aviação
1 Logo que os progressos da aviação permitiram que as aeronaves fossem sucessivamente galgando distâncias cada vez maiores, o arquipélago dos Açores, sensivelmente localizado a meio do espaço que medeia entre o Novo e o Velho continentes, começou a surgir como meta intermediária nas primeiras tentativas de travessia aérea do Atlântico Norte. Isto terá acontecido logo após a Primeira Grande Guerra, mais concretamente em 1919, quando os pioneiros, precursores do famoso Lindbergh, se lançaram na corrida que além de outros incentivos contava com o grande estímulo de prémios pecuniários, nomeadamente o de 10 000 libras para o primeiro voo sem escala entre os Estados Unidos da América, Canadá ou Terra Nova e as Ilhas Britânicas, efectuado em menos de 72 horas e instituído pelo jornal londrino Daily Mail. Nesta competição aparece também a marinha americana (U.S. Navy), embora com objectivos diferentes, efectuando a primeira travessia de 16 para 17 de Maio de 1919, ligando Trepassey, na Terra Nova, à cidade da Horta, na ilha do Faial, e utilizando 3 hidroplanos (flying boats) quadrimotores, os famosos NCs, dos quais apenas um, o NC4, sob o comando de Albert C. Read, completou o percurso, seguindo depois para Ponta Delgada, aonde chegou a 20 de Maio.
No entanto, o aparecimento dos primeiros aviões de que há notícia nos Açores (hidroaviões) data de 1918, época em que os Americanos mantiveram no porto de Ponta Delgada uma base naval. Os pequenos hidros tipo HS 2L, destinados à detecção e, se possível, ao combate de submarinos alemães que durante as hostilidades apareciam com frequência em águas açorianas, sobrevoaram algumas vezes a cidade micaelense.
No decorrer de anos subsequentes e praticamente até aos nossos dias, os Açores foram palco de acontecimentos históricos nas diferentes etapas que marcaram o desenvolvimento e progressos do transporte aéreo. Logo depois da referida travessia do Atlântico pelo NC4 do comandante Read e em meados dos anos 20, começaram a surgir as tentativas dos que pretendiam chegar à América do Norte partindo da Europa, ou vice-versa, quase todos eles procurando a baía da Horta, na ilha do Faial, como ponto de escala, quer forçados por avarias ou falta de autonomia, quer planeando fazê-lo como ponto intermédio. Assim, em Maio de 1927, o marquês de Pinedo, coronel da aviação italiana, obrigado a amarar perto da ilha das Flores, após ter partido da Terra Nova, é rebocado para a Horta, onde o hidroavião Santa Maria II sofreu reparações. Ainda nesse ano, no mês de Novembro, dois hidroaviões alemães, o Junkers D 1230 e o Heinkel D 1220, escalaram o mesmo porto, onde, durante a sua permanência, encontram a aviadora americana Ruth Elder, que, tentando seguir as pisadas de Lindbergh num pequeno monoplano, acompanhada de um piloto, foi recolhida ao norte da ilha Terceira e trazida num cargueiro para o mesmo porto em virtude de avarias que a forçaram a pousar em pleno Atlântico. Em 1928 a Horta foi escalada de novo, nos meses de Junho e Julho, respectivamente pelo piloto inglês Courtney, no seu Dornier Wal G-CAGI, e pelo tenente da marinha francesa De Paris num pequeno hidro, o La Frégate. Todos os acontecimentos atrás referidos resultaram de tentativas falhadas para completar travessias do Atlântico. Por parte da aviação naval portuguesa e mais tarde da Força Aérea (FAP) houve também algumas iniciativas. A mais espectacular terá sido o raid aéreo à Madeira e aos Açores, levado a cabo em 1926 pelos oficiais de marinha Moreira de Campos e Neves Ferreira, que chegaram a Ponta Delgada a 9 de Maio, depois de uma atribulada viagem a bordo do hidro Infante de Sagres.
Já nos anos 30 e por ocasião da célebre Revolta dos Açores, a baía da Horta serviu de base a três pequenos hidros C.A.M.S. 37A que se deslocaram à Terceira, sobrevoando a cidade de Angra do Heroísmo, onde deixaram cair panfletos convidando os militares revoltosos a render-se (Abril de 1931).
Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-18) e em anos subsequentes, a marinha portuguesa pretendeu instalar na Horta um Centro Aero-Naval que nunca chegou a funcionar. Só durante o conflito mundial de 1939-45 é que isso veio a acontecer, mas em Ponta Delgada e por pouco tempo. A Força Aérea, por sua vez, veio para os Açores em 1941, em plena Segunda Guerra Mundial, instalando-se em S. Miguel e em 1943 na ilha Terceira (Base Aérea 4).
Todas as já referidas marcas históricas foram tendo a sua sequência a partir dos começos da década de 30, até culminarem em 1939, com o aparecimento da aviação comercial, protagonizado pela Pan American Airways ao escolher o porto da Horta para ponto de escala dos seus famosos clippers (Boeing 314), onde permaneceu até fins de 1945.
Ainda nos anos 30 são de assinalar a passagem pelos Açores das célebres esquadrilhas de Italo Balbo, em 1933, e o igualmente importante voo «prospecção» de Charles Lindbergh, cujos resultados e conclusões estiveram na base do lançamento de futuras carreiras regulares no Atlântico Norte. A Lufthansa conseguiu, nos anos 1936-38, autorização do governo português para utilizar o porto da Horta como base dos seus navios-catapultas. Estes barcos, o Schwabenland e o Friesenland, eram destinados a recolher e lançar para o ar, com os motores em máxima rotação, hidroaviões Dornier, bimotores e Blom und Voss, quadrimotores, os quais eram «disparados» de bordo assentes num berço que se movimentava num sistema de carris. Esta técnica, conhecida historicamente por «aceleração de mala», permitia aos Alemães efectuar ligações com Nova Iorque a partir da Horta e, depois, no sentido inverso, até à Alemanha hitleriana, via Lisboa. Estes então chamados «voos de experiência» foram interrompidos nas vésperas da Segunda Grande Guerra, quando os Alemães já estavam a mobilizar todos os meios aéreos para o desencadeamento do conflito mundial.
A utilização dos primeiros *aeroportos açorianos, construídos durante a guerra de 1939-45, nomeadamente o das Lajes, na ilha Terceira, e o de Santa Maria, não esquecendo o «histórico aerovacas» na ilha de S. Miguel, só teve lugar a partir de 1947 com o aparecimento da Sociedade Açoriana de Transportes Aéreos (SATA). Historicamente, no entanto, a primeira descolagem e aterragem de um avião de rodas numa pista construída para o efeito na Achada, ilha Terceira, pelo capitão aviador Frederico de Melo, verificou-se a 5.10.1930. Em 1968 aterrou pela primeira vez na pista ainda em construção na ilha das Flores um Dakota da FAP em missão humanitária. Nos anos que se seguiram, foram surgindo primeiro o novo aeroporto de Ponta Delgada (Nordela), depois o da Horta em 1971 e, já nos anos 80, construíram-se *aeródromos secundários nas ilhas Graciosa, Pico, S. Jorge e, finalmente, no Corvo. Carlos Silveira (2006)
2 Aviamento. Luiz Fagundes Duarte (2006)
Bibl. Hoare, R. J. (1956), Wings over the Atlantic.
