Bensaúde, Elias
[N. Marrocos?, 1806 m. S. Miguel, 1868] Filho de Jehudá Assiboni ou Ben Saude, fez parte da primeira imigração de hebreus marroquinos no arquipélago, mas só terá desembarcado em S. Miguel por volta de 1825, acompanhado de dois irmãos e de uma cunhada. Em 1833, ainda solteiro, depois de ter viajado por várias ilhas açorianas, vivia em casa de seu irmão Abraão Bensaúde, na rua do Garcia nº 2, em Ponta Delgada. Posteriormente, casou com Rachel Friedeberg Nathan (1828-1918), de nacionalidade inglesa, irmã da mulher de seu primo Salomão Bensaúde (?-1865).
Em Ponta Delgada, em 1835, juntamente com seu primo Salomão Bensaúde, fundou a firma Salomão Bensaúde e Companhia (1835-1847). A prosperidade dos negócios da empresa não impediu a sua dissolução, dividindo-se, estrategicamente, o mercado açoriano entre os primos - Elias Bensaúde ficou, doravante, encarregado da cobrança e liquidação das dívidas activas da extinta sociedade na ilha do Faial, enquanto Salomão ficou responsável pelas demais ilhas.
O Livro Razão da empresa de Elias, estabelecido a título individual, apontava, a 3 de Julho de 1848, no primeiro registo relativo ao seu agente faialense João Manuel de Sousa , as importâncias de 17 917$143 e 20 258$207, a balanço de fazendas e a dívidas em diferentes mãos, respectivamente. Este gerente comercial desempenhou um papel relevante no desenvolvimento dos negócios de Elias Bensaúde nas ilhas do grupo central, porquanto, após a dissolução de Salomão Bensaúde e Companhia, os seus negócios expandiram-se pelas ilhas Terceira (a partir de 1849), Graciosa (a partir de 1851), Flores (a partir de 1854), S.Jorge e Santa Maria (ambas a partir de 1858). O produto das suas vendas a média anual rondava os 10,8 contos de réis insulanos destinava-se a financiar a compra de letras de câmbios, de espécies monetárias estrangeiras e de cereais para pagar novas importações da Grã Bretanha. Apesar da dispersão dos seus interesses por diversas ilhas, Elias Bensaúde sempre privilegiou a ilha do Faial pela abundância de espécies monetárias e de meios de pagamento em circulação, graças às frequentes ligações marítimas com os portos americanos e britânicos e ao desembarque de numerosas tripulações das embarcações pesqueiras e da caça à baleia que repousavam, com frequência, na cidade. Além disso, era ainda na cidade da Horta que a importante casa de aprestos marítimos e de serviços de navegação da família americana Dabney oferecia saques sobre credíveis firmas no estrangeiro. Se acrescentarmos que o porto da Horta era uma placa giratória do comércio nas ilhas do canal (Faial, Pico, S. Jorge e Graciosa) e que o Morgado Terra [Manuel Maria da Terra *Brum] era um importante fornecedor de vinho e de madeira compreenderemos a razão de integrar o Faial nas redes micaelenses de comércio.
Durante o Verão, as transferências de capital para o Reino Unido, destinadas a pagar as importações daquela proveniência, eram feitas através de letras sacadas sobre os Dabney e através da transferência de espécies monetárias em circulação na ilha do Faial. Durante o inverno e a Primavera, devido à abundância de letras de câmbio na ilha de S. Miguel, na mão dos exportadores de laranja, o câmbio descia e tornava-se então mais favorável adquirir esses meios de pagamento no mercado micaelense. Elias Bensaúde foi um empresário do tempo da economia da laranja boas vendas de laranja no Reino Unido, logo, abundância de saques sobre Londres, crescimento das importações inglesas, abaixamento dos preços, rápido aumento das vendas, rotação acelerada das existências, financiamento de novas importações
Pouco antes da sua morte, Elias possuía quatro casas comerciais duas, no Faial (uma de fazendas e outra de géneros), uma, na Terceira e outra em S. Miguel. Através dessas casas comerciais, localizadas nas três ilhas, procurava articular e integrar o comércio de distribuição no arquipélago. Se os estabelecimentos faialense e micaelense remontavam aos anos 40, o da ilha Terceira tinha sido aberto nos inícios da década de 60. No Faial e em S. Miguel, Elias não quisera sócios, mas na ilha Terceira estabeleceu sociedade com Naphtaly Levy (escritura de 12 de Maio de 1862), certamente para melhor penetrar naquele mercado. Elias participava com 11 200$000, enquanto Naphtaly Levy apenas com 2 240$000.
Essa sociedade foi dissolvida a 17 de Julho de 1867, depois de muitas contrariedades para Elias. Nessa altura, procedeu-se à arrematação do navio Feroz - o único barco que Elias terá possuído.
À semelhança de seu primo Salomão, Elias Bensaúde participava do grande comércio de importação, seguindo, sem inovações, o modelo inaugurado pela firma Salomão Bensaúde e Companhia. Importava do Reino Unido matérias-primas, (couro, linho e fio de algodão, madeiras, tabaco), produtos alimentares transformados (chá, café, açúcar, manteiga, frutos secos), produtos semi-acabados (quinquilharia, ferro em barras e arcos) e produtos acabados (têxteis, artigos de metalurgia, charutos, loiças ) através da firmas Farshaw e Walker Hamilton e Cª, de Manchester, e William McAndrew & Sons, de Londres.
Na qualidade de grande importador, podia oferecer condições de pagamento mais favoráveis do que os concorrentes e, por isso, detinha uma situação invejável nos principais circuitos de distribuição insular. Possuía uma rede segura de retalhistas dispersos pelos diversos concelhos e ilhas, de modo a assegurar uma eficiente distribuição e a captar não só as poupanças locais, como as produções agrícolas. Estas, porque sujeitas a maiores mais-valias comerciais nos mercados exógenos, eram adquiridas para serem exportadas para o Reino.
Desde início dos anos 60, assistiu-se a uma alteração dos seus negócios: concentração de vendas na ilha de S. Miguel, aposta na clientela hebraica, crescente dependência do mercado britânico, investimento nos tabacos - 1 333 acções da Companhia Vendedora de Tabaco Regalia, de Lisboa, na importância de 33 325$250 réis (41 656$250 réis insulanos) e na compra de propriedades, no Faial. A aposta numa divisão regional do trabalho estava esgotada, quer pelas pragas agrícolas na vinha, quer pela perda de competitividade do milho açoriano pela revolução dos transportes marítimos e, por isso, os seus investimentos foram canalizados para empresas do Reino e para a compra de bens imobiliários.
Elias Bensaúde, sem nunca ter renegado as suas origens, integrou-se com facilidade na sociedade açoriana. Participou na compra do imóvel destinado à Sinagoga Sahar Hassamain, em Ponta Delgada, em 1836. Associou aos seus negócios Naphtaly Davis Levy (1837-1885). Empregou David Davis Levy (1840-1919) e Isaac Zafrany (?-?). Investiu nos tabacos com seu sobrinho Salom Nathan Bensaúde (1838-1915). Casou sua filha primogénita, Emília Nathan Bensaúde (1848-1919), com o seu sobrinho Abraão Nathan Bensaúde (1839-1912).
Tal como Salomão, Elias teve consciência de que estava a fundar uma dinastia e, por isso, proporcionou, na Inglaterra, uma educação esmerada a seus filhos para os preparar para os desafios futuros da empresa.
Elias, self-made man, ao morrer, deixou uma fortuna avaliada em 251. 832$031 réis insulanos, em bens e mercadorias, localizados nas ilhas do Faial e de S. Miguel. Na ilha do Faial, as existências no seu estabelecimento comercial ascendiam a 48 004$002 e as propriedades urbanas (casas e propriedades) eram avaliadas em 29 000$000. Na ilha de S. Miguel, as existências comerciais foram calculadas em 18 564$557, o dinheiro em caixa, em 4 026$648 e as dívidas activas em 125 975$748. Parte dessa importância dizia respeito às compras de fava, trigo e milho, que havia efectuado pouco antes de falecer.
A contenção dos seus gastos pessoais revelava-se no valor atribuído ao conteúdo das suas casas e no limitado número de jóias mencionadas. De resto, embora se especifique o conteúdo dos bens da sua casa de moradia na cidade da Horta, é preciso não esquecer que Elias vivia, regularmente, na ilha de S. Miguel, numa propriedade conhecida por Pico de Salomão. Aliás, foi em S. Miguel que nasceram os seus quatro filhos - a primeira, Emília, em 1848, e a última, Cecília, em 1861.
Pode dizer-se que os negócios de Elias foram o reflexo da hegemonia da economia da laranja no arquipélago. Os seus negócios dependiam do comportamento das vendas de laranja, mas, ao mesmo tempo, eles também contribuíram para reforçar a importância dessa mesma economia no tecido sócio-económico insular, pelo estímulo ao consumo e pelo aprofundamento da integração económica nas ilhas, tendo residido nessa dualidade, quanto a nós, a prosperidade da sua casa comercial.
Os herdeiros de Elias Bensaúde Henrique (1853-1924) e Walter Nathan Bensaúde (1850-1920), constituídos na firma Herdeiros de Elias Bensaúde, associaram-se com Abraão Bensaúde e fundaram Bensaúde & Cª em 1873. Esta firma, com importantes interesses nas ilhas do Faial e de S. Miguel, foi a grande beneficiária da construção dos portos de Ponta Delgada (1861) e da Horta (1876), fornecendo carvão e os demais serviços portuários. Fátima Sequeira Dias (Jul.2000)
Bibl. Abecassis, J. M. (1990), Genealogia Hebraica. Portugal e Gibraltar, séculos XVII a XX. Lisboa, Liv. Ferin, II, Bensaúde §1, N3. Costa, R. M. (s.d.), Faial 1808-1910. Um tempo memorável. Sep. de Boletim do Núcleo Cultural da Horta, XI. Dias, F. S. (1996), Os empresários micaelenses no século XIX: o exemplo de sucesso de Elias Bensaúde (1807-1868). Análise Social, XXXI, 136-137: 437-464. Id. (1995), As razões da penetração comercial da empresa Salomão Bensaúde e Companhia (1835-1847) na ilha do Faial. Sep. do colóquio O Faial e a Periferia Açoriana nos séculos XV a XIX, Núcleo Cultural da Horta:115-139. Lima, M. (1981), Anais do Município da Horta. 3ª ed., V. N. Famalicão, Of. Gráf. Minerva: 597-603 [1ª ed. 1943].
