baleia no cinema
O cinema de Holywood mitificou a baleia através de diversas adaptações de Moby Dick, romance homónimo publicado em 1851 e da autoria do americano Herman Melville. Tratando-se de uma das mais conhecidas obras da literatura universal, a baleia branca, o capitão Acab e a tripulação do Pequod viriam a ser referências cinematográficas que ainda hoje permanecem no nosso imaginário e na nossa memória colectiva.
O mesmo já não se poderá dizer da baleia no interior do cinema português. A grande epopeia do baleeiro açoriano, magistralmente retratada nalguns romances do escritor Dias de Melo, não chegou praticamente aos écrans. Apenas dois filmes portugueses dão conta da relação do homem com a baleia: A Canção da Terra (1938), de Jorge Brum do Canto, rodado em Porto Santo, e Quando o Mar Galgou a Terra (1954), de Henrique Campos, rodado na ilha de S. Miguel.
A Canção da Terra é um filme superficial que, à boa maneira salazarista, não discute Deus, Pátria, História, Autoridade, Família, Trabalho e Virtude... Fala-se aqui de «um bom povo insular», mais ou menos feliz com a sua sorte, vivendo sem inquietações de maior, tirando as incertezas do mar. A baleação surge, neste filme, não como uma necessidade económica, mas como «um modo de vida».
Outros parecem ser os propósitos (neo-realistas?) de Quando o Mar Galgou a Terra, brilhante adaptação da peça de teatro homónima de Armando Côrtes Rodrigues. José, uma das personagens, é baleeiro e concentra em si traços inerentes ao homem do mar: coragem, individualismo, um sentido muito apurado de dignidade e um sentimento da liberdade que se aprende nas rotas marítimas. Cenas verídicas da baleação, filmadas nos mares dos Açores, dão ao filme um testemunho de inegável credibilidade.
Em 1992, com a adaptação que a RTP/Açores fez de Mau Tempo no Canal, romance homónimo de Vitorino Nemésio, a baleia voltou a ser o centro das atenções, quer pelas imagens da caça à baleia (de grande beleza estética e plástica), quer pela intensidade dramática patente nos episódios 4 e 5. Os baleeiros picarotos, lançados no encalço das baleias, são personagens de grande riqueza humana e possuem uma aura de prestígio e de admiração que Nemésio lhes deu e que o realizador José Medeiros tão bem retratou.
Nos tempos que correm, a baleia tornou-se cabeça de cartaz e é filmada por gente de todo o mundo, através do whale watch naquela que constitui uma actividade marítimo-turística de crescente importância.
Terminada a aventura baleeira, os cachalotes passeiam-se livremente pelos mares dos Açores. Victor Rui Dores (Jun.1999)
