atum
HISTÓRIA NATURAL Nome de qualquer dos grandes peixes, oceânicos, pelágicos da família dos escombrídeos, que inclui espécies das mais valiosas dos pontos de vista do comércio e da pesca desportiva. Nos Açores, segundo Martins (1981), as designações de atum e de *albacora são, em muitos casos, utilizadas como sinónimos, aplicadas aos tunídeos na generalidade. Estes peixes têm, tipicamente, forma aerodinâmica, um pouco alta, corpo liso com uma barbatana caudal bifurcada, em forma de crescente, à frente da qual estão pínulas, em ambas as superfícies, superior e inferior, da parte posterior do corpo. Não há escamas na parte posterior e as da parte anterior estão fundidas para formar uma armadura. A cor é, geralmente, azul-escura no dorso, branca, ou esbranquiçada, no ventre, e branca com marcas prateadas nos flancos.
Nadadores e migradores, fortes e velozes, os atuns são geralmente encontrados em cardumes de tamanhos vários, dependendo do tamanho do peixe. Quanto maior o atum, menor o cardume, e vice-versa. Tendem a nadar próximo da superfície em águas setentrionais, no Verão, e a profundidades entre 30 e 180 m, no Inverno, quando voltam para o Sul, onde vivem.
Os atuns são peixes que parecem de sangue quente e têm uma taxa de digestão alta. Sob a pele dos flancos, uma rede de vasos sanguíneos, formando uma circulação elaborada semelhante à do fígado, alimenta os músculos vermelhos. A pele destes peixes é formada por camadas fibrosas separadas por espaços oleosos. Deste modo, eles podem conservar o seu corpo quente e deslocar-se para águas que, não obstante sendo oxigenadas, são demasiado frias para permanências longas, desde que haja água mais acima em que eles possam aquecer-se posteriormente. Por causa da sua grande actividade muscular durante a natação, as suas exigências em oxigénio e alimento são muito altas. A sua dieta é constituída, principalmente, por arenque e cavala, mas também por lulas. Na luta pela sobrevivência, nos oceanos de todo o mundo, o seu principal predador é a orca.
Segundo Sella (1929), Ferreira (1932, 1937, 1940), Collins (1954), Paes-da-Franca e Correia (1979), Martins (1981), Pereira (1982), Dias (1991) e Instituto da Conservação da Natureza (1993), e ainda de acordo com os nomes adoptados pela Comissão Internacional para a Captura do Atum do Atlântico (Wise e Miyake, 1982), as espécies que ocorrem nos Açores são: (a) *bonito (Katsuwonus pelamis) que se distingue pelas listas paralelas de cor preta a cinza nos lados mais inferiores do corpo. De cor azul metálico escuro no dorso e lados do corpo, sombreando para uma cor prateada sobre as superfícies do fundo, os bonitos são os mais pequenos dos atuns mencionados aqui; (b) galha-à-ré (T. albacares) é uma das espécies de atum mais valiosas do ponto de vista comercial e é também popular na pesca desportiva. O nome galha-à-ré descreve bem este peixe porque ele distingue-se pelas suas barbatanas dorsal e anal amareladas e alongadas e pelos flancos do corpo também amarelados; (c) patudo ou *albacora [Thunnus (parathunnus) obesus], que tem a primeira barbatana dorsal de cor amarelo-escura e a segunda barbatana dorsal e a barbatana anal de amarelo-claro seguidas de pínulas amarelas brilhantes com a extremidade negra; (d) rabão ou rabilho (T. thynnus), que tem história na pesca desportiva desde os tempos dos Gregos e Romanos, distingue-se pela cor azul-escura ou verde do dorso e dos flancos do corpo; (e) voador (Thunnus alalunga) que se distingue pelas barbatanas peitorais longas e em forma de sabre, é também reconhecido pela cor azul de aço metálico das partes mais altas e dos lados do corpo e pela cor prateada do fundo dos lados, bem como pela ausência de listas. Luís M. Arruda (Fev.1996)
MIGRAÇÕES A capacidade dos atuns para percorrerem grandes distâncias ao longo de oceanos e mares valeu-lhes a designação de «grandes migradores»; o voador, por exemplo, pode percorrer distâncias superiores a 8000 km, movendo-se a uma velocidade média de 26 km por dia (Joseph et al., 1980).
O habitat dos atuns varia ao longo das diferentes fases do seu desenvolvimento e à medida que ocorrem mudanças nas suas necessidades fisiológicas e ecológicas. Estas mudanças estão na origem das migrações que efectuam e que se podem classificar como tróficas e genéticas (Nakamura, 1969). As primeiras ocorrem na procura de áreas ricas em alimento: os atuns são espécies vorazes e, por conseguinte, para se alimentarem procuram locais de águas turbulentas, onde normalmente a biomassa é elevada. O arquipélago dos Açores reúne estas condições, estando, por isso, incluído na rota da migração trófica realizada pelo atum-voador. As migrações de natureza genética ocorrem quando os atuns se deslocam na procura de águas que reunam condições para a reprodução, geralmente zonas ricas em nutrientes, proporcionando, assim, condições mais favoráveis à sobrevivência e desenvolvimento das larvas e ao crescimento dos juvenis (é o caso, por exemplo, do golfo da Guiné no Atlântico).
Estas migrações, estudadas a partir de experiências de marcação, surgem rápidas, grandes e difíceis de seguir. Embora de carácter cíclico, a maior ou menor regularidade do período em que se dão, assim como a sua extensão, depende essencialmente de estarem reunidas condições ambientais favoráveis. É sabido que a temperatura da água do mar, a profundidade da termoclina e o gradiente de temperatura associado, bem como o afloramento costeiro, podem restringir o habitat dos atuns e induzir a migração: a reprodução do bonito, por exemplo, ocorre em zonas em que a temperatura da água é superior a 24°C; migrações estacionais do bonito, do golfo da Guiné para as zonas tropicais e subtropicais, estão aparentemente associadas ao aquecimento das águas de superfície que ocorre durante o Verão boreal e austral; migrações tróficas podem estar associadas a afloramentos costeiros que, estimulando o aumento da produção primária, criam condições mais favoráveis para as necessidades alimentares do atum (Cayré et al., 1993).
PESCA A pesca de atum nos Açores, actividade muito antiga, é efectuada com uma arte de tecnologia bastante simples, em que se utiliza apenas uma cana com um anzol, mas em que a perícia do pescador é fundamental. A cana pode ser de dois tipos (Azevedo, 1990): a «vara», de bambu, com comprimento entre 3 e 6 m, destinada à captura de atuns de pequena e média dimensão, e o «salto», de madeira, com comprimento que varia entre 3 e 4 m e usado para capturar atuns mais corpulentos. Os anzóis, presos à cana por uma linha e, por vezes empatados, geralmente não têm barbela para facilitar a operação de desferrar o atum. Esta modalidade de pesca, também conhecida sob a designação de «isco vivo», visa a captura de atuns que se deslocam em cardumes à superfície da água do mar, usando para os atrair pequenos peixes pelágicos: chicharro ou carapau-negrão (Trachurus picturatus, Carangidae), cavala (Scomber japonicus, Scombridae), sarda (Scomber scombrus, Scombridae), sardinha (Sardina pilchardus, Clupeidae), etc., capturados durante a noite e conservados vivos a bordo em tinas de madeira ou metal. A faina processa-se durante o dia, podendo iniciar-se ao alvorecer com a detecção dos cardumes de atum. Os métodos usados para a detecção dos cardumes variam entre a observação directa de bancos de pesca, a observação a olho nu ou com o auxílio de binóculos da concentração de aves marinhas [cagarras Calonectris diomedea borealis (Procellariidae), por exemplo], que assinalam a presença dos cardumes ou ainda através da agitação das águas de superfície. Uma vez detectado o cardume e iniciada a aproximação com a embarcação, lança-se o isco vivo para reter o peixe à superfície e nas imediações da embarcação, param-se os motores e dá-se início ao lançamento das canas, procedendo-se à captura do cardume de atum (Azevedo e Gomes, 1985).
A pesca do atum com isco vivo, considerada artesanal até ao início dos anos 50, sofreu alterações importantes. A frota, essencialmente constituída até àquela data por embarcações de pequeno porte e de fraca autonomia, evoluiu com a construção e armamento de novos atuneiros, de maiores dimensões, dotados de motores com maior potência e com a introdução de melhoramentos na tecnologia da conservação do pescado (refrigeração ou porões isolados). Assim, puderam ampliar-se as áreas de pesca bem como a duração das viagens, passando a ser frequente as traineiras ausentarem-se do porto durante quatro ou cinco dias (Pereira, 1986).
A potência dos motores das 33 traineiras activas em 1985 variava entre 100 cv (1 traineira) e 500 cv (2 traineiras), sendo, no entanto, mais frequentes as que detinham motores com 250 cv (9 traineiras); a arqueação bruta destas 33 traineiras oscilava entre 10 e 110 t Moorsom e, embora o seu comprimento variasse entre 14 e 26 m, dominavam as embarcações de tamanho superior a 18 m (Pereira, 1986). Entre 1979 e 1992, o número de traineiras em actividade oscilou entre 29 e 40 unidades (Pereira, 1994). No entanto, segundo o Serviço Regional de Estatísticas dos Açores, o número de traineiras activas aumentou recentemente, tendo operado 54 unidades em 1995.
O atum pode ser pescado nos Açores entre Abril e Novembro, embora com intensidade diferente e períodos em que as capturas são esporádicas (fig. 1). Dirige-se a espécies que efectuam migrações periódicas, no decorrer das quais permanecem, por um período de tempo mais ou menos prolongado, nas águas dos Açores e zonas adjacentes (Azevedo e Gomes, 1985). Segundo Pereira (1986, 1994), a pesca do atum que se reveste de carácter sazonal tem início em cada ano com a chegada do patudo em meados de Abril, prolongando-se esta pescaria até ao fim de Julho; a passagem de cardumes de bonito, desde os finais de Junho até ao final de Setembro e de voador, entre Junho e Agosto (pescaria de Verão) e entre Setembro e Novembro (pescaria de Outono, variável segundo os anos) permite à frota realizar capturas num período relativamente prolongado (fig. 1). De um modo geral, a frota vai-se deslocando ao longo das ilhas, na procura dos bancos de pesca com maiores concentrações, acompanhando, assim, as linhas gerais do movimento migratório dos atuns ao longo do arquipélago. No entanto, dada a sobreposição nas épocas de passagem destes migradores nos Açores, é frequente a formação de cardumes em que ocorrem as diferentes espécies. A intensidade de captura de cada espécie varia também ao longo do seu período de passagem (fig. 1): as capturas de patudo têm sido superiores nos meses de Maio e Junho, as de bonito nos meses de Julho e Agosto e as de voador no mês de Julho (durante a pescaria de Verão) e no mês de Outubro (durante a pescaria de Outono).
O tamanho dos exemplares capturados varia consoante as espécies. Assim, por exemplo em 1992 (Pereira, 1994), o grosso da captura anual do bonito recaiu nos indivíduos com comprimentos totais entre 40 e 60 cm, correspondendo a exemplares com peso entre 1 e 5 kg; no mesmo ano a captura do patudo foi essencialmente composta por exemplares entre 60 e 130 cm (amplitude de peso entre 5 e 48 kg) e, no caso do voador, predominaram na captura os indivíduos grandes, com comprimentos entre 90 e 110 cm, variando o seu peso entre 16 e 31 kg.
Tomando como referencial o decénio 1984-94, as capturas totais açorianas de atum realizadas em 1994, da ordem das 6000 t, representaram o valor mais baixo registado ao longo daquele período (fig. 2), pois as capturas chegaram a atingir 15 000 em 1988.
As espécies mais capturadas são, sem dúvida, o bonito e o patudo. As capturas de bonito registaram valores elevados no período 1987-89, entre 6000 e 14 000 t, mas, nos últimos cinco anos não ultrapassaram as 3300 t (fig. 2). As capturas de patudo têm-se situado entre 2500 e 5300 t, com excepção dos anos de 1988 e 1994 em que foram inferiores a 1700 t (fig. 2). Embora a quase totalidade das capturas de atum nos Açores seja constituída por bonito e patudo, o voador representa também uma contribuição importante: no período 1984-89 as capturas não ultrapassaram as 570 t, mas em 1990 e 1993 foram excepcionalmente elevadas, da ordem das 3100 t; em 1994 voltaram a diminuir para 870 t. É sobretudo nas ilhas do Pico, Faial e S. Miguel que tem sido desembarcada a maioria do atum: no período médio 1983-93, foram desembarcados 47, 25 e 23 %, respectivamente, de todo o atum capturado nos Açores durante aquele período (fig. 3). Os desembarques médios em Santa Maria e S. Jorge, de 3 e 2 % (fig. 3), respectivamente, foram, no entanto, superiores aos registados nas restantes ilhas, que se situaram sempre abaixo de 1 %. Manuela Azevedo (Out.1996)
COMÉRCIO O atum dos Açores é comercializado em fresco e em conserva. O atum fresco é vendido principalmente nos Açores, no Continente português e no Japão. O principal mercado do atum em conserva é, desde há vários anos, a Itália. Outros mercados com algum significado são a Espanha, a Alemanha, os Estados Unidos da América e o Canadá.
No período que medeia entre 1980 e 1992 as exportações açorianas para Itália representaram quase sempre valores próximos dos 40 % do total de exportações da Região. Em 1993, exportou-se para aquele destino mercadorias no valor de 1,55 milhões de contos, sendo 1,49 milhões de contos de conservas de atum. Trata-se do produto de maior valor de exportação dos Açores, seguido de perto pelos combustíveis fornecidos à navegação e pelos peixes frescos com destino a Espanha, Canadá, EUA e Japão.
INDÚSTRIA DE CONSERVAS A indústria de conservas de atum nos Açores concentra-se actualmente em duas ilhas do grupo central, Faial e Pico e em S. Miguel. Em S. Jorge procede-se, com a liderança de uma das câmaras da ilha, à reactivação de uma fábrica que havia sido encerrada há alguns anos. Esta indústria é dominada, em grande parte, pelo grupo COFACO com fábricas nas três ilhas principais já referidas. Em S. Miguel labora também uma unidade industrial da CORRETORA. Esta indústria foi, na década de 90, à semelhança de outras, contemplada com diversos programas de modernização e de formação de pessoal. Os investimentos nesta área culminaram, em 1993, com a inauguração de uma nova fábrica, considerada a maior da Península Ibérica, localizada na zona piscatória de Rabo de Peixe, em S. Miguel. As conservas dos Açores têm como destino principal a Itália, onde a origem tem sido realçada como factor positivo de qualidade, em campanhas de marketing consideradas como as mais significativas de entre as que promovem produtos desta região. Mário Fortuna (Set.1996)
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