Bensaúde, família
Os percursos de três homens de sucesso, todos da família Assiboni antigo apelido há muito esquecido Salomão ( - 1865), Elias (1806-1868) e José (1835-1922), marcam a história dos primeiros Bensaúde, radicados no arquipélago dos Açores, desde os alvores da década de 20 de Oitocentos.
Salomão e Elias, primos afastados, (futuros cunhados, porque casaram com duas irmãs inglesas), ambos provenientes do Norte de África, da cidade de Rabat, devem ter chegado ao arquipélago, por volta de 1818, enquanto José, filho de Abraão, primo de Salomão e sobrinho de Elias, já pertence à primeira geração de judeus nascidos nos Açores.
Trabalho, organização e sentido de risco parecem ter sido a razão do sucesso dos patriarcas da família Bensaúde. Salomão Bensaúde construiu um império, cujo alicerce remonta a uma gestão eficiente das vendas de mercadorias inglesas no arquipélago. O domínio do sector importador suportou a futura diversificação dos seus investimentos, dos quais os negócios cambiais e os serviços de navegação se revelaram os mais lucrativos. Elias Bensaúde, ao seguir o modelo empresarial de seu primo, partilhou com ele a responsabilidade na primeira tentativa de integração do arquipélago. José Bensaúde, por seu turno, graças à sua inteligência e à sua formação intelectual, soube delinear um inovador projecto de agro-industrialização, contribuindo para a modernização do tecido empresarial micaelense.
Investimento continuado nos negócios, parcimónia nos gastos de consumo e obsessão pela informação parecem ter sido as razões do sucesso dos primeiros Bensaúde dos Açores. A estratégia dos negócios que começara por ser insular, tornar-se-ia uma estratégia atlântica, integrando várias praças comerciais, trilhando várias rotas e transaccionando vários produtos.
Ao longo de Oitocentos, a família Bensaúde foi o instrumento da modernização das trocas regionais, contribuindo para a introdução de novos instrumentos comerciais e financeiros, para abertura de novos tráfegos e para a integração do arquipélago na economia capitalista.
A família Bensaúde é o paradigma de quantos, ao longo dos séculos, se dedicaram ao comércio de longe e, enriquecendo, construíram dinastias comerciais com interesses diversificados em todos os domínios lucrativos. Assim, os patriarcas Bensaúde não só revolucionaram as trocas no arquipélago como revolucionaram os circuitos e os mecanismos financeiros nas transacções insulares. Eis por que se distanciaram, decisivamente, dos demais comerciantes operando no arquipélago.
Um forte espírito de clã caracterizou os primeiros Bensaúde. Procuraram os sócios e os cônjuges na família e, quando esse objectivo não era possível, procuraram-nos entre os da mesma religião. A solidariedade da família e da origem étnica nunca se distanciaram. Tementes a Deus, contribuíram para a construção da sinagoga Sahar Hassamain, em Ponta Delgada, sustentando-a com donativos. As suas intrínsecas ligações ao estrangeiro (no hábito de uma viagem anual) distinguiram-nos e afastaram-nos dos concorrentes. No estrangeiro, fizeram novos contactos, aprenderam novas técnicas, conheceram novas realidades.
A ética empresarial de contenção dos excessos, de parcimónia, de racionalidade na gestão corrente terão contribuído para uma ética semelhante em relação ao seu comportamento sexual, patente num insistente prática de malthusianismo sexual dos casais: Abraão Nathan Bensaúde teve apenas uma filha; Salom Bensaúde e seus primos Henrique e Walter Nathan Bensaúde não deixaram descendência.
A empresa Bensaúde e Cª viria a ser herdada por Vasco Elias Bensaúde, filho do eminente historiador Joaquim Bensaúde, neto por via materna de Elias Bensaúde e por via paterna de José Bensaúde. Personalidade cordial e magnânima, granjeou a estima de quantos privaram com ele. Com Vasco Bensaúde inaugurava-se o turismo nos Açores, com o projecto da sociedade Terra Nostra e a abertura dos hotéis nas Furnas e em Ponta Delgada. Estes projectos foram continuados por seu filho Filipe Rogério Bensaúde (1924-1999), grande benemérito e empresário de sucesso no domínio do turismo e na oferta de combustíveis.
Mas a família Bensaúde não se distinguiu apenas pela sua riqueza. Os filhos de José Bensaúde - Alfredo Bensaúde (1856-1941), Joaquim Bensaúde (1859-1952), Raul Bensaúde (1866-1938) - e a sua neta - Matilde Bensaúde (1890-1969) - prestigiaram a ciência e a cultura portuguesas. Alfredo Bensaúde, fundador do Instituto Superior Técnico, distinguiu-se como mineralogista. Joaquim Bensaúde, embora engenheiro, notabilizou-se como historiador. Raul Bensaúde doutorou-se em Medicina e Matilde Bensaúde, doutorada em Agronomia pela Sorbonne, foi a primeira agrónoma portuguesa. A excelência científica dos descendentes de José Bensaúde, patente nas numerosas publicações, deve-se, certamente, ao facto de terem adquirido a sua formação no estrangeiro. A escolha da Alemanha e da França para prosseguirem os seus estudos deveu-se não só à excelência educacional destes países, como também ao facto de, no tempo, para se estudar na universidade portuguesa ser-se obrigado a uma confissão de fé católica.
Inteligência, preparação técnica e vontade de vencer terão sido, pois, as razões do sucesso da família Bensaúde, num universo onde grassava a ignorância e arrogância. Fátima Sequeira Dias (Jul.2000)
Bibl. Abecassis, J. M. (1990), Genealogia hebraica, Portugal e Gibraltar, séculos XVII a XX. Lisboa, Liv. Ferin, II: Bensaúde. Bensaúde, A (1936), A vida de José Bensaúde. Porto, Lit. Nacional. Correia, M. M. (1976), Subsídios para a genealogia da família Bensaúde (descendência do eminente Historiador Engenheiro Joaquim Bensaúde). Lisboa, sep. de Armas e Troféus. Dias, F. S. (1999), Uma Estratégia de Sucesso Numa Economia Periférica. A Casa Bensaúde e os Açores, 1800-1873. 2ª ed., Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana.
