baleia no cancioneiro

Antes de a caça à baleia se tornar uma actividade industrial radicada nos Açores, as baleeiras norte-americanas tinham sido um recurso para a mão-de-obra açoriana e, principalmente, o veículo privilegiado para se atingir o território do Novo Mundo, em fuga ao recrutamento militar e à fome – e desse modo são inseparáveis dos rumos que a emigração açoriana tomou no século passado, com reflexos na própria linguagem, em que a palavra baleeiro se tornou equivalente a emigrante.

O impacto produzido pela caça à baleia na vida açoriana, sobretudo nas ilhas do grupo central (com destaque para as ilhas do Pico e do Faial), as suas incidências no tecido social e a sua importância económica vão a par com os seus reflexos em determinadas manifestações de cultura popular, dando origem a uma forma particular de artesanato (scrimshaw e miniaturas de botes baleeiros), e não deixam também de repercutir-se no interior da literatura escrita e da cultura oral, sobretudo a nível do cancioneiro.

Vejamos alguns exemplos da presença da baleia no cancioneiro açoriano: «Ai quem pegasse nos homens/ Bem calçados numa meia,/ Botados ao seio do mar/ Para engodo da baleia» (Terceira); «Eu vou por aqui abaixo/ Como quem vai à baleia/ Não é nada casar pobre/ Como ter a mulher feia» (Flores); «Lá no mato salta a cabra/ No mar adana a baleia,/ Canta o melro na gaiola,/ Chora o preso na cadeia» (S. Jorge); «Balear por balear/ Nunca no mar baleei./ Balearam os meus olhos/ Quando eu para ti olhei» (Pico); «Ai meu amor, meu amor/ Ai meu amor baleeiro!/ Eu sou tua, tu és meu/ Serás meu amor primeiro» (ilha do Pico). Victor Rui Dores (Jun.1999)