azulejaria

O arquipélago possui numerosos e magníficos conjuntos de azulejos, na maior parte produzidos em Lisboa. Encontram-se principalmente nos edifícios religiosos, onde formam alguns conjuntos monumentais, dos mais preciosos desta arte decorativa existentes no território português, em especial quando associados às espectaculares manifestações locais de talha dourada. Merece um destaque especial a profusão de frontais de altar de azulejo, usados até ao final do século xviii. Dos primórdios da ocupação restam alguns azulejos importados de Sevilha, entre os quais alguns escassos exemplares de corda seca, do final do século xv, e conjuntos de azulejos de aresta, da primeira metade do século xvi, usados no revestimento de frontais de altar (Ermida dos Remédios, na Lagoa, Convento de Santo André, actual Museu de Carlos Machado, em Ponta Delgada). Os Açores possuem excelentes conjuntos do século xvii, como os revestimentos de padronagem polícroma, no Convento de Vila Franca do Campo e na Ermida de Galera, Água de Pau, alguns incluindo os típicos painéis ingénuos da época, na Igreja de Rosto de Cão (S. Roque) e na da Vitória, em Vila do Porto. Outros apresentam magníficos frontais de «aves e ramagens» de inspiração oriental, na Capela dos Anjos, na da Senhora da Rosa, em Ponta Delgada, na Ermida da Piedade, nas Bicas, na Igreja de Pilar da Bretanha e na colecção Jácome Correia. É desta época um conjunto de raros azulejos holandeses aplicados na sacristia do Colégio de Angra do Heroísmo. No fim do século, algumas fachadas de igrejas foram revestidas precocemente de azulejos, servindo de protecção climatérica, como a da Capela do Cabo, na Lagoa (1675) e a do Conventinho da Caloura (cerca de 1684), e apareceram os primeiros conjuntos barrocos, como o da capela da Quinta das Necessidades, no Livramento (1691).

Do início do século xviii são alguns exemplares barrocos notáveis, pintados pelos principais mestres de Lisboa, como Manuel dos Santos (capela-mor das Igrejas de S. Francisco, na Horta, e de S. José, em Ponta Delgada), António de Oliveira Bernardes (coro-baixo do Convento da Esperança, em Ponta Delgada, de cerca de 1712, frontal da Igreja dos Fenais da Luz, de 1713), Policarpo de Oliveira Bernardes (capela da Ordem Terceira, em S. Francisco da Horta) e o chamado Mestre P. M. P. (capela-mor da Igreja do Livramento, em Angra do Heroísmo, de 1725). Do período joanino são outros conjuntos barrocos destacados, como os das Igrejas da Guia e de S. Gonçalo, em Angra, ou na de Santa Cruz. Alguns são da destacada oficina de Bartolomeu Antunes, em Lisboa (Colégio, de Ponta Delgada, Igreja do Salvador, na Horta). São invulgares alguns frontais do período, concentrados na ilha de Santa Maria (capelas em Santa Bárbara, S. Pedro, Maia, Santo Espírito), e outros no Livramento e na Ribeira Seca.

O período rococó está representado por bons exemplares dos meados e da segunda metade do século xviii, como na Capela da Senhora da Paz, no Convento da Esperança de Ponta Delgada e nas Igrejas do Cais do Pico, Manadas, Praia da Vitória e S. José de Ponta Delgada (Capela da Piedade), e frontais como os das Capelas da Piedade e de Guadalupe, em Ponta Delgada. Encontra-se em Ponta Delgada a primeira criação de azulejaria portuguesa inteiramente neoclássica, a decoração do Santuário do Santo Cristo, pintada na Fábrica do Rato por Francisco de Paula e Oliveira, em 1786.

No período liberal destacou-se a produção de azulejos na Lagoa, iniciada na segunda metade do século xix, inspirados nos modelos relevados e de estampilha produzidos no Porto. Domingos Rebelo pintou na Lagoa azulejos para a vivenda Agnelo Casimiro, em Ponta Delgada (1934) e para a Igreja de Povoação (1958). Outros conjuntos destacados do século xx foram pintados em Lisboa, como o da igreja de Vila Franca do Campo (Benvindo Ceia, 1911) e o do Palácio de Sant’Ana, em Ponta Delgada (Jorge Colaço, 1917), revivalistas, ou o notável mural cerâmico do Aeroporto das Lajes (Querubim Lapa, 1961) e as originais decorações da Caixa Geral de Depósitos, em Angra (Eduardo Nery, 1984-86), modernos. José Meco (Set.1996)

Bibl. Ataíde, L. B. L. (1915), Notas sobre Arte. Ponta Delgada, Papelaria Micaelense. Id. (1948), Lembranças sobre azulejos existentes em São Miguel. Insulana, IV, 4. Id. (1973-76), Etnografia, Arte e Vida Antiga nos Açores. Coimbra, Biblioteca Geral da Universidade, I-IV [esta recolha póstuma inclui os trabalhos de 1915 e 1948]. Costa, F. C. (1941), Cerâmica de Lagoa. Açoreana, II, 4. Meco, J. (1980), O pintor de azulejos Manuel dos Santos. Boletim Cultural da Assembleia Distrital de Lisboa, 86. Id. (1989), O Azulejo em Portugal (História da Arte em Portugal). Lisboa, Pub. Alfa. Moura, M. (1990), Fragmentos de azulejos encontrados nas terras do ex-Mosteiro de Jesus da actual cidade da Ribeira Grande, In Encontro sobre História da Azulejaria em Portugal, vol I: Do Hispano-Árabe à Policromia Seiscentista. Lisboa, Fundação das Casas de Fronteira e Alorna (caderno policopiado). Oliveira, A. (1984), Azulejeria, In Aspectos da Arte Religiosa em S. Miguel nos Séculos XVI-XVII-XVIII no Museu Carlos Machado, Catálogo. Ponta Delgada, Museu Carlos Machado. Simões, J. M. S. (1959), Mais azulejos holandeses em Portugal. Belas-Artes, Lisboa, 13-14. Id. (1963), Azulejaria Portuguesa nos Açores e na Madeira. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian.