aventureiro

Termo popular por que eram designados os iatistas e os seus veleiros, no porto e cidade da Horta, ilha do Faial. Esta designação, tendo conotações de admiração, respeito e mesmo carinho, surgiu e consolidou-se entre as duas grandes guerras, ocasião em que os yachts começaram a arribar com mais frequência e regularidade a este porto.

Nos anos 20 e 30, perante as pequenas dimensões e as rotas percorridas por estas embarcações, eram muito comuns expressões como esta: «Que grande aventureiro que é este homem!» Quase de imediato o termo «aventureiro» passou a aplicar-se aos veleiros em que navegavam estes marinheiros: «Vem aí um aventureiro!»

Devido à exiguidade do seu enquadramento geográfico e à grande interligação da cidade da Horta com o seu porto, esta palavra «aventureiro», e com este significado, passou a fazer parte do vocabulário quotidiano dos seus habitantes. Mais tarde propagou-se às freguesias do seu concelho quando estas passaram a estar mais ligadas à cidade e se estreitavam os contactos diários, quer por melhoria das vias de comunicação quer por se ter verificado um certo aumento no intercâmbio comercial, assim como a vinda de um maior número de estudantes filhos de famílias rurais para o Liceu da Horta. A este facto também não são alheias as visitas que os iatistas começaram a fazer à volta da ilha do Faial, principalmente depois da erupção dos Capelinhos.

Só muito esporadicamente o termo «aventureiro» poderá ter sido utilizado nas outras ilhas do arquipélago, mas tendo sempre como origem o porto da Horta e o facto de alguns dos seus frequentadores, tais como pilotos, marinheiros, pescadores e até comerciantes, terem ido trabalhar para outras ilhas como a Terceira e S. Miguel. Uma das razões principais para a pequena localização geográfica da utilização desta terminologia é o facto de os iates terem passado a fazer escala nas outras ilhas dos Açores, com certa regularidade e assiduidade, muito mais tarde, quando a palavra «aventureiro», designando os iates e seus tripulantes, já tinha caído em desuso no porto e cidade da Horta.

Com efeito, a partir dos primeiros anos da década de 70, o número de iates fazendo escala neste porto aumentou de maneira significativa. Além de se terem banalizado estas escalas, estas embarcações melhoraram muito tecnologicamente, assim como os sistemas de comunicações utilizados a bordo, o que se reflectiu positivamente na sua segurança. Por outro lado, um certo desafogo económico da classe média em muitos dos países europeus, assim como nos Estados Unidos da América e Canadá, aliado a novos métodos de construção naval, permitiu o aparecimento cada vez mais frequente de embarcações de recreio com maiores dimensões e, teoricamente, muito mais seguras e rápidas. Por estas razões, principalmente, o termo «aventureiro» deixou de ser usado na cidade e porto da Horta, e os navegadores passaram a ser conhecidos por iatistas, do inglês yachtsmen, e as suas embarcações por iates.

Tendo sido utilizado como porto de escala de iates praticamente durante dois séculos, são inúmeros os navegadores de renome internacional que passaram, e continuam a passar, pela Horta. Contudo, e durante as cerca de cinco décadas em que a designação «aventureiros» foi muito utilizada, é de assinalar a passagem de navegadores famosos como Connor o’Brien, Alain Gerbault, Louis Bernicot, Harry Young, Jean Gau, Edward Allcard, Elinore e Ben Carlin, Humphrey Barton, Susan e Eric Hiscock, Marcel Bardiaux, Frank Casper, Sir Francis Chicester, Arthur Piver, Annie e Louis Van de Wiele, David Lewis, Loïck Fougeron, Krzystof Baranowski, Richard Konkolski, etc. João Carlos Fraga (Jul.1998)