bálsamo
1 Designação atribuída a várias óleo-resinas extraídas de espécies vegetais arbóreas e que têm em comum o aroma agradável e propriedades medicinais. Também é atribuída esta designação às árvores das quais estes produtos são extraídos, ou seja, às árvores do bálsamo.
São originárias da América Tropical e foram cultivadas pelos Incas, que sabiam extrair e utilizar os bálsamos. Após a conquista espanhola iniciou-se a exportação destes produtos para a Europa, onde eram utilizados em perfumaria e medicina. A importância atribuída aos bálsamos era tão grande que foram promulgadas duas bulas papais, em 1562 e 1571, declarando sacrilégio destruir as suas árvores. São mais frequentemente utilizados:
(a) bálsamo do Perú (Miroxilon pereirae, Leguminosae) Recebeu esta designação do Peru, onde era embarcado do porto de Callao. É uma espécie originária das florestas tropicais da costa americana do Oceano Pacífico, de porte imponente, madeira preciosa e flores extremamente perfumadas. O bálsamo é extraído dos ramos ou da seiva que exsuda do tronco. O exsudado é fervido em água, à superfície da qual se forma o bálsamo. Tem sido usado, externamente, no tratamento de dores reumáticas, queimaduras, doenças de pele e, internamente, para tosses, bronquite e asma. Dos frutos verdes desta planta prepara-se uma bebida alcoólica, o balsamito, popular na América Central.
(b) bálsamo de Tolú (Miroxilon balsamum, Leguminosae). Recebeu esta designação de Santiago de Tolú, na Colômbia, onde era embarcado. É também uma árvore originária da América Tropical, em cujo tronco se praticam golpes em forma de V, de onde exsuda a seiva, que solidifica com um aspecto cristalino e cor castanha ou amarelo-avermelhada. O seu aroma agradável torna-o útil para adicionar a xaropes, goma de mascar, doces e sorvetes, bem como a fricções e outros medicamentos.
(c) bálsamo de Gilead ou bálsamo do Canadá Extraído de vários abetos na América do Norte, nomeadamente do Abies balsamea (Pinaceae). É bem conhecido dos índios daquela região, onde ainda hoje é utilizado no tratamento de doenças de pele, tosses e outros problemas.
2 Nos Açores, o nome vulgar de bálsamo é atribuído a duas plantas gordas:
(a) Sedum forsterianum (Crassulaceae), originária da Europa Ocidental, vulgar em sítios pedregosos ou rochosos, muros e sebes. Espontânea nos Açores. Caméfito herbáceo com caules férteis de 13-30 cm. Folhas lineares, subroliças, planas na página superior, assoveladas; as folhas dos ramos estéreis estão reduzidas a um feixe terminal, folhas mascescentes na parte inferior do eixo. Flores numerosas, dispostas em cimeiras corimbiformes, sépalas oblongo-lanceoladas e pétalas amarelo-doiradas.
Numerosas Crassulaceas têm seiva com qualidades curativas. Não tem sido encontrada referência específica às qualidades medicinais de S. forsterianum. Todavia, o povo dos Açores, duma forma geral, acredita nas qualidades medicinais desta planta, que é aplicada sobre feridas para facilitar a cicatrização e com a qual confecciona xaropes e tónicos, o que explica o nome popular de bálsamo.
(b) Carpobrotus edulis (Aizoaceae), também designado pelo nome de chorão. Carpobrotus provém do grego karpos, fruto, e brota, comestível. É uma planta originária da África do Sul, encontrando-se disseminada pelo litoral de Portugal e ilhas dos Açores, naturalizada nas Flores, S. Miguel, Pico e Terceira (Franco, 1971), bem como no Sul da Europa, Califórnia e Austrália.
Ervas perenes, robustas mas prostradas, de caules com alguns metros. Folhas incurvadas com 50-130 x 5-12 mm, triquetas, suculentas, agudas, com o ângulo dorsal serrilhado. Flores solitárias, grandes, com 5-9- cm de diâmetro; inicialmente amarelas, tornam-se rosadas a purpurascentes, tubo do cálice aclavado, estames numerosos e amarelos, estigmas com 8 mm. Fruto turbinado, comestível, com as sementes embebidas em mucilagens.
É utilizado na fixação de dunas e taludes. Embora não se conheçam referências às qualidades medicinais desta planta, acontece esfregarem-se as folhas carnudas, depois de lhes darem uns golpes, em mãos gretadas ou em zonas do corpo inflamadas, para conseguir alívio. Ver aizoáceas.
3 Não vão longe os tempos em que numerosas farmácias vendiam os seus bálsamos, normalmente criação do farmacêutico ou dos seus antecessores. De comum, tinham todos esses medicamentos um aroma agradável e eram usados para aliviar as dores reumáticas ou para tratar queimaduras. A título de curiosidade, inserimos a receita do bálsamo popular, outrora vendido na Farmácia Pimentel, em Angra do Heroísmo, receita de Luiz Borges Pimentel, e que foi gentilmente cedida por sua neta, Isa Pimentel, actual directora técnica daquela farmácia: mentol cristalizado 5 g; salicilato de metilo 20 g; lanolina anidra 90 g; dissolver o mentol no salicilato e juntar à lanolina fundida quando morna. Raquel Costa e Silva (Dez.1999)
Bibl. Bown, D. (1995), The Royal Horticultural Society Encyclopedia of Herbs & Their Uses. Londres: 226, 315. Franco, J. A. (1971), Nova Flora de Portugal (Continente e Açores), vol. I: Lycopodiaceae-Umbelliferae. Lisboa, Sociedade Astória: 106, 250. Grieve, M. (1975), A Modern Herbal. Londres: 79-80. Pereira, S. A. (1953), Principais plantas cultivadas e espontâneas nos Açores. Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores. Ponta Delgada, 18, 2º semestre.
