baleação americana

As baleeiras americanas, ou melhor inglesas, pois  os Estados Unidos ainda não existiam como nação independente, terão começado a aportar aos Açores por volta de 1765. As capturas de cachalotes eram tão produtivas nesta região, a que os baleeiros  da Nova Inglaterra chamavam Western Islands Grounds,  que continuaram a frequentar  o arquipélago em cada vez maior número.

De pequenas embarcações passaram a brigues, escunas e barcas  de três mastros e 350 a 450 toneladas, ou mais, com cerca de 40  tripulantes, transportando 4 a 6 botes baleeiros e possuindo instalações a bordo para derreter o toucinho em grandes caldeiros. As áreas de pesca foram sucessivamente alargando, passando de viagens de algumas semanas a campanhas de 3 e 4 anos.

Era corrente afirmar-se que se pressentiam os navios baleeiros a várias milhas de distância, antes de ser possível uma observação visual.

A presença dos baleeiros da Nova Inglaterra nos mares dos Açores foi uma novidade para a época. O Governador e Capitão General dos Açores, D. Antão de Almada, em carta ao ministro do reino Francisco Xavier de Mendonça Furtado, datada de 19 de Outubro de 1768, faz eco desta presença e apela ao governo para o desenvolvimento desta actividade pelos insulares. Começa por relacionar a grande utilidade e consumo de azeite de baleia nas habitações açorianas com a grande abundância de cetáceos nos nossos mares. Em segundo lugar destaca o interesse, nas suas palavras “avultada conveniência”, que haveria para a Fazenda Real e para os locais na introdução desta actividade, justificando com os valores e volume das capturas efectuadas pelos ingleses da Nova Inglaterra. Segundo esta carta, no ano anterior, cerca de 60 embarcações baleeiras terão arrecadado 10.000 barris de azeite, vendidos a 10$000 cada um. Em 1768, cerca de 70 navios baleeiros, armando cerca de 200 botes baleeiros terão obtido receitas globais no valor de 800:000 reis com a venda de azeite, espermacete e âmbar. Esse ano terá sido de recorde nas capturas efectuadas nos Açores pelos navios de New Bedford. Por último, indica todos os preparos, apetrechos para esta actividade e o respectivo custo. É curioso notar que esta carta já propunha uma pesca estacional, a partir dos portos insulares, já que os botes baleeiros americanos haviam pescado à vista das ilhas.

A quantidade de navios baleeiros nos Açores em cada Verão era muito elevada. Em 1811, dos 37 navios entrados nas Flores, 9 eram embarcações baleeiras americanas provenientes de Nuntucket. Para o ano de 1866, Marcelino de Lima refere que dos 327 navios entrados no Faial, 104 eram navios baleeiros. Em 1910, próximo do fim da baleação americana no Atlântico (1925), foram registados 12 navios baleeiros na Horta.

Diversas razões justificam a presença de navios baleeiros nos Açores. Certamente pela abundância de cetáceos e, sobretudo, de cachalotes, espécie particularmente procurada pelo espermacete e âmbar. Desde sempre os Açores, pela sua posição geoestratégica, estão no eixo das rotas à vela entre a América, a Europa e a África. Eram o primeiro porto de escala – port of call – para obter provisões frescas e fazer aguada. Aqui era fácil e económica a obtenção destes produtos, frequentemente através de trocas  comerciais, que incluíam o próprio azeite de baleia. Os portos das Flores e da Horta eram os preferidos, de entre todos. A partir de 1804, John Pomeroy Dabney, nomeado cônsul dos Estados Unidos da América em 1808, instalou-se na abrigada baía da Horta, onde fundou um importante empório comercial baseado no apoio logístico aos navios baleeiros que aí descarregavam o azeite de baleia, depois reenviado para os portos americanos pela família Dabney, podendo assim continuar a sua faina sem ter de regressar ao porto de origem para descarregar.

De destacar ainda que os Açores eram uma zona muito procurada pelos comandantes das baleeiras para recrutar tripulações. Herman Melville (1851) na obra mais emblemática sobre baleação, Moby Dick, constata que «um não pequeno número de baleeiros provém dos Açores, onde os navios de Nuntucket fazem frequentemente escala para aumentar as suas equipagens com os robustos camponeses dessas ilhas rochosas» e remata «Não se sabe porquê, mas é dos ilhéus que saem os melhores baleeiros» .

A quantificação desta emigração levanta inúmeras dificuldades. Os registos são escassos e não estão suficientemente estudados. Os mais antigos são dos inícios do século XIX. Em muitos casos partia-se clandestinamente – de salto – às escondidas das autoridades locais. A prática de anglicizar os nomes levanta igualmente várias dificuldades, bem como a taxa de mortalidade a bordo e a dispersão, por vezes deserção, pelos diversos portos de escala de todos os oceanos.

Segundo João Afonso (1998), os nomes portugueses existem aos milhares em toda a documentação baleeira americana. Eduardo Mayone Dias (1979) arrolou, entre 1844 e 1925, 215 viagens sob comando de açorianos. Nos começos deste século, entre 1916 e 1925, já numa fase de declínio da baleação americana, 65,5% das viagens eram comandadas por açorianos. É lícito pensarmos que muitos mais terão embarcado como vigias, trancadores, carpinteiros, remadores ou simples marinheiros.

Muitos baleeiros açorianos estabeleceram-se nas mais variadas partes do mundo, nomeadamente no Canadá, no Brasil, na Nova Zelândia e no Chile, onde um açoriano participou no início da baleação naquele país. A bordo dos navios baleeiros americanos foram a guarda avançada de muitos outros emigrantes que se lhes seguiram, comprovando a afirmação de Robert Clark de que em todos os portos onde houve baleação, no século passado e neste, podiam ser encontrados açorianos entre as companhas. Francisco G. A. Medeiros (Mar.2000)

Bibl. Afonso, J. (1998), Mar de Baleias e Baleeiros. Angra do Heroísmo, Direcção Regional da Cultura. Clarke, R. (1954), Open Boat Whaling in the Azores, The History and Present Methods of a Relic Industry. Discovery Reports, XXVI. Dias, E. M. (1979), Baleeiros Portugueses na América. Sep. do Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, 35. Melville, H. (1851), Moby Dick. Lisboa, Relógio d’Água Ed., 1-2.