baú
Arca ou caixa rectangular com tampa geralmente convexa e por vezes revestida de couro cru, muito utilizada para transporte de bagagens entre a Europa e os Estados Unidos da América pelos emigrantes açorianos: «Aquilo é que são duas prendas de dois baús que ele trouxe...» - diz uma personagem de um conto de Nunes da Rosa (Rosa, 1978) referindo-se a um emigrante recém-chegado da América. Ou em Pedras Negras, de Dias de Melo: «Depois, os baús abertos - e o pai, a mãe, Maria, os parentes, os amigos, pasmados para as coisas que enchiam a casa do cheiro da América!» (Melo, 1964).
No falar do povo dos Açores ocorre ainda o arcaísmo baul (baúles no plural); no continente, estas formas também coexistiam no século XVIII, mas em 1813 Morais já indicava a hoje forma arcaica bahu como a mais corrente.
Os dicionários (como o de José Pedro Machado, por exemplo) registam o uso de baú para designar indiferentemente arcas de tampa convexa e de tampa achatada, havendo de facto uma certa indefinição na utilização do termo. O mais comum é o baú possuir a tampa abaulada (daí o adjectivo): «meteu a chave no baú (...) e abriu a tampa oval da grande mala» (Rosa, ibid.).
Esta indefinição terminológica complica-se pelo facto de se encontrar na linguagem dos emigrantes a palavra box traduzida tanto por baú como ainda por caixa, ou caixote, termos aplicados a recipientes com formas menos elaboradas. Numa outra passagem do citado conto de Nunes da Rosa, baú é referido nestes termos: «Esse box traz a cruz que o povo daquele lugar comprou». Veja-se também por exemplo: «sentia nelas o perfume das roupas embrulhadas na naftalina, vindas nas grandes boxes que aportavam a Ponta Delgada» (Melo, 1994). Ou: «A América tem cheiro diferente, vinha nas caixas de roupa, tão grandes que era preciso desmanchá-las na rua para caberem em casa» (Sá, 1992). A indeterminação semântica complica-se ainda mais pelo facto de com frequência se referir como «box da América» um bidão com tampa num dos lados, construído expressamente para transporte de mercadorias e usado pelos emigrantes para envio de «encomendas da América», como os que o autor deste verbete se recorda de ter visto na sua infância.
No caso da linguagem luso-americana, box, caixa e baú são pois usados quase indiscriminadamente para dois tipos de objecto distintos nos Estados Unidos da América: a arca de tampa convexa, chamada steamer trunk, para transporte de bagagem pessoal nos barcos a vapor; e o whalemans sea chest, de tampa plana, que servia para armazenar todo o tipo de roupas e outros objectos individuais nas longas viagens dos barcos baleeiros. O Whaling Museum, de New Bedford, Massachusetts, possui um exemplar deste último decorado por um emigrante açoriano com uma vista do porto de New Bedford e a assinatura desenhada de «Manoel de Mendonça». Este tipo de arca em madeira de cedro ainda é hoje conhecida como hope chest, referida nas lojas de mobília das comunidades luso-americanas por «arca da felicidade». Tendo servido outrora para as noivas guardarem o seu dote, transformou-se actualmente em peça integrante do mobiliário do quarto de cama.
Os baús do Brasil, abaulados e em couro, circulavam muito entre os Açores e o Brasil durante os anos de emigração para aquele país e ainda existem hoje em muitas casas açorianas, segundo testemunho pessoal dos escritores Fernando Aires e Urbano Bettencourt. (Jun.1999)
O termo baú entrou no imaginário açoriano como lugar de arrumação de toda a sorte de memórias e objectos estimáveis. «Só me intrigava que a avó fosse exageradamente sovina com um livro que guardava num baú, embrulhado num chamado pano de loiça - pano estimável por ser em linho bordado que, em promessa seca e inabalável, só me mostraria quando eu fosse grande» (Oliveira, 1999). Onésimo Teotónio Almeida
Bibl. Machado, J. P. (1960), Dicionário da Língua Portuguesa. Lisboa, Didáctica. Melo, J. D. (1964), Pedras negras. Lisboa, Portugália. Melo, J. (1994), Dicionário de paixões. Lisboa, Pub. Dom Quixote. Oliveira, A. (1999), Escrever Numa Ilha Portuguesa. Suplemento Açoriano de Cultura, 85, Correio dos Açores, 4 de Janeiro. Rosa, N. (1978), Gente das ilhas. 2ª ed., Angra do Heroísmo, Instituto Açoriano de Cultura. Sá, D. (1992), Ilha grande fechada. Lisboa, Salamandra. Silva, A. M. (1949), Baú In Grande Dicionário da Língua Portuguesa [«Dicionário de Morais»]. 10.ª ed., Lisboa, Ed. Confluência.
