barcos do Pico
Como tal devem entender-se aquelas embarcações de duas proas, boca aberta, dois mastros com panos triangulares à latina, que armavam três pares de remos entre o banco do meio e o leito de avante, utilizados principalmente no transporte de carga e passageiros entre as ilhas do Pico e Faial. Pelo formato das velas, também eram conhecidos simplesmente por latinos e para os distinguir dos que se dedicaram ao serviço interno dos portos, igualmente lhes chamavam barcos de viagem. Houve-os desde o Cais do Pico a São João, com maior incidência na Madalena, Areia Larga e Calhau. Dando a volta à ilha no sentido inverso, do mesmo Cais do Pico às Lajes, passando pela Prainha do Norte, Santo Amaro, Calheta e Ribeiras, tínhamos as rotas dos iates e chalupas que navegavam até S. Miguel, estes também tratados em algumas ilhas por barcos do Pico, dada a sua origem.
Os barcos do Pico, propriamente ditos, sempre que o tempo o permitia, com reserva de Domingos e dias santos de guarda, arriavam para a beira dágua, onde ficavam encalhados na areia ou no cascalho para à prancha tomarem as mercadorias e as pessoas que se dirigiam à cidade da Horta (note-se que só em 1848 se fizeram obras que permitiram a sua atracação no cais da Madalena, o mais movimentado). Às bordadas, conforme os ventos, lá chegavam ao destino e se a aragem faltava eram por vezes horas e horas a remar, na calmaria, contra a maré ou a favor dela. Regressados ao porto de origem, quando não tinham de arribar para outro alternativo, postos a bom recado os bens transportados, era a tarefa insana de varar o barco em rampas improvisadas à força de braços no rodar dos cabrestantes.
Tantas e tão frequentes travessias, em que se incluíam, quando necessário, uma ou outra das restantes ilhas do Grupo Central, com as mais diversas e arriscadas condições de tempo e mar, fizeram dos seus mestres e marinheiros verdadeiros experientes da arte marítima, considerados nos finais do século passado como os melhores dos Açores. E até a entrada deste que agora está a acabar não havia mesmo outro meio prático para manter estas duas ilhas irmanadas em contacto estreito.
Aos barcos do Pico se fica devendo uma importantíssima função, quer no campo económico, quer no social, como ainda em situações de emergência, não esquecendo as de saúde.
Só em 1909 haveria de surgir a primeira lancha de passageiros a gasolina e com vela auxiliar, a que muitas outras se seguiriam, cada vez mais seguras e cómodas.
Entretanto, também os barcos se motorizaram e, durante algumas décadas, mesmo para passageiros, constituíram uma opção preferida.
Com os tempos, os barcos foram-se descaracterizando: primeiro, arrumaram-se os remos; depois, substituíram-se as velas de uma só verga por outras rectangulares com pique e retranca; estas e os próprios mastros acabaram por desaparecer; tapou-se a boca com cobertas corridas e, no leito da popa, alçaram-lhe uma cabina para o timoneiro e pessoal de manobra.
Em três centúrias de actividade intensa, muitíssimas dezenas destas embarcações devem ter existido: tantas morreram de velhas, outras foram transformadas ou transferidas para diferentes armadores, algumas mais naufragaram ou os ciclones arrancaram-nas dos seus poisos. Deixaram atrás, na memória das gentes, os inestimáveis serviços prestados, as horas de angústia no arrostar das tempestades, o sacrifício das vidas quando o mar foi mais forte. E há que referir que eram pequenos barcos. O maior de que se conhece registo foi o Mensageiro aprestado no porto da Areia Larga e que media 18,57 m de comprimento por 4 m de boca, com um pontal de 1,21 m. Uns pelos outros, em dezenas de matrículas, poderia encontrar-se um modelo médio com a dimensão máxima de cerca de 13,5 m.
A vila da Madalena, por ficar em frente da cidade da Horta, foi sempre a praça com maior número de barcos em competição e, pela mesma razão, por certo o primeiro embarcadouro a possuí-los.
No presente, ainda a navegar em todos os dias úteis, quando esta actividade se encontra quase extinta, é justamente ao abrigo da doca da Madalena que subsistem dois exemplares: o velho Adamastor, o mais veleiro de quantos há noticia e o Rival, sobrevivente de imensos companheiros, que conta com mais de cem anos de idade. Tomaz Duarte Jr. (Abr.1998)
