aves
Dada a apetência para o voo que a esmagadora maioria das espécies de aves possui, são organismos de elevada eficiência colonizadora. Muitas espécies (particularmente de marinhas) exibem, aliás, comportamentos erráticos durante os primeiros anos de vida, que auxiliam a detecção de novos locais a ocupar. Também durante os períodos de migração sucede, por vezes, alguns indivíduos se desviarem da sua rota habitual, por exemplo, por acção de ventos adversos, podendo tal facto originar a criação de um novo núcleo colonizador. Igualmente por acção humana se constituem diásporas de colonização frequentemente involuntária, mas habitualmente voluntária.
Um traço importante dos povoamentos insulares, e que decorre do seu isolamento, é o facto de possuírem um património genético comparativamente reduzido relativamente aos povoamentos continentais. Quanto maior o isolamento, mais acentuada tal redução, o que aumenta grandemente as probabilidades de extinção. Uma outra consequência do isolamento geográfico e genético é o aparecimento de novas espécies. A conjugação de condições ecológicas frequentemente particulares existentes nas ilhas (a que acabam por corresponder, por via evolutiva, adaptações mais ou menos especializadas dos organismos envolvidos), com o já citado isolamento genético, constituem condições favoráveis para os processos de especiação. É por estes motivos que muitos sistemas insulares incluem subespécies ou mesmo espécies endémicas. O facto de estas populações estarem isoladas geneticamente, e de frequentemente possuírem uma dimensão populacional relativamente pequena, torna-as particularmente vulneráveis a factores de risco (por exemplo, destruição de habitat, fenómenos naturais adversos e, muito especialmente, a introdução de predadores, para os quais não dispõem de defesas em termos evolutivos). Não surpreende, assim, que uma elevada percentagem de espécies, em particular de aves, que constam dos Livros Vermelhos, sejam espécies insulares, de que muitas se encontram em via de extinção, e um número ainda maior exiba um estatuto de ameaça de outro grau.
A forma de ocorrência das espécies ao longo do ciclo anual, designada por fenologia, permite-nos falar de espécies: (a) sedentárias (presentes todo o ano); (b) migradoras (ou nidificantes, também designadas por estivais ou estivantes, ou invernantes e de passagem, neste último caso quando estão presentes apenas durante os períodos migratórios, de Primavera e/ou Outono); (c) acidentais, que ocorrem de modo ocasional. É neste contexto que referimos a origem, composição e principais características da avifauna dos Açores. O arquipélago açoriano, pela sua posição geográfica, tem especial vocação para a componente marinha, pelo que este grupo de aves apresenta povoamentos característicos, expressivos e importantes, em termos de conservação; tal facto está também relacionado com as condições tróficas favoráveis dos mares dos Açores (influência da corrente do Golfo) e com a presença de boas condições para nidificação, que tem permitido a existência de importantes colónias destas aves, por vezes de significado internacional. Segundo dados de Monteiro, et. al., merecem destaque as espécies marinhas seguintes:
1. Freira do Bugio (Pterodroma feae); pensa-se que esta espécie poderá ter nidificado nos Açores, sendo referida em documentos dos séculos xvi-xvii; observações recentes colocam a possibilidade da existência actual de um núcleo nidificante; trata-se de uma ave considerada ameaçada, de estatuto vulnerável, no Livro Vermelho português (SNPRCN, 1990).
2. Anjinho ou alma-negra (Bulweria bulwerii); tendo possuído uma distribuição mais vasta no passado, e sobretudo um valor numérico mais expressivo, esta espécie parece hoje reduzida a cerca de 50 casais, circunscritos a ilhéus perto de Santa Maria, com o estatuto de insuficientemente conhecido (SNPRCN, 1990).
3. Cagarro, cagarra ou pardela-de-bico-amarelo (Calonectris diomedea borealis); é a ave marinha mais abundante, criando em todas as ilhas e na maior parte das ilhotas; o total da população nidificante no arquipélago está estimado em 30 000-70 000 casais, representando a maior população da subespécie borealis.
4. Frulho, estapagado ou fura-buxo (Puffinus puffinus); abundante ou mesmo muito abundante, de acordo com registos do século xvi, experimentou posteriormente uma enorme regressão, sendo já muito rara no fim do século xix; actualmente é considerada como uma provável nidificante, em números baixos, nas ilhas do Corvo, Flores, S. Miguel e Santa Maria, possuindo estatuto de insuficientemente conhecido (SNPRCN, 1990).
5. Pintainho (Puffinus assimilis baroli); provável nidificante no Corvo, cria em ilhéus perto da Graciosa e Santa Maria, sendo a população nidificante estimada em 150 casais; o seu estatuto de ameaça é de insuficientemente conhecido (SNPRCN, 1990).
6. Alma-de-mestre ou angelito (Oceanodroma castro); ainda muito abundante em meados do século xvii, na ilha do Corvo, tem hoje uma população estimada em 800 casais, envolvendo ilhéus em Santa Maria e Graciosa, e provavelmente também em S. Jorge; possui estatuto de insuficientemente conhecido (SNPRCN, 1990).
7. Gaivota, ganhoa ou gaivota-argêntea (Larus argentatus atlantis); esta espécie nidifica em todas as ilhas, em colónias que variam entre pouco mais de uma dúzia e acima de 1000 indivíduos; existe uma estimativa global de entre 6000-6500 indivíduos, com base em dados de 1989; Le Grand (1993) estimou os casais em 2300, para o período 1982-86.
8. Garajau-rosado ou andorinha-do-mar-rosada (Sterna dougallii); nidifica actualmente com regularidade na maior parte das ilhas dos Açores, com excepção de S. Miguel e Corvo, sendo mais abundante nas Flores, Graciosa e Santa Maria; censos efectuados em 1989 estimavam a população em 992 casais, que representariam cerca de 65 % da população do Paleárctico Ocidental; as suas colónias são de dimensão bastante variável, podendo alcançar os 200 casais, sendo geralmente mistas, com garajau-comum, Sterna hirundo; a tendência geral das colónias mais importantes, que têm sido controladas nos últimos anos, parece ser de declínio preocupante, possuindo, por isso, um estatuto de vulnerável no Livro Vermelho português (SNPRCN, 1990).
9. Garajau-comum ou andorinha-do-mar-comum (Sterna hirundo); nidifica regularmente em todas as ilhas, sendo mais abundante nas Flores, Terceira, Graciosa, Faial e Santa Maria; em 1989, a população nidificante foi estimada em cerca de 4000 casais, representando 4 % do total da população do Paleárctico Ocidental; tem estatuto de insuficientemente conhecido (SNPRCN, 1990).
Uma referência também para os casos do calcamar (Pelagodroma marina), que se pensa poderá ter nidificado nos Açores, segundo notícias do século xvi, e para a reprodução de duas espécies que habitualmente frequentam os mares do Sul, o rabo-de-palha-de-bico-vermelho (Phaethon aethereus) e a andorinha-do-mar-escura (Sterna fuscata). No primeiro caso, foi detectado um adulto incubando um ovo, perto da Graciosa, no que constitui o primeiro caso de criação desta espécie na Europa; relativamente à segunda, associada também a mares tropicais, tem havido algumas observações nos últimos anos (desde a década de 80), com tentativas de nidificação e pelo menos um caso de reprodução bem sucedida, em princípio o primeiro comprovadamente registado no Paleárctico Ocidental. Quanto às aves terrestres, a melhor (e em muitos aspectos única) abordagem global pertence a Le Grand (1977 e, sobretudo, 1987), etc. Várias espécies foram introduzidas pelo homem, tendo outras colonizado o arquipélago, ou parte dele, por meios naturais. Como espécies introduzidas (Le Grand, 1983) refiram-se algumas de interesse cinegético, como a codorniz-da-califórnia (Colinus virginianus) uma espécie norte-americana , a perdiz-vermelha (Alectoris rufa), a perdiz-cinzenta (Perdix perdix), a codorniz (Coturnix coturnix coturnix) subespécie continental e o faisão (Phasianus colchicus); igualmente introduzidas foram algumas espécies de Passeriformes, como o verdilhão (Carduelis chloris), o pintassilgo (Carduelis carduelis parva) e o pardal-comum (Passer domesticus).
Relativamente às colonizações por via natural, interessa referir que os Açores fazem parte, com a Madeira, Canárias e Cabo Verde, da região macaronésica. Os graus de semelhança biológica da avifauna são mais fortes entre os Açores e a Madeira, depois entre os Açores e as Canárias, e mais fracos entre os Açores e Cabo Verde. Nos Açores, a avifauna terrestre é predominantemente de origem europeia, estando ausentes tipos mediterrânicos (Le Grand, 1977). As espécies colonizadoras deverão ter sido sobretudo generalistas, de regime alimentar essencialmente fitófago, que a partir das zonas litorais terão ocupado os vários meios açorianos (zonas agrícolas, matos, pastagens, florestas de montanha). Ainda num contexto macaronésico, os Açores exibem uma riqueza específica baixa (cerca de 33 espécies nidificantes, das quais 20 terrestres, segundo Le Grand, 1987) e apenas um endemismo específico, o priolo, Pyrrhula murina, embora várias subespécies o sejam; neste aspecto a Madeira e, sobretudo, as Canárias são mais ricas. As distâncias ao(s) continente(s) e as condições de solo, topografia e clima (que determinam a diversidade de habitats) podem explicar a diferença de riquezas específicas; com um clima mais fresco e húmido, as ilhas açorianas encontram-se bem mais longe de massas continentais do que a Madeira e as Canárias.
As ilhas maiores (S. Miguel, Terceira) possuem um maior número de espécies, mas os valores para a Graciosa e Santa Maria (muito mais pequenas em superfície) são, no entanto, semelhantes, devido à boa diversidade de habitats. As ilhas dos grupos central e oriental possuem mais de 30 espécies nidificantes, descendo este número para mais de vinte, no grupo ocidental.
Relativamente aos endemismos, há nos Açores pelo menos 15 formas (modernamente, muitas subespécies têm sido postas em causa pelos taxonomistas). São elas Buteo buteo rothschildi, C. coturnix conturbans, Gallinula chloropus correiana, Larus argentatus atlantis, Columba livia atlantis, Columba palumbus azorica, Motacilla cinerea patriciae, Turdus merula azoriensis, Sylvia atricapilla atlantis, R. regulus azoricus, R. regulus sanctae-mariae, R. regulus inermis, Sturnus vulgaris granti, Fringilla coelebs moreletti e Pyrrhula murina. A situação de R. regulus é particularmente curiosa, com três formas distintas associadas a ilhas diferentes (azoricus a S. Miguel, sanctae-mariae a Santa Maria e inermis ao Pico, Terceira, Faial, S. Jorge e Flores).
Le Grand (1977) detectou nalgumas espécies uma tendência para o melanismo, noutras para um aumento do comprimento do bico; de um modo geral, as formas endémicas avifaunísticas açorianas apresentam uma redução de tamanho, pelo menos quanto ao comprimento da asa. Não surpreendentemente, a maior proporção destas formas encontra-se nos meios florestais montanhosos, no interior (os meios costeiros têm mais espécies é aí que se dá a colonização , mas é nos meios mais evoluídos e antigos que houve tempo para uma maior diferenciação dos organismos). Como é clássico em situações insulares, as formas açorianas evidenciam um alargamento de nicho, relativamente às congéneres continentais (o menor número de espécies presentes implica um potencial alargamento de nichos exploráveis). Le Grand (1977) refere algumas situações interessantes, casos, entre outros de Motacilla cinerea, que é extremamente ubiquista nos Açores, ocorrendo praticamente em todos os meios, enquanto no continente europeu está associada a meios fluviais; de Regulus regulus, que na Europa prefere geralmente coníferas, enquanto no arquipélago açoriano colonizou as florestas de caducifólias, podendo também nidificar em zonas de matos baixos, em altitude; de várias espécies essencialmente florestais no continente europeu (Sylvia atricapilla, Fringilla coelebs), que nos Açores se adaptaram a matos de urze; e de Erithacus rubecula, que na paisagem açoriana pode chegar a nidificar em pastagens e em tocas de coelho. A redução da riqueza em espécies é acompanhada por um aumento das abundâncias específicas, ou seja, cada espécie apresenta na situação insular uma densidade; assim, a biomassa média por espécie presente é bastante superior numa floresta de laurissilva açoriana à de uma formação florestal continental. Não obstante a muito importante contribuição dos trabalhos de Le Grand para o conhecimento da avifauna dos Açores, nomeadamente das suas aves terrestres, continua a faltar uma análise ecológica mais profunda destes últimos povoamentos, que, nomeadamente, permita uma visão comparativa dos diferentes grupos de ilhas açorianas, entre si e em relação a zonas de influência.
Algumas espécies da avifauna terrestre açoriana possuem estatuto de ameaça, segundo o Livro Vermelho português (SNPRCN, 1990), tais como: Ardea cinerea (V), Anas crecca (K), Anas platyrhynchos (V), Gallinula chloropus (I), Gallinago gallinago (V), Scolopax rusticola (V), Columba palumbus azorica (V), Asio otus (K), Carduelis chloris (R) e Pyrrhula murina (E) (as letras entre parêntesis significam: E=em Extinção, V=vulnerável, R=raro, I=indeterminado, K=insuficientemente conhecido). A situação mais grave é a priolo, Pyrrhula murina, bastante abundante no século passado e cuja extinção se temeu, está hoje confinada a uma parte da ilha de S. Miguel.
A posição geográfica dos Açores torna frequente o registo de espécies acidentais, por vezes de origem neárctica (América do Norte), muitas das quais têm interesse apenas como curiosidade zoogeográfica, mas muitas ocorrem com regularidade. Destas referem-se, seguidamente, segundo Le Grand (1983): (a) Como nidificantes, Bulweria bulwerii, Calonectris diomedea, P. puffinus, Puffinus assimilis, Oceanodroma castro, Anas crecca, Anas platyrhynchos, B. buteo, Alectoris rufa, C. coturnix, Gallinula chloropus, Charadrius alexandrinus, G. gallinago, Scolopax rusticola, Larus argentatus, Sterna dougallii, Sterna hirundo, Columba livia, Columba palumbus, Asio otus, Motacilla cinerea, Erithacus rubecula, Turdus merula, Sylvia atricapilla, Regulus regulus, Sturnus vulgaris, Passer domesticus, Fringilla coelebs, Carduelis chloris, C. carduelis, Pyrrhula murina. A situação de Pterodroma feae é, como se disse anteriormente, de espécie nidificante provável. Considera-se ainda como possível (provável?) a nidificação de Ardea cinerea (garça-real ou garça-cinzenta). Os casos de Phaethon aethereus e Sterna fuscata já foram mencionados, a propósito das aves marinhas. Uma última referência a Tyto alba, que Le Grand (1983) admite poder nidificar em S. Jorge e Flores. Excluindo as duas marinhas que criam de modo irregular, e o caso (questionável) de Tyto alba, existem 31-33 espécies nidificantes nos Açores (consoante se considerem, ou não, Pterodroma feae e Ardea cinerea). (b) Como invernantes regulares, de ocorrência mais expressiva, Sula bassana, Egretta garzetta, Ardea cinerea (população invernante), Anas crecca (população invernante), Gallinula chloropus (população invernante), Charadrius alexandrinus (população invernante), Calidris alba, L. limosa, Numenius phaeopus, Arenaria interpres, Larus ridibundus, Larus argentatus/cachinnans, Larus marinus, Fratercula arctica. Uma lista mais exaustiva, incluindo espécies acidentais, está ordenada em Le Grand (1983). Luís F. Matos (Fev.1997)
Bibl. Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza (1990), Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal, vol. I: Mamíferos, Aves, Répteis e Anfíbios. Lisboa, SNPRCN. Le Grand, G. (1977), Approche écologique de lavifaune des Açores. Ponta Delgada, Relatórios e Comunicações do Laboratório de Ecologia Aplicada do Instituto Universitário dos Açores.
