Base Naval Americana em Ponta Delgada
A eclosão da I Guerra Mundial, entre as principais potências europeias, acabou por arrastar, numa fase posterior, a entrada dos Estados Unidos da América. Enquanto Portugal se manteve numa posição não beligerante (até Março de 1916), os portos do arquipélago eram frequentados por navios ingleses e alemães embora, na prática, tivessem sido dadas mais facilidades aos primeiros. Quando se tornou iminente a falta de liberdade de circulação no Atlântico e o possível ataque de submarinos alemães a navios mercantes americanos, os Estados Unidos declararam guerra às potências centrais (1917) e colocaram logo a hipótese de estabelecer uma base naval em Ponta Delgada.
Em Dezembro de 1916, a cidade do Funchal foi bombardeada por submarinos alemães e, em 4 de Julho de 1917, foi desencadeada idêntica acção em S. Miguel. Na madrugada desse dia, o submarino alemão U-155 bombardeou, de surpresa, Ponta Delgada, tendo um tiro de peça atingido uma modesta residência, na Fajã de Cima, freguesia limítrofe ao norte da cidade. Outro tiro foi disparado sobre o Barco do Mansinho, que navegava na rota de Santa Maria. A defesa da cidade foi obra do navio Orion que, disparando constantemente sobre o submarino, o impediu de acertar a pontaria, ao mesmo tempo que o obrigava a afastar-se.
Estes bombardeamentos revelaram a ineficácia da defesa dos portos insulares pelos ingleses, pelo que se aceleraram as complexas negociações diplomáticas para a defesa do Atlântico. Aos ingleses foram concedidas facilidades para fornecerem dados meteorológicos, abastecimento de combustíveis e reparação de navios, a instalação de uma estação de telegrafia sem fios, em S. Miguel, e o controlo dos cabos submarinos alemães que amarravam na Horta. Aos americanos foi autorizado o estabelecimento de uma base naval, no segundo semestre de 1917. A 25 de Julho, chegaram a S. Miguel cinco destroyers americanos, tendo o navio Orion permanecido no porto de Ponta Delgada. Contudo, a base só foi reconhecida oficialmente a 8 de Novembro. Um destacamento militar americano, que servia para manutenção dos navios americanos que demandavam o porto de Ponta Delgada, instalou-se, em tendas de campanha, na Mata da Doca (ou Parque Dinis da Mota), donde haviam sido retiradas milhares de toneladas de pedra para construção do porto artificial, cuja primeira pedra fora lançada em 30 de Setembro de 1861. Os americanos instalaram peças de artilharia nas Feteiras e em Santa Clara. O quartel-general do Almirante Dunn ficou instalado na antiga residência de Thomas Hickling, 1.° Cônsul dos EUA em Ponta Delgada, em Outubro de 1784.
A base naval foi visitada por Franklin Delano Roosevelt, ao tempo Secretário de Estado da Marinha. Mais do que uma base de operações, no sentido bélico do termo, as forças do comando do almirante Dunn foram uma presença dissuasiva e impeditiva da instalação dos alemães no arquipélago, o que, a acontecer, colocaria os aliados em situação desfavorável para a resolução do conflito.
A presença dos americanos teve um impacte económico e social extraordinário em Ponta Delgada. Entre 1917 e 1920, entraram no porto de Ponta Delgada 2.272 navios estrangeiros, predominantemente ingleses e americanos. A presença das tropas e tripulação de navios revolucionou o quotidiano urbano com a abertura de bares, restaurantes e espaços de diversão; o fornecimento de géneros aos navios que aí estacionaram contribuiu para atenuar a crise resultante da falta de exportações para o continente; a abundância de dollars permitiu a proliferação de casas de câmbio e a criação de fortunas pessoais num curto espaço de tempo. Com a súbita riqueza acumulada foi possível fazer uma série de investimentos no período que se seguiu à guerra. Manuel Jacinto de Andrade e Carlos Enes (Jul.2000)
Bibl. Telo, A. J. (1993), Os Açores e o Controlo do Atlântico (1898-1948). Lisboa, Ed. Asa.
