Banco do Fayal
Fundado em Junho de 1922, o Banco do Fayal constituiu-se sob a forma de sociedade anónima fixando a sua sede na cidade da Horta. Com um capital inicial de 1200 Contos, aumentado para 3000 Contos no segundo exercício, o banco estabeleceu agência em Lisboa a cargo da firma João Machado da Conceição & Cª Lda., com escritórios à Rua da Conceição, vindo posteriormente a localizá-la na Rua Augusta. Desde o começo da sua existência, o Banco do Fayal assegurou uma extensa rede de correspondentes em todo o país, tendo igualmente relações com prestigiadas instituições nas principais praças europeias.
Nascido da congregação de vontades mobilizadas, sobretudo, entre a elite do comércio faialense à qual se associou a Casa Bancária Raposo dAmaral, Severim e Comandita, Lda, o Banco do Fayal propunha-se incentivar a economia do Distrito da Horta, contribuindo para o desenvolvimento da agricultura, comércio e indústria, propósitos que a simbologia do timbre adoptado bem comprova.
Entre os fundadores do Banco do Fayal contavam-se José Maria Dias e Francisco da Silva Ribeiro os quais, até à fase de reconstituição do banco em 1935, integraram a sua direcção. É de destacar a figura do primeiro já que, por sua morte em 14 de Julho de 1935, os elevados montantes dos seguros de vida que possuía reverteram a favor da instituição que dirigia.
Apesar de um contexto económico ainda revelador das sequelas da 1ª Grande Guerra, a instituição teve um começo auspicioso, facto patenteado, não só no volume das transacções realizado e na expressiva carteira de depósitos, mas igualmente na generosa repartição de dividendos os quais, até ao final da década de 20, atingiram taxas por vezes superiores a 20 %. Porém, decorrido um relativo desafogo económico à data da sua criação, os dirigentes do Banco do Fayal iriam confrontar-se com crescentes dificuldades afectando a vida económica do distrito, sendo de relevar as frequentes oscilações dos câmbios e das taxas de desconto; a escassez de numerário; o declínio acentuado da corrente emigrante para os Estados Unidos da América e a quebra nas remessas de cambiais em consequência da Grande Depressão. Como reflexo desta última, a intensificação do ritmo de levantamento de depósitos de emigrantes motivou efeitos gravosos na vida corrente da instituição.
Entretanto, na decorrência da crise económica que alastrava por todo o país desde finais da década de Vinte, factores de natureza local iriam agravar as condições em que o banco exercia a sua actividade, como sejam a redução de pessoal nas companhias de telecomunicações por cabo submarino operando na Horta e a situação de insolvência por parte de muitos dos sinistrados do terramoto de Agosto de 1926, que afectou profundamente a população da ilha do Faial, em geral, e a da cidade da Horta, em particular.
No final do exercício de 1934 a direcção do Banco do Fayal considerava que as transacções quase tinham paralisado, sendo sintomático constatar que o dividendo tinha atingido o seu mais baixo valor de sempre, com a taxa de 5%. Em Abril de 1935, o Banco do Fayal suspendia pagamentos e o Estado intervencionava a instituição, nomeando para o efeito um comissário. Nos termos do Decreto 20.287 de 7 de Setembro de 1931, o banco reiniciava a sua actividade em 15 de Maio de 1936. A persistência de um quadro económico desfavorável e a natural desconfiança suscitada pela fragilização das condições de exercício a que a instituição havia ficado sujeita, conduziriam a uma lenta asfixia do Banco do Fayal. Em resultado desta situação foi visível a degradação do volume das transacções e o insignificante valor da carteira de depósitos. Após uma sucessão de exercícios sem qualquer alteração significativa nos resultados, os accionistas do Banco do Fayal deliberaram, em Agosto de 1945, ceder os créditos e acções ao Banco Português do Atlântico. A incorporação neste banco, obedecendo a uma estratégia - aliás gorada, por imposição governamental - visando ganhar uma posição em Lisboa, teria lugar em 1946.
Segundo testemunhos coevos, os factos ocorridos em 1935, levando à suspensão de pagamentos, terão a sua origem no jogo dos interesses resultante das rivalidades políticas locais. Apesar desta alegação, não poderá ignorar-se que as dificuldades do Banco do Fayal ocorreram no quadro de uma crise bancária iniciada em 1930 na ilha da Madeira, alastrando depois aos Açores. De facto, primeiro na ilha de S. Miguel, no final de 1934, com a Casa Bancária Raposo dAmaral, Severim & Comandita, Sucessores Lda. e, logo depois, no começo do ano seguinte, com o Banco Micaelense, teve lugar uma sucessão de processos de intervenção do Estado, por suspensão de pagamentos, a que se seguiria a Caixa Económica do Montepio Terceirense e, por fim, o Banco do Fayal. Assim, será plausível buscar numa conjuntura mais ampla e complexa a causa profunda da crise que iria ditar o desaparecimento desta instituição bancária. Ricardo Madruga da Costa (Fev.1999)
Bibl. Arquivo Histórico do Banco de Portugal (Lisboa), Relatório e Contas da Direcção do Banco do Fayal, 1923-1944. Biblioteca Pública e Arquivo da Horta, Arquivo do Governo Civil do Distrito da Horta, Pasta da Conferência Económica do Distrito da Horta, 1939. Enes, C. (1994), A Economia Açoriana entre as duas Guerras Mundiais. Lisboa, Ed. Salamandra.
