balneoterapia

No arquipélago dos Açores existem seis estabelecimentos termais, de importância diversificada, que exploram algumas das numerosas nascentes termais existentes naquelas ilhas. Salientam-se, pelo seu estatuto, os estabelecimentos termais das Furnas, da Ribeira Grande, da Ladeira Velha e da Ferraria, na ilha de S. Miguel, do Carapacho, na ilha Graciosa, e do Varadouro, na ilha do Faial.

O estabelecimento termal da Ferraria localiza-se na costa W da ilha de S. Miguel, freguesia de Ginetes, concelho de Ponta Delgada. O manancial de água termal que abastece estes balneários recebe a mesma designação, nascente da Ferraria, e a primeira referência à sua existência remonta à descrição da ilha realizada por Frutuoso (1963).

A nascente é captada junto ao mar, por intermédio de um poço com 2.5 metros de profundidade que se encontra protegido por uma placa de betão (Acciaiuoli, 1953). Atendendo às condições de captação a água termal encontra-se misturada com a água do mar, numa proporção variável em função da altura da maré. A influência do mar no poço pode ser aquilatada pela flutuação do nível de freático no seu interior, que atinge uma amplitude de 0,5 m (Acciaiuoli, 1940).

Em resultado da mistura a água é fortemente mineralizada, do tipo cloretada sódica, de pH ácido (~ 6,04). A temperatura de exsurgência também varia ligeiramente, podendo referir-se os valores de 62.5º C e 69º C, respectivamente apontados por Acciaiuoli (1953) e pelos autores do presente texto numa visita ao local em Abril de 1998.

Após a captação a água termal era transportada em recipientes, no dorso de burros, para um pequeno estabelecimento termal que, não obstante a sua capacidade para albergar no máximo 25 doentes, chegou a alojar 40 aquistas distribuídos por três camaratas e cinco quartos individuais (Acciaiuoli, 1940).

O estabelecimento termal, que se encontra, de momento, encerrado, possui cinco salas de banhos, cada uma com uma única banheira. A água era utilizada para tratamentos de doentes reumatológicos, que no passado ali procuravam alívio para os seus padecimentos.

As termas das Caldeiras da Ribeira Grande, também designadas por Banhos da Côroa, localizam-se no lugar com o mesmo nome, ilha de S. Miguel, freguesia da Ribeirinha, concelho da Ribeira Grande.

A primeira descrição destas fumarolas (localmente designadas por caldeiras) que se conhece é feita por Gaspar Frutuoso, em meados do século XVI, no Livro Quarto das Saudades da Terra (Frutuoso, 1963).

O edifício dos banhos tem um escudo com data de 1811 tendo, contudo, sofrido modificações ao longo dos tempos, como se pode constatar da sua traça. É composto por quatro quartos para banhos, sendo dois individuais e dois para duas pessoas, todos com tinas de mármore. Além deste edifício existe ainda um outro chamado Assembleia para confraternização dos aquistas.

Existem ali duas caldeiras, a Caldeira Grande e a Pequena. São águas sulfúreas ácidas com temperaturas da ordem dos 69º C na Caldeira Pequena (Acciaiuoli, 1953). A água utilizada para os banhos resulta da adição de água fria à Caldeira Grande, daí resultando uma mistura a cerca de 65° C (Acciaiuoli, 1953). Refira-se, contudo, que medições semanais efectuadas pelos autores apontam para valores de temperatura entre 38º C e 52º C na Caldeira Grande.

A água termal da Ladeira Velha, que exsurge junto ao mar, na costa N da ilha de S. Miguel, freguesia de Porto Formoso, concelho da Ribeira Grande, foi experimentada pela primeira vez para fins terapêuticos no ano de 1905. A água termal da Ladeira da Velha é do tipo bicarbonatada sódica, gasocarbónica, com um pH ácido (~ 5,3) e uma temperatura aproximada de 28,5º C, como determinado pelos autores no decorrer de 1998.

Importa ainda salientar, embora careça de confirmação por outras fontes, que já cerca de 1870 um aristocrata teria utilizado com êxito a água da Ladeira da Velha, para alívio de uma afecção dermatológica, o que terá notabilizado as propriedades terapêuticas desta exsurgência (Arruda et al., 1911).

Em 1911 as condições físicas dos banhos foram melhoradas, em resultado da edificação de alguns barracões de madeira, o que permitiu que cerca de 10 doentes de lepra e 30 doentes do foro reumatológico e dermatológico recorressem a esta terapêutica (Arruda et al., 1911). Nesta publicação, salientava-se ainda a urgente necessidade de edificação de um estabelecimento termal definitivo, de forma a potenciar uma adequada utilização daquele manancial.

No ano de 1937 a nascente estava protegida por um pequeno cubículo em betão, rebaixado em relação ao nível do solo, e coberto por uma tampa com vigias de vidro. A captação era feita por duas bicas, permitindo o engarrafamento, e o caudal remanescente fluía por gravidade, por caleiras, para três quartos com banheira (Acciaiuoli, 1940). O apoio funcional aos banhos, nomeadamente a hospedagem dos doentes, era assegurado por quatro habitações, geminadas duas a duas, e por dois barracões de madeira, onde graciosamente os aquistas residiam durante a época balnear.

Actualmente as termas da Ladeira da Velha encontram-se em ruína, bem como os estabelecimentos anexos, e o acesso, difícil, faz-se mediante um caminho de pé posto.

A mais importante estância balnear dos Açores corresponde ao Centro Termal das Furnas, que se localiza na zona central da ilha de S. Miguel, na freguesia das Furnas, concelho da Povoação. As vinte e duas nascentes de águas minero-medicinais, e a cerca de uma dezena de fumarolas (localmente designadas por caldeiras), comprovam a riqueza e a diversidade de recursos minero-medicinais existentes no localmente designado vale das Furnas.

A primeira referência conhecida sobre as caldeiras das Furnas pertence a Pompeo Arditi de Pesaro (Viagem de Pompeo Arditi, 1948) e, embora se conhecessem as qualidades terapêuticas destas águas medicinais desde 1614 (Freitas, 1990), ainda em 1792 as pessoas que iam a banhos mandavam construir umas choupanas toscas, feitas com ramos, onde instalavam uns recipientes de madeira. A primeira construção de uma casa para banhos, feita de madeira e coberta de colmo, data de 1792 e pertencia a D. Maria Magdalena da Câmara (Freitas, 1990), conforme se pode ver num fac-simile dum desenho datado do mesmo ano, feito por Felix de Valois e Silva (Freitas, 1990).

Nos fins do século XVIII e durante o século XIX construíram-se, pelo menos 15 edifícios para banhos, públicos ou privados. Merecem realce os primeiros três banhos públicos, construídos a partir de 1815 e explorados pela Câmara Municipal da Vila Franca (Freitas, 1990); os Banhos da Câmara, pertença da Câmara Municipal da Povoação, recuperados em 1997; os Banhos do Chalet, agora encerrados; e, finalmente, o actual Centro Termal das Furnas, popularmente conhecido por Banhos Novos, cuja construção se iniciou em 1863. Refira-se, ainda, que este centro esteve encerrado entre 1986 e 1990 para uma total recuperação e remodelação do seu interior. Para se ter uma ideia da importância da balneoterapia das Furnas no passado, referimos que o número de banhos no verão de 1897 foi de 11836, segundo relatório do então director das termas.

O Centro Termal dispõe de vinte e quatro salas de banho, doze das quais preparadas para peloidoterapia, três salas de inalação e um ginásio de fisoterapia.

As águas utilizadas neste centro são as das Quenturas, da Caldeira Grande e as lamas da Caldeira de Pêro Botelho. A água das Quenturas é uma água hipertermal (temperatura de 59,8° C) levemente ácida (pH 6,45), bicarbonatada sódica, muito silicatada e férrea (Carvalho, 1955). A água da Caldeira Grande é hipertermal (temperatura de 99° C), alcalina (pH 8,34), sulfúreo-fluretada boretada, arseniacal, bicarbonatada sódica e fortemente silicatada (Carvalho, 1955). Ambas as águas são utilizadas quentes, ou após arrefecimento em reservatórios próprios para o efeito. As lamas da Caldeira de Pêro Botelho são constituídas por uma parte solúvel na água (0,90%) e uma parte insolúvel (99,9%). A sílica representa 50,7% da parte insolúvel e o sulfato 45,5% da parte solúvel (Acciaiuoli, 1953).

De entre as patologias para que as águas ou as lamas estão indicadas referem-se as afecções das vias respiratórias, reumatismais, do aparelho circulatório e hepatobiliares, dermatoses, colopatias, dispepsias gástricas, gastrites crónicas, depressões e eretismos nervosos.

Os tratamentos são feitos através de variados métodos: banhos de imersão, duches circular, com agulheta e com massagem, gota-a-gota rectal, irrigações ginecológicas, nebulização individual, inalações, pulverizações e cataplasmas de lama.

As termas do Carapacho localizam-se na costa S da ilha Graciosa, freguesia da Luz, concelho de Santa Cruz da Graciosa, sendo abastecidas  a partir da nascente termal com o mesmo nome. Esta exsurgência terá sido descoberta em 1750 (Moniz, 1884), embora se possa especular uma data mais antiga que 1711 para a sua localização, tal como é sugerido a partir das observações de Cordeiro (1981).

Inicialmente as condições existentes nos banhos do Carapacho eram rudimentares, sem habitações condignas para os doentes. Com efeito, a água era transportada em recipientes de madeira para as casas que albergavam os frequentadores daquela estância termal (Moniz, 1884; Acciaiuoli, 1953).

O actual estabelecimento termal veio por termo a estas contrariedades, e é composto por uma sala central, para ingestão da água, e duas alas com doze cabinas de banho e as salas de duche. A água é bombeada a partir de um poço com 7.5 metros de profundidade, variando o caudal com a maré, podendo atingir os 50 l/s na preia-mar (Zbyszewski et al., 1972).

A água termal do Carapacho é do tipo cloretada bicarbonatada sódica, com um pH de 7,5 e uma temperatura aproximada de 40º C (Acciaiuoli, 1953). Refira-se, contudo, que as características físicas e químicas da água termal podem variar em função da mistura com a água do mar, dependendo do momento da maré, como a flutuação de temperatura entre 35º C e 45º C, observada por Gaspar (1996), comprova.

Os tratamentos efectuados no estabelecimento termal do Carapacho eram do foro das afecções dermatológicas e reumáticas, por banhos, e das doenças do aparelho digestivo, por ingestão (Acciaiuoli, 1953).

No presente os banhos do Carapacho encontram-se encerrados, sendo a manutenção das termas da responsabilidade da Câmara Municipal de Santa Cruz da Graciosa.

O estabelecimento termal do Varadouro localiza-se na costa SW da ilha do Faial, freguesia do Capelo, concelho da Horta. A exsurgência termal situa-se junto ao mar, distando algumas centenas de metros para E do balneário, sendo captada no fundo de um poço com aproximadamente 4 metros de profundidade.

Em resultado da sua localização, bem como das condições de captação, ocorre uma extensa mistura da água termal com a água do mar, o que se reflecte no quimismo e na elevada mineralização do manancial, bem como numa ligeira flutuação dos parâmetros físico-químicos em função da altura da maré. A água termal é do tipo cloretada bicarbonatada sódica, de pH ácido (6,75) e temperatura variável entre 28º C e 32º C, referindo Acciaiuoli (1953) e Zbyszewski et al. (1959) que a sua utilização terapêutica é indicada para patologias do foro reumatológico e dermatológico, bem como gastrites, hepatites e colites.

A exsurgência termal do Varadouro foi descoberta em Junho de 1853 (Lima, 1981), e desde logo começaram a acorrer doentes para experimentar as suas qualidades terapêuticas. Na ausência de um balneário em condições a água era inicialmente transportada em barricas de madeira para casas particulares do lugar do Varadouro, ou para a sede da freguesia. Em 1908 foi erigido um balneário incipiente, bem como foi providenciada a melhoria das condições de captação.

No ano de 1954 foi inaugurado um novo estabelecimento termal no Varadouro, constituído por duas alas com doze salas de banho cada. Na sua época áurea os banhos do Varadouro chegaram a ser frequentados por cinquenta a setenta pessoas por dia, frequência esta que baixou para quinze a vinte aquistas nos últimos anos. Culminando a decadência da importância das termas do Varadouro, estas encontram-se encerradas desde o ano de 1997. Rui M. Coutinho e J. Virgílio Cruz (Fev.1999)

Bibl. Acciaiuoli, L. M. C. (1940), Águas Minerais do Continente e Ilha de S.Miguel. Lisboa, Direcção-Geral de Minas e Serviços Geológicos. Id. (1953), Le Portugal Hydromineral. Lisboa, Direcção-Geral de Minas e Serviços Geológicos. Arruda, J. B. e Cabral, A. S. (1911), Relatório das Águas Medicinaes da Ladeira da Velha. Ponta Delgada. Carvalho, H. (1955), Estudos Analíticos de Águas Termais. Lisboa, Direcção-Geral de Minas e Serviços Geológicos. Cordeiro, A. (1981), História Insulana das Ilhas a Portugal Sugeytas no Oceano Occidental. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional de Educação e Cultura. Freitas, B. J. S. (1990), Uma Viagem ao Valle das Furnas na Ilha de S. Miguel em Junho de 1840. Povoação, Câmara Municipal. Frutuoso, G. (1963), Livro Quarto das Saudades da Terra. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada. Gaspar, J. L. (1996), Ilha Graciosa (Açores) - História Vulcanológica e Avaliação do Hazard. Tese de Doutoramento, Universidade dos Açores, Ponta Delgada. Lima, M. (1981), Anais do Município da Horta (História da Ilha do Faial). Horta, Câmara Municipal. Moniz, A. (1884), Ilha Graciosa (Açores) - Descripção Historica e topographica. Angra do Heroísmo. Viagem de Pompeo Arditi de Pesaro à ilha da Madeira e aos Açores, 1567 (1948), Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, 6: 173-183. Zbyszewski, G., Almeida, F. M., Ferreira, O. V. e Assunção, C. T. (1959), Carta Geológica de Portugal na escala 1/25000. Notícia explicativa da folha Faial (Açores). Lisboa, Serviços Geológicos de Portugal. Zbyszewski, G., Medeiros, A., Ferreira, O. V. e Assunção, C. T. (1972), Carta Geológica de Portugal na escala 1/25000. Notícia explicativa da folha Graciosa (Açores). Lisboa, Serviços Geológicos de Portugal.