banana

HISTÓRIA NATURAL A bananeira Musa spp. (Musaceae) é uma planta originária do Sueste asiático. Trata-se de uma monocotiledónea, em que a parte aérea é constituida pelas folhas, cujos pecíolos formam um pseudo-caule. A inflorescência é composta por agrupamentos de flores, cada um coberto por uma bráctea, determinando a infrutescência de aspecto típico e vulgar mas incorrectamente conhecido por cacho. As bananas ou dedos são pseudobagas partenocárpicas e reúnem-se nas frequentemente chamadas mãos ou pencas. Como os frutos não possuem sementes, a multiplicação da planta faz-se por via vegetativa, através de porções de rizoma com um ou mais gomos.

Das diferentes variedades já cultivadas nos Açores, apenas a “bananeira an㔠se pode considerar actualmente em cultura. Trata-se de um híbrido triplóide da Musa acuminata (grupo AAA, subgrupo Cavendish) também designada por “pequena anã”, “Dwarf Cavendish” ou “banana das Canárias” (Simmonds, 1959). Em Portugal é geralmente conhecida por “banana da Madeira” e nos Açores por “banana Regional”. Em comparação com as cultivares generalizadas nas regiões tropicais, a “bananeira an㔠caracteriza-se pela sua baixa estatura, maior tolerância às temperaturas baixas e frutos de menor dimensão. Outra bananeira ainda com alguma presença nos Açores, mas sem significado na produção, é a “bananeira prata”, do grupo AAB. No sentido de melhorar a qualidade do produto, especialmente o tamanho dos frutos, têm vindo a ser experimentadas, pelos agricultores da região, outras cultivares, entre as quais se destaca a “grande Naine”, do grupo AAA, subgrupo Cavendish.

CULTURA A introdução da cultura da bananeira nos Açores deverá remontar aos tempos da Volta da Mina, quando o arquipélago constituía a derradeira escala atlântica, no regresso à Europa. A demonstrar esta origem está o termo figo com que nalguns locais dos Açores é ainda chamada a banana, o que constitui uma herança evidente da designação inicialmente utilizada pelos exploradores portugueses do século XVI na zona de origem deste fruto e documentada em Ferrão (1986). Todavia, a cultura ganhou maior expressão com o fim do ciclo da laranja, constituindo hoje uma referência fundamental da fruticultura açoriana.

Dada a sua popularidade e dispersão, a cultura é aqui realizada em diversas condições climáticas, no entanto, as principais zonas produtoras localizam-se nas encostas viradas a sul e raramente ultrapassam os 100 m de altitude. Os bananais são instalados em parcelas de terreno densamente compartimentadas por sebes vivas. Consoante as ilhas, estas sebes são designadas por abrigos* ou bardos. Têm espessuras na ordem de 0,5 a 1 m e alturas compreendidas entre 4 e 6 m, dependendo dos ventos dominantes e dos declives em presença. As espécies usadas para este efeito variam com os hábitos locais e resumem-se ao Pittosporum undulatum, Pittosporum tobira, Banksia intergrifolia e, pontualmente, Camellia japonica e Metrosideros excelsa. Ultimamente, para além das sebes vivas, alguns produtores têm vindo a experimentar coberturas de rede com vista a contornar um pouco a sazonalidade da produção.

O sistema de condução da cultura é do tipo mãe-filha-neta. Caracteriza-se por cada rizoma possuir um pseudo-caule em produção e outros menores, um dos quais, por se encontrar em fase adiantada de desenvolvimento, no momento da colheita da infrutescência daquele primeiro pé, o substitui.

Devido ao menor crescimento vegetativo que se verifica no Inverno, as copas das bananeiras ficam diminuídas e fechadas. Por este facto, a zona onde se reúnem os pecíolos fica muito apertada, prejudicando o desenvolvimento da estrutura de reprodução, nomeadamente a saída do escapo floral. O designado afogamento do cacho leva os produtores a ajudarem o que se vulgarizou chamar parto, normalmente através do corte de uma ou duas folhas.

Uma prática generalizada, com vista a evitar alguns problemas sanitários e a melhorar o aspecto do produto final, é a espistilagem. Consiste na limpeza dos restos florais femininos, normalmente, com uma simples passagem da mão, alguns dias após a emergência da inflorescência, enquanto a camada de abcisão que liga o perianto e o pistilo à extremidade do fruto em desenvolvimento se encontra gelificada e é fácil o seu destaque.

A tutoragem da planta tem o objectivo de reduzir o risco de queda das plantas causado pela massa da própria infrutescência, mas, neste caso, prevendo a importante contribuição do vento para o fenómeno. O tutor utilizado é normalmente uma vara de madeira com uma extremidade em forquilha que, apoiado no solo, ampara directamente a base do pedúnculo da infrutescência ou o pseudo-caule do lado onde aquela se desenvolveu.

A utilização de sacos de polietileno para forçagem e protecção dos frutos, também é vulgar e tem como objectivo a criação de um microclima ao nível dos frutos. A operação é realizada quando a infrutescência ainda não atingiu o meio crescimento e consiste na sua cobertura com uma manga de polietileno, de cor azul ou transparente, a qual é amarrada no pedúnculo e deixada aberta na extremidade inferior. O seu uso obriga a maiores cuidados com os tratamentos fitossanitários e está mais generalizado no Inverno.

As principais limitações à cultura prendem-se com as condições climáticas, especialmente o vento e a temperatura baixa nos meses mais frios.

De entre as pragas mais comuns, salientam-se Cosmopolites sordidus, vários lepidópteros (Opogona sacchari e O. omoscopa) e diversas espécies de ácaros (Tetranychus spp.) e de tripes (Heliothrips haemorrhoidalis e Hercinothrips bicinctus). Entre as doenças, figura com destaque Stachylidium theobromae, para além de Mycosphaerella musicola e Gloeosporium musarum. A desinfecção das bananas com vista ao mercado não é realizada, dado não ser problemático o período que intermeia a colheita e a comercialização.

A banana é um fruto climactérico pelo que se torna necessário colher antes de se iniciar a produção de etileno, mesmo nas condições de exploração da cultura na região. À colheita segue-se a despenca e a entrega da banana para comercialização.

A banana produzida nos Açores apresenta características sápidas e alimentares excelentes, devido à variedade utilizada e ao avançado estado de maturação em que normalmente é colhida, o que se prende com a proximidade do mercado a que se destina.

PRODUÇÃO A partir de 1993, a produção de banana na União Europeia (UE) passou a ser determinada pela Organização Comum de Mercado (OCM) da banana (Regulamento (CEE) n.º 404/93, de 13 de Fevereiro). No âmbito desta, foi instituída uma ajuda compensatória para os produtores comunitários, com o objectivo de repor as eventuais perdas de rendimento resultantes das novas condições de mercado.

Nos Açores, esta ajuda compensatória e a obrigatoriedade de comercialização da banana através de organizações de produtores ¾instituída como condição necessária para poder beneficiar da ajuda¾ constituíram importantes aspectos estruturantes do sector. Na sua fase inicial, a aplicação da OCM traduziu-se num aumento do rendimento da cultura e no surgimento de organizações de produtores. Este último aspecto contribuiu para a melhoria do nível técnico e da qualidade, para um aumento do comércio inter-ilhas, para a estabilização da produção global e para a diminuição do número real de produtores, como consequência da distinção entre os produtores que recebem a ajuda e os que não a recebem (Ribeiro, 1995).

No momento da aplicação daquela política, avaliava-se a área total de bananal em 534 ha e o número de produtores em cerca de 4.000 (SREA, 1993), pelo que, na altura, foi considerada uma produção para os Açores aproximada às 7 500 tano-1. No entanto, com a aplicação da ajuda compensatória, verificou-se que os produtores que comercializavam a sua produção e que beneficiavam da ajuda eram consideravelmente menos, assim como a respectiva produção. A confrontação dos elementos do SREA e da aplicação da ajuda permite, por um lado, evidenciar o exagero daquela primeira estimativa e, por outro que, a par de produtores de maior dimensão, há, de facto, que admitir a existência de um grande número de pequenos produtores, circunscritos quase só ao auto-consumo, cujo conjunto representa uma parte ainda importante da produção de banana da região e a parte mais significativa do total de produtores.

O estudo dos produtores mais vocacionados para o mercado permitiu conhecer as suas características gerais (Ribeiro, 1995): a) produtividades médias na ordem das 17 tha-1ano-1; b) áreas médias de bananal por exploração inferiores a 2 ha, para a maioria dos produtores; c) proporção média da área da exploração agrícola ocupada por bananal superior a 50%; d) maior dependência dos pequenos produtores de terrenos arrendados, enquanto os maiores produtores exploram áreas próprias proporcionalmente mais significativas; e) idade média dos bananais da ordem dos 13 anos; f) bananal dividido, em média, em 2 blocos, havendo uma relação linear entre o número de blocos e a dimensão total da área de bananal; g) área média de cada bloco inferior a 1 ha; h) idade do produtor normalmente superior a 50 anos; i) maioria dos produtores com actividade agrícola a tempo inteiro; j) recurso quase exclusivo a mão-de-obra familiar; k) elevados custos de produção, determinados pela pequena dimensão da exploração e pela necessária importação dos principais factores de produção.

COMÉRCIO A produção regional comercializada deverá rondar as 3.000 tano-1, sendo apenas um terço daquele valor a beneficiar normalmente da ajuda compensatória. Ao nível da produção estima-se que a comercialização deste produto envolva um valor anual na ordem do meio milhão de contos.

O clima açoriano determina uma acentuada sazonalidade da produção. Por essa razão, os agricultores têm normalmente mais dificuldades com a colocação da banana no Verão e maiores problemas com a qualidade na restante parte do ano. De modo a regular a sua oferta, é comum ao comércio de maior dimensão realizar pequenas importações de banana, nomeadamente da Madeira, Canárias e América Latina.

As deficiências estruturais, designadamente os pequenos volumes de produção e a dispersão da oferta, têm conduzido a encargos acrescidos e a perdas de rendimento por parte da produção, sendo muitas vezes os retalhistas quem absorve as maiores fatias da mais-valia do produto.

Os mercados de ilha, embora com tendência para serem homogéneos internamente, diferem consideravelmente entre si, pois os custos de transporte entre as ilhas impossibilitam um efectivo mercado regional ou a consolidação de mercados sub-regionais. Ainda assim, existem produtores que apostam prioritariamente nos mercados das ilhas vizinhas. A comercialização directa pelos produtores é a forma mais generalizada nas ilhas menores, ocorrendo com maior frequência a concentração de produto em unidades de armazenamento, em S. Miguel e Terceira.

As produções tropicais recorrem às formas gigantes do sub-grupo Cavendish, com frutos de maior dimensão e mais resistentes ao transporte, menos interessantes do ponto de vista gustativo. É esta banana que, colhida numa fase intermédia da maturação, domina o mercado internacional. Este domínio é especialmente verdadeiro por parte das companhias que desenvolvem a sua actividade na América Latina, onde, entre os muito baixos custos de produção, surgem destacados os baixos salários praticados. Por oposição, as bananas obtidas na regiões ultraperiféricas da UE são menos concorrenciais, obrigando à adopção de medidas protectoras da cultura e das melhores condições sociais e laborais verificadas nos territórios da UE. No entanto, antes do ano 2000, o regime comercial europeu será alterado, sendo de esperar, nos Açores, maior concorrência de bananas de outras origens e maiores riscos de artificialização da viabilidade económica da cultura neste arquipélago (Ribeiro, 1997). Ao contrário das bananas de outras origens, o amadurecimento forçado não é, em regra, necessário, pelo que esta prática não tem aqui expressão.

Apesar de algumas tentativas, o incremento da produção para exportação demonstra não ter qualquer viabilidade. Deve ter-se presente que do preço Cost Insurance and Freight da banana importada na UE, que não se situa muito acima do preço médio ao produtor regional, cerca de 60% corresponde ao transporte e 20% à embalagem. Relacionados com este transporte, acrescem outros custos com o manuseamento, a selecção e a embalagem, que hoje não se fazem sentir na exploração nos Açores. Assim, a defesa da cultura nos Açores exigirá uma orientação dirigida para o mercado local e a adopção de medidas estruturais, ao nível da produção e da comercialização, que promovam a qualidade do produto, diminuam a sazonalidade da produção e, desse modo, assegurem e explorem de melhor forma o mercado regional. Francisco Medeiros Ribeiro (Abr.1998)

Bibl. Ferrão, J.M. (1986), Transplantação de Plantas de Continentes para Continentes no Século XVI. História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal. Lisboa, Academia das Ciências de Lisboa, II: 1085-1139. Ribeiro, F.M. (1995), A bananicultura nos Açores perante a Organização Comum de Mercado da banana (Regulamento (CEE) n.º 404/93). Tese de Mestrado, Universidade Técnica de Lisboa: 152 pp. Id. (1997), O futuro do mercado comunitário da banana e a sustentabilidade da produção nos Açores. III Jornadas Agronómicas Açorianas. Ponta Delgada, Ordem dos Engenheiros. Simmonds, N.W. (1959), Bananas. Londres, Longman. Serviço Regional de Estatística dos Açores (1993), Inquérito de Estruturas. Angra do Heroísmo.