besouro
Designação atribuída a Agrius convolvuli (Sphingidae) principalmente na ilha de S. Miguel. É uma borboleta de coloração geral pardo-acinzentada, de hábitos crepusculares e nocturnos, cuja envergadura alar mede entre 90 a 100 mm. Possui uma longa espiritrompa, que pode atingir os 100 mm.
A larva ou lagarta mede cerca de 100 mm de comprimento e apresenta, geralmente, um dos dois tipos principais de polimorfismo cromático: fundo verde ou fundo escuro (Maia, 1895). Frutuoso (1981), no século XVI, refere-a nestes termos: «Depois de haver alguns batatais, vieram a criar-se neles uns bichos grandes, listrados de verde e amarelo, tão grossos como um grosso dedo, de mais de meio palmo de comprido, com a boca e cara carrancuda e rabo rebitado...». Com efeito, a larva alimenta-se preferencialmente da cultura de batata doce (e outras Convolvuláceas), reduzindo-lhe as folhas aos pecíolos, pelo que também é conhecida por bicho da batata (Maia, 1895; Vieira, 1997).
Segundo Costa (1952, 1953), são atribuídas outras designações à pupa de A. convolvuli: (a) nalgumas localidades de S. Miguel, bicho da cidade (e.g. Caloura), bicho indicador e bicho das Sete Cidades (Pico da Pedra), bicho do norte (Povoação, Furnas e Achadinha), bicho do Nordeste (Lomba de Santa Bárbara e Fenais da Ajuda), bicho de S. Pedro (Santo António e S. Vicente Ferreira), bicho-mosteiro (Bretanha), bicho da Terceira (Mosteiros), bicho tarado (Fajã de Cima), bicho da América (Arrifes) e bicho norte-sul (Ponta Delgada); (b) na ilha de S. Jorge, bicho do Faial; (c) na Graciosa, bicha lega e, mais raramente, bicho do Faial; (d) nas ilhas do Faial e das Flores, bicharvão e bicho ilhéu, respectivamente.
O aparecimento do besouro nas casas é tido para alguns como anúncio de mau presságio (Costa, 1953). Para outros é sinal de fortuna ou libertador do mau olhado, pelo que costumam atravessá-lo com um alfinete ou no tórax ou em cada uma das asas, abrindo-as, e prendê-lo, por vezes juntamente com uma ferradura, ou por detrás da porta da entrada ou das portadas de dentro das janelas. Segundo (Costa, 1953), «uma pessoa embesourada é toda aquela que se mostra acanhada e insociável».
Faria e Maia (1895) considera os estragos feitos por este insecto de grande importância na batata doce. Por isso, no âmbito de novas experiências, propõe a construção e utilização de uma armadilha luminosa para a captura dos adultos, melhorando assim em quantidade e em eficácia os meios de luta usados no seu tempo: destruição de larvas à mão e a largada no campo da criação (i.e. galinhas, perús, mas principalmente patos marrecos, os predadores mais vorazes de larvas e os que menos danos causam na cultura). Actualmente, sendo também frequente o uso de insecticidas, A. convolvuli causa prejuízos apenas de pequena a média importância económica (Carneiro, 1982).
Esta espécie encontra-se distribuída pelas ilhas do Arquipélago dos Açores, bem como pela Europa, África e região Indo-Australiana (Vieira, 1997). Virgílio Vieira (Jun.1999)
Bibl. Costa, F. C. (1952), Folclore entomológico - O Bicho da Cidade. Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores, 15: 159-160. Id. (1953), Os animais nalgumas superstições populares micaelenses. Ibid., 18: 119-124. Carneiro, M. (1982), Pragas das culturas na Ilha de S. Miguel. Boletim Sociedade Portuguesa de Entomologia, 7, Supl. A: 7-33. Frutuoso, G. (1981), Livro Quarto das Saudades da Terra. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, II. Maia, J. C. F. (1895), Cultura e alcoolisação da batata doce na ilha de S. Miguel, Lisboa: 45-52. Vieira, V. (1997), Lepidoptera of the Azores Islands. Boletim do Museu Municipal do Funchal, 49, 273: 5-76.
