bacilariófitas

Algas unicelulares, por vezes reunidas em colónias, vulgarmente conhecidas por diatomáceas. A sua cor castanho-dourado é-lhes atribuída pela fucoxantina, pigmento fotossintético do grupo das xantofilas, que mascara os outros pigmentos fotossintéticos presentes, nomeadamente as clorofilas a e c e os carotenos. O principal produto de reserva é a crisolaminarina, estando também presentes gotas lipídicas. As células são revestidas por uma parede constituída por sílica, denominada frústula, formada essencialmente por duas peças, a epivalva e a hipovalva, que encaixam uma na outra como uma caixa e a sua respectiva tampa. As valvas apresentam ornamentações delicadas, com formas e orientações diversas consoante as espécies.

As diatomáceas são algas cosmopolitas, ocorrendo em meios com diferentes graus de salinidade, desde os habitats dulçaquícolas até ao meio marinho. Algumas vivem no estado planctónico, isto é, em suspensão na água, outras desenvolvem-se no estado bentónico, depositadas sobre o fundo, e outras ainda aderentes a suportes diversos, nomeadamente rochas e plantas submersas. Um grande número de diatomáceas habita o meio terrestre, necessitando de humidade, pelo menos, periodicamente.

O estudo das diatomáceas de água doce dos Açores teve início em 1873, quando aportou nestas ilhas a expedição científica britânica H. M. S. Challenger. O naturalista da expedição, H. N. Moseley, colheu algumas amostras de algas na região das Furnas. O estudo dessas amostras por parte do Rev. E. O’Meara, resultou na primeira publicação sobre diatomáceas de água doce dos Açores (O’Meara, 1874). Desde então foram vários os trabalhos que envolveram o estudo destas algas nos Açores (Trelease, 1897; Holmboe, 1901; Krieger, 1931; Manguin, 1942; Mölder, 1947; Johansson, 1977; Oliveira, 1989; DCEA, 1991; INOVA, 1996; Gonçalves, 1996; Id., 1997). Desses trabalhos destacam-se os de Holmboe (1901) que analisou amostras provenientes das Ilhas de S. Miguel, Faial e Terceira, onde estão 87 tipos de diatomáceas, das quais 73 consideradas novas para os Açores, e descrita 1 variedade endémica; Manguin (1942) que refere 225 tipos de diatomáceas, das quais 170 novas para os Açores e 27 endémicas, em amostras provenientes das ilhas de S. Miguel, Santa Maria e Flores; Mölder (1947) que refere 151 tipos de diatomáceas, das quais 63 tidas como novas para o arquipélago, em amostras colhidas nas ilhas de S. Miguel, Terceira, S. Jorge, Pico, Flores e Corvo.

Actualmente estão referidos para os Açores 375 tipos de diatomáceas de água doce, correspondentes a 262 espécies, 3 subespécies, 84 variedades e 26 formas, distribuídas por 10 famílias pertencentes às 2 ordens existentes nas diatomáceas. Entre as diatomáceas conhecidas nos Açores encontram-se 6 espécies, 9 variedades e 15 formas que são endemismos açorianos (Holmboe, 1901; Krieger, 1931; Manguin, 1942).

Tal como se verifica com as demais algas de água doce, as diatomáceas apresentam, nos Açores, uma pobreza específica notória, comparativamente a outros locais, nomeadamente no continente europeu. Esta pobreza deve-se, principalmente, ao isolamento geográfico das ilhas e à baixa diversidade de substratos (Bohlin, 1901; Manguin, 1942; Bourrelly e Manguin, 1946a).

As espécies presentes nos Açores são na sua maioria formas cosmopolitas largamente distribuídas na Europa ocidental e central. As restantes espécies são de origem ártico-alpina ou oriundas de regiões tropicais, particularmente das Antilhas (Bourrelly e Manguin, 1946b). Tanto as espécies de origem nórdica como as tropicais são sobretudo formas subaéreas, de habitats terrestres, resistentes a períodos de secura relativamente longos. Este facto reforça a importância que as aves migratórias tiveram na colonização e desenvolvimento das diatomáceas no Arquipélago dos Açores (Bohlin, 1901; Bourrelly e Manguin, 1946b). A acção humana, através da introdução de peixes, anfíbios e plantas aquáticas, deve ter tido, também, uma importância significativa no povoamento algal das ilhas açorianas (Bohlin 1901).

Apesar de nas diatomáceas o número de endemismos açóricos ser muito superior ao que se verifica noutros grupos de algas, Bourrelly e Manguin (1946b) realçam a pobreza relativa destas ilhas em espécies endémicas, resultante, provavelmente, da juventude do arquipélago. Contudo o número de formas endémicas descritas por Manguin (1942) que derivam em geral de espécies cosmopolitas, é já indicativo de uma marcada tendência de variação (Bourrelly e Manguin, 1946b).

Das diatomáceas endémicas dos Açores destacam-se as 7 espécies descritas por Mangin (1942):

Anomoeoneis spectabilis (Naviculaceae) - Valva estreita, rombóide-lanceolada, com extremidades arredondadas agudas. Área axial estreita mas bem delimitada, área central elíptica lanceolada. Estrias transapicais radiais, 28 em 10 µ, cruzadas longitudinalmente por 1-2 linhas hialinas. Comprimento: 54,5 µ; largura: 8 µ.

Fragilaria punctato-striata (Fragilariaceae) - Frústula em vista conectiva linear-rectangular. Valva linear-lanceolada, com bordos mais ou menos uni ou bilateralmente cavados na parte mediana, com extremidades diminuídas-rostradas, por vezes fracamente capitadas. Pseudorafe estreito e lanceolado. Área central alargada transapicalmente até aos bordos valvares, ou apenas num dos lados. Estrias pontuadas. Comprimento: 18-25 µ; largura: 2,5-3 µ; 12-15 estrias em 10 µ.

Navicula dispersa (Naviculaceae) - Valva linear elíptica, com extremidades arredondadas obtusas. Rafe direito, área axial estreita ligeiramente alargada à volta do nódulo central numa área central elíptica. Estrias paralelas, por vezes muito ligeiramente radiais em direcção ao meio da valva, 25-28 em 10 µ. Comprimento: 9,5-10 µ; largura: 2,5-3 µ.

Navicula infirma (Naviculaceae) - Valva elíptica, com extremidades alongadas rostradas e pólos largamente arredondados obtusos. Rafe bem marcado, área axial estreita, ladeada por duas linhas marginais opacas, não alargada à volta do nódulo central. Estrias radiais, um pouco mais distantes na parte mediana da valva, cerca de 30 em 10µ, mais de 35 junto às extremidades. Comprimento: 10-12 µ; largura: 4-4,5 µ.

Pinnularia allorgei (Naviculaceae) - Valva linear-lanceolada, ligeiramente inchada na parte mediana, com pólos arredondados obtusos. Rafe complexo, com braços 3-ondulados e sinuosos. Área axial mais ou menos alargada unilateralmente à volta do nódulo central. Estrias transapicais radiais no centro e convergentes em direcção às extremidades, cerca de 7-8 em 10 µ. Grandes linhas longitudinais estreitas. Comprimento: 171-182 µ; largura: 21-23 µ; Proporção entre comprimento e largura 7-8:1.

Synedra allorgei (Fragilariaceae) - Frústula com eixo apical curvo. Valva igualmente arqueada, por vezes quase direita, estreita e muito alongada, de contorno variável, com bordos paralelos ou diminuindo insensivelmente do meio para as extremidades, estas são capitadas, por vezes claviformes ou ainda espatuliformes, com pólos arredondados obtusos. Estrias muito finas, mais de 35 em 10 µ, de comprimento uniforme e delimitando um largo pseudorafe. Comprimento: 252-266 µ ; largura: 3-4,5 µ. Vítor Gonçalves (Out.1998)

Bibl. Bohlin, K. (1901), Ètude sur la flore algologique d'eau douce des Açores. Bihang till Kongl. Svenska Vetenskaps-Akademiens Handlingar, 27:1-84. Bourrelly, P. e Manguin, E. (1946a), Contribuition à la flore algale d'eau douce des Açores. Memoires de la Société de Biogéographie, 8: 447-500, plat. I-IX. Bourrelly, P. e Manguin, E. (1946b), Les caractères biogèografiques de la flore d'eau douce des Açores. Comptes Rendus hebdomadaires des Scéances de L’Académie Sciences. Paris, 222: 682-683. DCEA (1991), Controlo da Eutrofização nas Lagoas de S. Miguel - Açores. Partes I, II e III. Monte de Caparica, Publicações do Departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente. Gonçalves, V. (1996), Algas de água doce de algumas lagoas da Ilha Terceira. I- Diatomáceas (Bacillariophyceae). Relatórios e Comunicações do Departamento de Biologia (Expedição Científica Terceira/1994), 23: 1-6. Id. (1997), Estrutura da Comunidade Fitoplanctónica da Lagoa das Furnas. Ponta Delgada, Provas de Aptidão Pedagógica e Capacidade Científica. Departamento de Biologia, Universidade dos Açores. Holmboe, J. (1901), Susswasser-diatomeen von den Azorischen Inseln. Nyt Magazin for Naturvidenskaberne, 34: 265-286. INOVA (1996), Análise das Águas das Lagoas da Região Autónoma dos Açores. Relatório final. Ponta Delgada, Instituto de Inovação Tecnológica dos Açores. Johansson, C. (1977), Freshwater algal vegetation in the Azores. Boletim da Sociedade Broteriana, 50 (2): 117-142. Krieger, W. (1931), Algenassoziationen von den Azoren und aus Kamerun. Hewigia, 70: 140-156. Manguin, E. (1942), Contribution à la connaissance des diatomées d'eau douce des Açores. Revue Algologique, 13: 115-160. Mölder, K. (1947), Beitrag zur kenntnis der diatomeenflora auf den Azoren. Commentationes Biologicae, 8, 11: 1-19. Oliveira, M. R. L. (1989), Estrutura da comunidade de fitoplâncton nas Lagoas das Sete Cidades, Açores. INIP, Relatórios Técnicos e Científicos, 8: 1-27. O’Meara, E. (1874), On Diatoms from hot springs of Azores. Quarterly Journal of Microscopical Science, 14: 107. Trelease, W. (1897), Botanical observations on the Azores. Annual Report Missouri Botanical Garden, 8: 77-220.