |
94.112,7 |
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1976 / 1985 |
1.103,6 |
53.386,2 |
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1986 / 1995 |
486,6 |
23.320,5 |
