baleia, caça à
A denominada caça à baleia, na realidade ao cachalote, foi praticada nos mares dos Açores desde remotas eras. O erudito historiador Gaspar Frutuoso, na sua monumental obra Saudades da Terra, faz alusão a três grandes peixes que no dia 10 de Junho de 1580 se viu no mar da banda sul da ilha de S. Miguel, da Povoação Velha até à cidade e que por aqueles mares andaram durante cinco dias até que os barcos de Vila Franca encontraram um morto, e que julgavam ser uma baleia (Frutuoso, 1981: 252).
Em 1768, D. Antão de Almada, primeiro governador e capitão geral das ilhas dos Açores, comunicava à Corte que, «sendo o azeite de baleia um dos géneros de grande utilidade para estas ilhas, os ingleses no ano passado tiraram grande proveito com 60 embarcações, que aumentaram no ano seguinte para 200 de um só mastro, de cuja caça retiraram grande proveito em azeite, esparmacetti e âmbar» (Serpa, 1886: 23).
Por este documento se pode verificar e concluir que já nesses recuados tempos os açorianos nos seus mares caçavam a baleia que muito útil lhes era pelos proveitos que tiravam dos animais caçados ou recolhidos.
Pelos mares dos Açores abundavam os cachalotes, naturalmente atraídos para as costas das ilhas por causa das maiores disponibilidades alimentares.
Robert Clarke, do Instituto Nacional de Oceanografia de Wormiey, Inglaterra, num trabalho sobre a «Biologia dos Cachalotes Capturados nos Açores» diz que as capturas mensais e a proporção do sexos mostram que o stock dos Açores migra. Uma fracção reduzida constituída virtualmente só por machos, frequenta as ilhas no inverno mas as fêmeas, e a maior parte dos machos, começam a chegar em Maio, alcançando o stock a sua maior força em Julho (Clarke, 1971: 59).
Os cachalotes aproximavam-se da costa e daí a facilidade da sua captura. O entusiasmo foi crescendo, com a passagem das baleeiras americanas que sulcavam os mares das ilhas, dos Açores a Cabo Verde na perseguição do monstro marinho.
A meados do século XIX, um proprietário lajense aventurou-se a armar um brigue em baleeira, mas a sorte não lhes sorriu.
Em 1876, o capitão Anselmo Silveira (ou Silva), que havia embarcado jovem numa das baleeiras americanas, como era vulgar na época, retornado à terra natal, estabeleceu um contrato de baleação, em 28 de Abril daquela ano, com a Casa Dabney, da Horta, representada por Samuel W. Dabney, ao tempo cônsul americano naquela cidade açoriana, e George S. J. Oliver, para a instalação de uma armação baleeira na Calheta de Nesquim, da ilha do Pico. É o primeiro contrato de baleação escrito que se conhece. Depois, outras armações foram aparecendo nos diversos portos da ilha do Pico, quase todas fundadas com a cooperação dos baleeiros que vinham regressando à ilha, depois de durante alguns anos andarem embarcados na caça da baleia em barcas americanas.
Em 1893, existiam nos portos da ilha do Pico 39 canoas destinadas à caça ou pesca da baleia ou cachalote: 2 no porto de São João; 15 no porto da vila das Lajes; 7 no porto de Santa Cruz das Ribeiras; 4 no porto da Calheta de Nesquim; e 4 no porto de Santo Amaro. Nesse ano, um violento ciclone destruiu as armações de Santo Amaro e de São João, levando ao seu encerramento.
Quatro anos decorridos estavam registadas vinte e quatro canoas pertencentes a armações sediadas em Lajes do Pico, Calheta de Nesquim, Ribeiras e São Roque do Pico. Todas elas eram sociedades irregulares. As primeiras escrituras, que transformaram aquelas armações em sociedades civis, datam de 1904. Foram refundidas em 1918 e, em 1929, transformaram-se em sociedades por quotas, em obediência a legislação publicada naquela época.
Na década de 40 do presente século existiam duas armações na Calheta de Nesquim, três em Santa Cruz das Ribeiras, sete na vila das Lajes, uma em São Mateus e uma em São Roque do Pico, esta resultante da fusão das três anteriormente existentes naquele porto.
A caça do cachalote representou na primeira metade do século XX, como nos finais do século anterior, uma das mais importantes e florescentes actividades industriais da ilha do Pico e, talvez por isso, foi objecto de legislação diversa que regulamentou a actividade durante um século.
Em 1862 foi publicada uma lei, com data de 26 de Maio, que concedia certos benefícios aos navios, utensílios e indivíduos que se empregassem na pesca da baleia.
Por Lei de 10 de Abril de 1877, foi prorrogado por mais dez anos os benefícios outorgados pela lei anterior.
A Portaria de 14 de Abril de 1886 regulamenta as Leis de 26 de Maio de 1862 e de 10 de Abril de 1877.
Em 1902 foi publicado o Regulamento para a Pesca da Baleia nos Mares dos Açores. Por ele o conjunto de embarcações e do material precisos para a captura dos cetáceos e extracção dos seus produtos, era designado por Armação da baleia.
Quase um quarto de século passado, aparece o Decreto nº 11011, de 31 de Julho de l925, que aprova o Regulamento Provisório da actividade baleeira por pequenas embarcações nos mares dos Açores.
Alguns anos decorridos surge o Decreto nº 39657, de 19 de Maio de 1954, que aprovou o Novo Regulamento para a Pesca de Cetáceos e instituiu o regime de zonas de baleação, que veio a ser fixado pela Portaria nº 15426, de 18 de Junho de 1955.
Quanto se estabeleceram as estações terrestres, o óleo dos animais - cachalotes - era extraído em caldeiros a fogo directo. Depois, e com o desenvolvimento da actividade, foram instaladas fábricas providas de autoclaves, para a extracção do óleo e produção de farinhas, no Cais do Pico (São Roque do Pico) e Lajes do Pico.
O óleo de cachalote era, inicialmente, exportado para os Estados Unidos da América do Norte e, já no presente século, para diversos países da Europa.
Localmente, e antes que fosse vulgarizado o uso de petróleo, era o óleo de baleia e de peixes marinhos que alimentava os instrumentos domésticos de iluminação (as candeias).
Os ossos e o marfim dos dentes do cachalote foram largamente utilizados pelos artesãos na manufactura de objectos de pequeno luxo. De salientar as bengalas, cachimbos, boquilhas, jogos de xadrez, facas de papel, estatuetas, e diversas peças de adorno, afinal o scrimshaw, muito procurado e apreciado por nacionais e estrangeiros.
Resultante da actividade baleeira, desenvolveu-se a construção naval. Quando do início da caça ao cachalote pelas armações terrestres, as canoas ou botes como igualmente são conhecidas, bem como todos os utensílios e demais palamenta, utilizados na actividade eram importados dos Estados Unidos da América. Depois, um jovem lajense, Francisco José Machado, que ficou conhecido pelo Experiente, teve a iniciativa de construir uma canoa. Foi a primeira de dezenas que ele, os filhos e outros calafates acabariam por construir para todas as armações estacionadas nas diversas ilhas, na Madeira e até no continente.
A actividade baleeira, tornada proibida, terminou em Novembro de 1987. Dela ficou o Museu dos Baleeiros, o estabelecimento do género mais visitado nos Açores. No ano de 1997 passaram por este museu da Vila das Lajes do Pico 19 053 visitantes, sendo 13 477 nacionais e 5570 estrangeiros.
Dada a extraordinária actividade baleeira que se desenvolveu na vila das Lajes, o principal centro baleeiro de Portugal, ficou ela conhecida por Vila Baleeira dos Açores.
Sobre a vila das Lajes do Pico e a actividade baleeira nela desenvolvida, escreveu Raul Brandão: As Lajes é terra de baleeiros - seis armações, duzentas pessoas empregadas na pesca. (...) Tudo cheira a baleia e está besuntado de baleia, que é derretida em grandes caldeirões para extrair o óleo (Brandão, 1926: 105).
Por seu lado, referindo-se às Lajes, escreveu Vitorino Nemésio: Só a vila das Lajes, capitania e assento dos primeiros povoadores, conserva o seu traçado e na massa do seu casario os sinais de uma capitalidade desaparecida. Era, além disso, a capital baleeira - e a baleia ainda é a grande fonte de riqueza da ilha (Nemésio, 1983: 134). Ermelindo Ávila (Mar.1998)
Bibl. Brandão, R. (1926), As Ilhas Desconhecidas. 2ª ed., Lisboa. Clarke, R. (1971), A Biologia dos Cachalotes Capturados nos Açores. Arquivo Açoriano, Coimbra. Figueiredo, J. M. (1946), Introdução ao Estudo da Indústria Baleeira Insular. Lisboa. Frutuoso, G. (1981), Livro Quarto das Saudades da Terra. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, II. Nemésio, V. (1983), Corsário das Ilhas. Lisboa. Serpa, J. (1886), A Indústria Piscatória das Ilhas do Fayal e Pico. Coimbra.
