Bensaúde, Salomão
[N. Marrocos ?, ? m. Londres, 9.1865] Filho de Salom Assiboni ou Ben Saude, reza a tradição que abandonou a primeira mulher em Marrocos, por esta não o ter querido acompanhar quando emigrou para os Açores, casando-se, anos depois, em 1837, na Spanish & Portuguese Synagogue de Londres, com Esther Friedeberg Nathan (1819-1883), de nacionalidade inglesa, irmã da futura mulher de Elias Bensaúde (1806-1868). Dela teve três filhos: Salom (1838-1915), Abraão (1839-1912) e Sereira (1841-1891).
Terá sido o primeiro judeu a desembarcar na cidade de Angra, na ilha Terceira, nos inícios dos anos vinte, sendo, logo depois a sua presença assinalada na ilha de S. Miguel, despachando mercadorias, no valor de 1 272$800, na alfândega de Ponta Delgada.
Na ilha Terceira, Salomão Bensaúde teve sociedade na firma Jacob Bensaúde, Aarão e Cª, dissolvida no ano de 1828, por morte de Jacob Bensaúde, sócio comanditário. Na ilha de S. Miguel, porém, constituiria a sua primeira sociedade comercial, a designada Salomão Bensaúde e Companhia, a 5 de Dezembro de 1835. Esta firma, que foi dissolvida em 22 de Junho de 1847, pode considerar-se o alicerce da actual empresa Bensaúde S.A. Pela mesma altura da fundação da empresa, contribuiu para compra de uma casa, na Rua André das Bocetas, destinada a Sinagoga a sinagoga Sahar Hassamain juntamente com Elias e Abraão Bensaúde, Fortunado Abecassis, José Azulay e Salão Buzaglo.
Era a venda da laranja açoriana no mercado inglês que gerava os recursos financeiros necessários à compra de fazendas e de diversos bens de quinquilharia inglesa nas ilhas. Para financiar a importação de manufacturas inglesas, Salomão Bensaúde remetia espécies monetárias, mas com o tempo especializou-se no desconto de letras de câmbio sobre credíveis casas inglesas e na especulação de cereais e de laranja. Os saldos efectuados com a venda de bens manufacturados destinavam-se a financiar novas importações.
A sucessão de empresas desde 1835 até 1865 data da morte de Salomão Bensaúde enquadra-se nas diferentes estratégias empresariais seguidas: à empresa Salomão Bensaúde e Companhia (1835-1847), seguem-se dez anos de actividade comercial a título individual. Depois, Salomão associa seus filhos, Salom e Abraão, e funda a firma designada Salomão Bensaúde e Filhos (1858-1862). Finalmente, associando apenas seu filho Abraão, funda a empresa Salomão Bensaúde e Filho (1862-1865).
Destrinçando as linhas mestras do percurso empresarial de Salomão Bensaúde, verifica-se que o seu sucesso se deveu à reunião dos interesses da importação com os da distribuição, deixando o importante sector exportador, para mais tarde, quando conseguiu atingir uma situação de destaque na sociedade micaelense. Ele pôde, deste modo, consolidar a sua posição económica antes de concorrenciar a fechada elite local, tradicionalmente ligada à terra e aos interesses da exportação. A importação prosperava graças às relações privilegiadas de crédito e de confiança de William Mc Andrew & Sons, no Reino Unido, e a distribuição prosperava graças à eficaz integração do mercado insular.
Salomão Bensaúde, sempre cuidadoso em relação à desconfiança local da sangria de moeda efectuada pelos comerciantes judeus, cedo apostou nos pagamentos em moeda escritural, revolucionando, decisivamente, essa prática nas ilhas. A integração de várias praças comerciais, localizadas nas margens do Atlântico, permitiu-lhe retirar benefício dos diversos câmbios e retirar vantagem das operações em divisas. Assistiu-se, assim, gradualmente ao reforço dos negócios cambiais em detrimento do seu tradicional negócio de redistribuição de manufacturas inglesas pelas ilhas.
As operações de câmbios, as exportações de milho e de laranja para o Reino Unido e a equipagem de uma frota pertencem à fase madura dos seus negócios. O negócio da laranja só se vai verificar no decurso de Salomão Bensaúde e Filho, decorridos, então, vinte anos desde a constituição da primeira empresa. Salomão Bensaúde, porém, sempre se interessou pela exportação de cereais para os mercados continental e madeirense, como forma de compensação às suas vendas de bens ingleses. Desde 1860, contudo, face à subida do preço do cereal na Grã-Bretanha, o empresário passou a importar cereal dos EUA para remetê-lo para aquele mercado, quando o preço excessivamente elevado do cereal açoriano não compensava a sua exportação.
Recorde-se que, desde a década de cinquenta, várias moléstias começaram a atingir as principais culturas agrícolas insulares. Primeiro, a Lágrima e o Coccus hesperidum na laranja. Depois, o Oidium na vinha, arruinando os produtores e atirando para a miséria as muitas famílias. Como consequência, o desemprego alastrou pelos campos e uma grave crise social veio desencadear uma intensa emigração para terras brasileiras, fenómeno que contribuiu para uma progressiva rarefacção de braços nos campos e, consequentemente, para uma elevação das jornas.
Pela mesma altura, a diminuição dos fretes marítimos, mercê da revolução dos transportes, permitindo trilhar novas rotas, rompendo novos mercados e impondo novos consumos, veio desvalorizar os cereais açorianos nos mercados exógenos. Agora, as vantagens tradicionais advindas da proximidade das ilhas aos mercados deficitários e da fraca remuneração do factor trabalho perdiam-se, face ao abaixamento dos fretes marítimos e à maior integração dos mercados na economia do Atlântico. A concorrência dos cereais americanos surgia, quando nas ilhas aumentava a emigração, se contraíam os tradicionais mercados madeirense e continental e começavam a deflagrar várias moléstias na agricultura. Porém, os negócios Bensaúde seriam pouco afectados por esta difícil conjuntura insular, porquanto foi durante este período que Salomão Bensaúde expandiu os seus negócios, diversificando os seus investimentos. A sua frota, constituída a partir dessa altura, soube oferecer uma imensa versatilidade de tráfegos, entre os quais se destacavam o transporte de emigrantes para o Brasil (o primeiro data de 2 de Setembro de 1858, na recém-adquirida Rainha dos Açores), o carregamento de cereais americanos e de laranja micaelense para o Reino Unido, a par do tradicional comércio de redistribuição de mercadorias inglesas pelo arquipélago dos Açores.
A primeira escritura da compra de um barco por Salomão Bensaúde e Companhia remonta a 21 de Fevereiro de 1840, quando, em parceria com mais três sócios, compra o iate português União. Só muitos anos mais tarde, em 1855, Salomão terá capital disponível para adquirir, sozinho, um barco a escuna inglesa Rainha dos Açores. Pouco tempo depois, em 1858, adquiriu a chalupa Quilha de Ferro.
A escuna Rainha dos Açores e a chalupa Quilha de Ferro ficavam, doravante, afectos a uma série de tráficos, embora o primeiro se destinasse preferencialmente ao transporte de emigrantes para o Brasil e o segundo ao transporte de laranja para o Reino Unido, os navios realizavam incessantes viagens entre as ilhas e com os portos de Liverpool, Cork, Pernambuco, Boston, St John da Terra Nova. Salomão Bensaúde ao morrer, para além dos barcos mencionados, possuía ainda metade do lugre português Adelina Paty, 2/5 da escuna Sereira, ¼ do patacho inglês Eagles Wing (mais tarde tomando a designação de Arrogante).
Também as propriedades agrícolas que adquiriu, por esses anos, foram rentabilizadas no sentido de fornecerem a sua casa com as novidades e os seus barcos com o refresco exigido. Data de 1851 a primeira compra de um prédio rural, adquirido em hasta pública. A partir de então foi adquirindo pomares na Mãe de Deus (interior da cidade), na Grotinha e na Malaca (arredores próximos da cidade). A par dos prédios rurais, acrescente-se o imóvel votado ao negócio, adquirido na Misericórdia Velha, a casa de moradia e os prédios urbanos, nas cidades de Ponta Delgada e de Angra do Heroísmo, que foi arrendando para a actividade comercial. O investimento imobiliário surgiu, assim, como um complemento à sua actividade comercial.
O investimento no sector industrial e a actividade creditícia parecem ter sido os únicos a não o entusiasmarem. Os transportes marítimos e os serviços portuários foram, pelo contrário, os sectores mais privilegiados, desde os anos cinquenta. Salomão Bensaúde foi contemporâneo do início das obras de construção do porto de Ponta Delgada. Através da sua firma, importaram-se materiais para a doca e descontaram-se letras de câmbio. Foi ainda a sua firma, uma das primeiras a construir armazéns e a abrir oficinas de reparação marítima na doca ainda em construção.
Em conclusão, Salomão Bensaúde foi um empresário genial. Inovou a prática comercial nos Açores e pela sua conduta revolucionou os negócios. O seu percurso é, sem dúvida, de sucesso: viagens sem contrariedades, clientes e correspondentes honestos, confiança do banqueiro, descendência masculina Uma contabilidade elaborada em partidas dobradas e uma prática de correspondência comercial assídua, bem como o hábito de viajar para o Reino Unido, todos os anos, para escolher mercadorias, contactar fornecedores, diligenciar créditos favoráveis e apresentar contas ao banqueiro fundamentam a gestão eficiente dos recursos.
A chegada dos bens importados no início da época da laranja, a cadeia de retalhistas distribuídos por uma área geográfica alargada, o crédito fácil e o recurso à moeda escritural consubstanciaram o sucesso da penetração da casa Bensaúde nas ilhas. Salomão Bensaúde teve o mérito de ter sido o responsável pela primeira tentativa de integração económica das ilhas, sob a liderança da ilha de S. Miguel. Em poucos anos transitou da oferta de bens de consumo corrente para a oferta de um serviço especializado nos domínios do transporte e da consignação naval. Foi, indiscutivelmente, o fundador de uma dinastia - a dinastia Bensaúde. Fátima Sequeira Dias (Jul.2000)
Bibl. Dias, F. S. (1999), Uma Estratégia de sucesso numa economia periférica. A casa Bensaúde e os Açores, 1800-1873. 2ª ed., Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana.
