bancos submarinos
A morfologia dos fundos submarinos é bastante mais acidentada do que se supunha até ao início do século XX. Apesar de uma área considerável dos fundos marinhos ser constituída por regiões aplanadas, situadas a grande profundidade (as planícies abissais a profundidades de 4500 a 5000 m), ou a profundidades inferiores a 200 m (as plataformas continentais, adjacentes ao litoral dos continentes), existem relevos imponentes abaixo do nível do mar.
Aqueles relevos podem corresponder a depressões alongadas as fossas oceânicas, situadas nos locais em que se processa subducção ou constituir elevações.
As principais elevações estão associadas às dorsais oceânicas, cadeias montanhosas que se estendem por cerca de 65.000 km atravessando todos os oceanos do globo. As dorsais podem localizar-se nos oceanos em posição axial, como a Crista Média Atlântica, ou em posição marginal, caso da Dorsal do Pacífico Oriental.
As dorsais, que apresentam larguras tipicamente da ordem dos 1000 km, elevam-se das planícies abissais até profundidades próximas dos 1000 m, podendo mesmo emergir, como sucede na Islândia.
Aqueles relevos correspondem a fronteiras tectónicas em que duas placas litosféricas adjacentes se afastam uma da outra; no eixo da dorsal ocorre actividade vulcânica intensa que cria constantemente nova litosfera. Pela sua posição este vulcanismo é denominado interplacas.
Sobressaindo dos fundos oceânicos existem outros relevos menores mas muito numerosos, os montes submarinos (seamounts). A maioria destes relevos tem origem vulcânica, constituindo edifícios de forma cónica, cujo topo pode situar-se a profundidades diversas. Nalguns casos o topo dos edifícios vulcânicos de maiores dimensões emerge formando ilhas ou arquipélagos.
Alguns destes vulcões foram já arrasados pela erosão marinha originando escolhos ou, quando cobertos por edificações coralíferas, constituindo atóis; outros apresentam o topo aplanado mas localizam-se a tão grandes profundidades que se exclui a hipótese de terem sido truncados pela erosão marinha os guyots.
Estes montes submarinos resultam de actividade vulcânica no interior de placas litosféricas (vulcanismo intraplaca), associada a pontos quentes (hot spots) que são a expressão crustal de plumas térmicas no manto.
Outro tipo de montes submarinos, menos frequente, tem origem tectónica, relacionando-se com fronteiras de placas em que ocorre compressão; um bom exemplo deste tipo de relevos são os Montes Submarinos da Ferradura, adjacentes à fronteira de placas Açores-Gibraltar. Num destes relevos, o Banco de Gorringe, localizaram-se os epicentros dos sismos de 1755 e 1969.
Na região dos Açores a elevação da dorsal atlântica apresenta uma expansão para oriente que é designada Plataforma dos Açores (Azores Plateau). Aquele alargamento do relevo da dorsal também se faz sentir para ocidente, embora com expressão menos marcada.
Esta área, com forma grosseiramente triangular, é limitada pelos pontos de coordenadas 37,5°N-31°W, 37°N-24,5°W e 40,5°N-29,5°W.
A Plataforma dos Açores eleva-se a partir de profundidades superiores a 3000 m e apresenta morfologia bastante acidentada. Algumas das elevações submarinas emergem, constituindo as ilhas do arquipélago. Outras não atingem o nível do mar mas apresentam o topo a pequena profundidade, originando bancos submarinos.
Nos Açores, os bancos submarinos mais importantes são o Banco dos Açores, o Banco Princesa Alice, o Banco D. João de Castro, o Banco Mónaco e o Banco Chaucer. Outros relevos de menores dimensões ocorrem em diversos locais, sendo conhecidos fundamentalmente pelo seu interesse para a actividade piscatória; em ambos os casos trata-se de relevos vulcânicos. Uns, com forma alongada, constituem cristas submarinas relacionadas com vulcanismo fissural; outros, de planta circular, correspondem a vulcões centrados.
Grande parte destes vulcões são activos (alguns com erupções históricas) e encontram-se ainda em crescimento, podendo, no futuro, vir a constituir novas ilhas. Noutros casos, a forma e localização dos relevos submarinos sugere tratar-se de edifícios vulcânicos extintos (ou dormentes) que eventualmente poderão ter constituído ilhas no passado.
Os principais documentos cartográficos disponíveis para analisar a batimetria dos fundos dos Açores são a carta Azores triple junction bathymetry da autoria de Lourenço et al. (1996) e a Carta dos Pesqueiros dos Açores editada em 1983 pela Secretaria Regional da Agricultura e Pescas dos Açores.
Nestas cartas pode observar-se uma crista submarina que se estende das ilhas do Pico e Faial para sudoeste, aproximando-se gradualmente do relevo da dorsal. As porções mais elevadas desta crista constituem os locais conhecidos como Banco dos Açores e Banco Princesa Alice. Ambos os bancos apresentam áreas consideráveis a profundidades inferiores a 500 m de onde sobressaem picos a cotas de apenas 18 e 73 m (no Banco dos Açores) e a 35, -20 e 49 m (no Banco Princesa Alice). Estes dois bancos encontram-se separados por colos que correspondem aos locais onde a crista submarina é cruzada por falhas orientadas na direcção NW-SE.
A oés-sudoeste do Banco Princesa Alice, sobre a mesma crista submarina, 190 km a sudoeste da Ponta dos Capelinhos (Faial) e 221 km a sul-sueste da Ponta das Lajes (Flores), situa-se a baixa chamada Pico Alto (37°29N-30°26W); este vulcão submarino, com planta circular, eleva-se até 130 m de profundidade.
No prolongamento para sueste da crista Faial-Pico, a 33 km da Ponta da Ilha (Pico), situa-se a baixa Ponta da Ilha (38°12N-27°37W) cujo topo se encontra a 230 m de profundidade; esta elevação vulcânica está relacionada com as estruturas tectónicas que controlam o vulcanismo das ilhas do Faial e Pico.
A oriente de S. Jorge, 35 km a les-sueste da Ponta do Topo (S. Jorge) e 24 km a sul-sudoeste do Monte Brasil (Terceira), situa-se a baixa de S. Jorge de Fora (38°21N-26°24W). Esta baixa, que apresenta forma alongada na direcção WNW-ESE, tem o seu topo na cota -280 m e foi o local das erupções históricas submarinas de 1800 e 1902.
A nor-noroeste da Graciosa, nas coordenadas 39°33N-28°12W, localiza-se a baixa Agulha a Norte da Graciosa, edifício vulcânico de planta circular, que se eleva de profundidades da ordem dos 1500 m até 217 m.
O Banco D. João de Castro é um edifício vulcânico circular localizado sobre o bordo sudoeste da Bacia Hirondelle, aproximadamente a meio caminho entre as ilhas Terceira e S. Miguel. O vulcão eleva-se de 1600 m de profundidade até 8 m abaixo do nível do mar. Em 1720 uma erupção originou a sua emersão, mas a ilha então edificada foi rapidamente arrasada pelo mar.
No bordo norte da Bacia Hirondelle, 63 km a les-sueste da Ponta das Contendas (Terceira) e 75 km a noroeste da Ponta da Ferraria (S. Miguel), encontra-se um vulcão submarino designado Bonito (38°21N-26°24W). Este edifício vulcânico eleva-se de 1000 m de profundidade até apenas 27 m da superfície do mar.
A partir do extremo oeste de S. Miguel estende-se para sul-sueste uma crista submarina sobre a qual se localiza o Banco Mónaco. As áreas mais elevadas daquela crista encontram-se a menos de 500m de profundidade; a Carta dos Pesqueiros dos Açores regista sondagens de 169 m (Mar de Prata), 201 m (Baixa de Sudoeste e 205 m (Ponta Sul). Na área do Mar de Prata localizaram-se as erupções de 1907, 1911 e 1981.
Cerca de 30 km a noroeste das Formigas, sensivelmente a meia distância entre S. Miguel e Santa Maria, localiza-se um relevo de planta elíptica (vulcão submarino alongado na direcção NW-SE) chamado Grande Norte (37°24N-25°05W). Este monte submarino, com cerca de 1500 m de altura, eleva-se de fundos a cerca de 1600 m de profundidade até 117 m abaixo do nível do mar.
A les-nordeste das Formigas, a uma distância de 30 km, situa-se a Baixa de Lesnordeste (37°20N-24°27W) onde está marcada uma sondagem de 243 m. Para oriente deste ponto, localizado no extremo leste da Plataforma dos Açores, os fundos descem rapidamente para profundidades superiores a 4000 m.
No flanco leste do rifte da crista média, a oeste do Faial, estão referenciados dois relevos de planta circular (vulcões centrados): o Gigante (38°58N-29°51W), localizado 98 km a noroeste da Ponta dos Capelinhos (Faial) e 125 km a les-sueste da Ponta das Lajes (Flores), tem o seu topo à cota 144 m; e a Agulha do Sul (38°44N-29°57W), que dista respectivamente 99 e 130 km daquelas ilhas, eleva-se até à profundidade de 232 m.
Do lado ocidental da crista média existe um conjunto de altos fundos a sul da ilha das Flores, mas em nenhum caso aqueles relevos submarinos constituem bancos ou baixas tão importantes como as que se encontram a oriente da dorsal. José Madeira (Abr.1998)
Bibl. Lourenço, N., Luís, J. F. e Miranda, M. (1996), Azores triple junction bathymetry. Ed. Centro de Geofísica da Universidade de Lisboa e Universidade do Algarve (Projecto MARFLUX/ATJ), 1 mapa. Secretaria Regional da Agricultura e Pescas dos Açores (1983) Carta dos Pesqueiros dos Açores. 4 folhas na escala 1:1.000.000.
