Barroco na arquitectura
A discussão da palavra Barroco enquanto estilo ou época arquitectónica em Portugal não cabe neste texto (cf. Pereira, 1989). Aceite-se porém uma utilização aberta e multifacetada do conceito, abrangente dos séculos XVII e XVIII, e das suas expressões arquitectónicas, urbanísticas e decorativas.
Dependente da influência do Continente, mas capaz de uma recriação espacial e formal, em conjugação com os materiais locais e as necessidades insulares, assim se poderá falar da arquitectura barroca açórica. Igrejas e edificações civis (casas de câmara) e domésticas (solares e casas de quinta) serão os seus principais expoentes, sempre com uma aplicação dominante e estruturante da pedra negra basáltica, em contraste com a caiação luminosa pelo que apetece designar de barroco lávico esta arte insular.
Sobre a arquitectura religiosa há que referir os majestosos edifícios jesuítas de Ponta Delgada, Angra e Horta com destaque para o primeiro, já que os outros se inscrevem ainda numa estrutura maneirista/ chã bem como a maioria das obras micaelenses, entre capelas (Caloura, S. Miguel) ou pequenas igrejas rurais, e os numerosos mosteiros e conventos das várias ilhas, sobretudo os de origem franciscana, preponderantes. Podemos mesmo falar de uma propensão barroca, plástica e decorativa, dominante no arquipélago e abrangendo a maioria das criações arquitectónicas ainda existentes daqueles séculos, sobretudo no campo religioso.
Quanto à igreja insular, ouçamos José Fernandes Pereira: Um vocabulário exuberante de festões, molduras, cartelas, grinaldas, medalhões, salomónicas, etc, de plasticidade 'gorda', cobre a fachada da igreja de Todos-os-Santos em Ponta Delgada, exemplo eloquente desta tipologia, como o é também a igreja de Santo Espírito (Santa Maria). Em muitas outras igrejas ou simples capelas, porém, a decoração das fachadas ganha formas de evidente influência da arte efémera presente nas festividades religiosas. Uma das primeiras igrejas barrocas da arquipélago é a do Castelo (1642) [S. João Baptista], em Angra, cujo perfil recorda a (...) igreja de Atouguia da Baleia (...). Em local sobranceiro ao mar, a igreja de S. Pedro em Ponta Delgada (1737-48), de autor desconhecido, consagra um octógono irregular (...) outros exemplares poligonais se encontram no arquipélago, como a pequena igreja do Recolhimento de Santa Bárbara (...) em Ponta Delgada, ou a igreja da Fajã de baixo, semelhante à de S. Pedro. (Pereira, 1986: 167-168)
Em Angra do Heroísmo, refiram-se os atributos barrocos, sobretudo expressos em originais volumes decorativos, da igreja da Misericórdia (junto ao porto), do Convento de S. Gonçalo (ao Alto das Covas (embelezada entre 1730-1750), ou ainda da ermida de N. S. dos Remédios, à Conceição. Tais atributos estão bem patentes no desenho do antigo Convento de Santo André (actual museu de Ponta Delgada), exemplar sobretudo nos seus torreões quadrangulares, protegidos por reixas, na fachada da igreja, de triplo vão com frontão contracurvado, e nas curvilíneas molduras das janelas do coro alto. As compactas torres conventuais (que surgem também nas Canárias, em Tenerife) podem também ver-se no convento da Esperança (onde está o conjunto do Senhor Santo Cristo, com importante azulejaria e talha) e no de S. Cruz de Lagoa, ambos em S. Miguel. Refiram-se ainda, na cidade de Ponta Delgada, os conventos de S. José (franciscano) e da Conceição (actual igreja do Carmo), e ainda da graciosa ermida de Santana, como exemplares deste outro barroco atlântico.
No domínio da arquitectura civil pública, é a tipologia das Casas de Câmara que apresenta os melhores exemplos, numa tipologia comum de escada exterior convergente e torre, a recordar os modelos da casa de câmara e cadeia do Brasil: em Angra (de 1611, demolida no século XIX) e Praia da Vitória (com elegante alpendre coberto), na Terceira; em S. Miguel, em Ponta Delgada, Vila Franca do Campo e sobretudo na Ribeira Grande (com poderoso arco lateral sobre a rua).
É também na cidade da Ribeira Grande que o barroco assume uma dimensão inusitada, dominante sobretudo pela originalidade formal, e com dois padrões fundamentais: a igreja do Espírito Santo (ou dos Passos, seiscentista, pertencente à Misericórdia fundada em 1593, talvez o mais significativo exemplar de um barroco exótico nos Açores, com rara fachada de apenas dois vãos); e a Câmara (com o arco setecentista); de destacar também a vizinha igreja matriz da Estrela e sobretudo o vasto património da casa solarenga urbana, que exibe o chamado Estilo Micaelense (Ataíde, 1982). Este estilo caracteriza-se pela molduração superior dos vãos das fachadas com elementos simbólicos (suástica curvilínea, rombos losangonais), para além dos avarandados e óculos de pedra vulcânica muito elaborados decorativamente e deve corresponder historicamente à reconstrução e crescimento urbano operados nos séculos XVII-XVIII, desde a catástrofe natural ocorrida em 1563 (derrame de lava que destruiu parte da povoação).
Ainda devem referir-se alguns solares urbanos de Ponta Delgada (Praça 5 de Outubro, esquina com rua Luís Soares de Sousa, integrando a ermida da Ressurreição; Rua do Melo, com a capela de S. António, de imaginosas sereias no portal, inícios do séc. XVIII), e o notável Solar das Necessidades no Livramento (arredores de Ponta Delgada), com corpo grandioso, adega e jardins. Em Angra, destaquem-se: a casa do Contratador Prudência (rua de Lisboa ou Direita, esquina com Rua da Sé) com notáveis lintéis curvos em pedra, fundidos em densa cimalha; o palácio de Bettencourt, a sul do Largo da Sé, de portal com colunas salomónicas (com o edifício da Câmara Municipal das Velas, em S. Jorge. José Manuel Fernandes (Jan.1999)
Bibl. Sousa, N. (1986), A Arquitectura Religiosa de Ponta Delgada nos Séculos XVI a XVIII. Ponta Delgada, Universidade dos Açores. Fernandes, J. M. (1989), Angra do Heroísmo. Lisboa, Ed. Presença. Ataíde, L. B. L. (1976), Etnografia, Arte e Vida Antiga dos Açores. Coimbra, Biblioteca Geral da Universidade, IV. Id. (1994), Ribeira Grande, Açores - Urbanismo, Arquitectura e Ornamento In Encontro sobre o Ornamento no Barroco e no Rococó. Lisboa, Fundação das Casas de Fronteira e Alorna (policopiado). Martins, F. E. O. (1983), Arquitectura nos Açores. Horta, Secretaria Regional dos Transportes e Turismo.
Pereira, J. F. (1986), Arquitectura Barroca em Portugal. Lisboa, Ministério de Educação e Cultura. Id. (1989), Barroco In Dicionário da Arte Barroca em Portugal. Lisboa, Ed. Presença.
