automóvel

Em 1895, chegou a Portugal o primeiro automóvel adquirido pelo conde de Avillez. Uns anos depois, em 1901, desembarcou, em S. Miguel, um Decauville de quatro cilindros, propriedade de Mariano Sodré de Medeiros. Em 1905, circulava pela Terceira uma única viatura, pertencente a Augusto da Mota. Por volta de 1908-1909, chegou à Horta o primeiro automóvel, propriedade do engenheiro micaelense Raposo de Medeiros, que esteve em serviço na ilha do Faial. À importação de automóveis ligeiros seguiu-se a de transporte de passageiros. Os chamados «carros de praça» começaram a funcionar em 1913, a firma Viriato Domingues e C.ª já dispunha de automóveis «a frete», em Ponta Delgada, tal como Honorino Rocha, no Largo da Matriz, na Horta; em Angra, o mesmo serviço foi iniciado pela Empresa Fraga e C.ª, em 1915. Na época, era frequente encontrarem-se carros particulares cujos proprietários anunciavam na imprensa prestar serviço público, quando necessário. O transporte de passageiros em camionetas começou também a organizar-se. Em 1906, era inaugurada em Ponta Delgada uma carreira de automóveis, da Empresa Moreira (Augusto Dias) & Alcântara (Fernando) que, apesar das reduzidas velocidades, representava uma substancial economia de tempo: a viagem às Furnas que, até então, demorava 7 horas, passou a ser feita em 2 horas. Posteriormente, foram sendo organizadas outras empresas de transporte de passageiros, nas várias ilhas: em S. Miguel foi fundada a Companhia Automobilística de Vila Franca do Campo que, em 1912, iniciou a carreira entre esta vila e a cidade de Ponta Delgada; em 1922, foi inaugurada uma carreira regular entre Ponta Delgada e Ribeira Grande, três vezes por semana; na Terceira foi criada, em 1922, a Empreza Terceirense de Automóveis, para transporte de passageiros; no Faial, em 1926, a viagem entre a Horta e a Praia do Norte só se realizava quando havia um número mínimo de passageiros; no Pico, foi fundada a União Automobilística Picoense, em 1930, com uma carreira diária de camionetas entre as Lajes e S. Roque. Nos anos 20, o transporte de passageiros começou, portanto, a estruturar-se nas principais ilhas, possibilitando uma maior mobilidade da população. A importação de veículos pesados para transporte de mercadorias foi feita de forma muito mais lenta. Em 1913, em S. Miguel, Fernando d´Alcântara já vendia automóveis de carga da marca Ford e, à Terceira, em 1925, chegava a primeira viatura, importada por Frederico de Vasconcelos, para transporte de pirolitos. Todavia, a importância económica dos automóveis nos Açores foi reduzida nas primeiras décadas do século xx. Em 1911, estavam registados apenas 41 veículos automóveis e 177 em 1920. Nesta década o número de unidades registadas cresceu significativamente, atingindo as 1050 em 1930. Contudo, uma estatística do trânsito nas estradas micaelenses, para 1929-30, revela que os veículos de tracção animal continuavam a ter um peso preponderante na economia: detinham 52 % dos transportes de passageiros e 99 % dos transportes de cargas. Se este era o panorama numa ilha que contava quase 60 % dos veículos automóveis do arquipélago, nas outras ilhas, os veículos automóveis só beneficiavam uma parcela muito minoritária da população. Esta situação só foi alterada a partir dos anos 60. As 1644 unidades registadas em 1950, num espaço de 20 anos saltaram para as 7202. Foi, de facto, na década de 60 que os veículos automóveis começaram a ter peso na economia açoriana e contribuíram para a evolução de alguns hábitos e mentalidades das populações rurais. Até então, eram muito poucas as pessoas que tinham uma ideia da dimensão da ilha em que viviam e foi com o incremento do transporte automóvel que a maioria dos açorianos foi tomando consciência da pequenez do espaço em que vivia. Nas últimas duas décadas o crescimento do parque automóvel não parou, com uma explosão assinalável na década de 80: 8570 unidades registadas em 1980, e 17 231 em 1990. Com este crescimento, o desporto automóvel popularizou-se nas duas principais ilhas: em S. Miguel tem sido realizado com regularidade anual, desde os finais da década de 60, um rallye com projecção nacional e internacional, e a Associação Terceira Automóvel Clube tem promovido, também, provas desta modalidade. Carlos Enes (Nov.1995)

Bibl. Brum, J. B. (1994), Coisa da Nossa Terra – Crónicas. Horta, Câmara Municipal. Enes, C. (1994), A Economia Açoriana entre as duas Guerras Mundiais. Lisboa, Ed. Salamandra. Vieira, A. L. (1980), Os transportes rodoviários em Portugal, 1900-1940. Revista de História Económica e Social, 5.