atmosfera

A ténue camada de gases que envolve o nosso planeta e constitui o ambiente em que vivemos é uma mistura de azoto (78 %) e oxigénio (21 %) com pequenas quantidades de árgon (quase 1 %) e de diversos componentes minoritários como o dióxido de carbono (0,035 %), o ozono e poluentes presentes em quantidades muito pequenas. Para além disso, a atmosfera contém uma quantidade variável de água (até 4 %) – sob a forma de vapor, líquido ou sólido – e partículas em suspensão. Do ponto de vista dos seus componentes maioritários, a composição da atmosfera varia muito pouco de local para local, mas observam-se grandes variações na concentração da água e da generalidade dos poluentes.

Contrariamente à sua composição química, o estado físico da atmosfera varia grandemente de local para local devido à combinação de muitos factores, de que se realçam dois ingredientes fundamentais: a intensidade da radiação solar e a disponibilidade de água. Assim, na zona dos Açores o estado físico médio da atmosfera – isto é, o clima – resulta em larga medida da sua localização oceânica. Dada a localização do arquipélago dos Açores no centro do Atlântico Norte, as massas de ar que aí se localizam são necessariamente de origem marítima ou sofrem profunda transformação no seu percurso de milhares de quilómetros sobre o oceano. Por essa razão o clima açoriano é caracterizado por amplitudes térmicas muito moderadas e precipitação relativamente abundante, como é típico dos climas insulares nesta latitude.

A circulação atmosférica nos Açores é fortemente influenciada pela presença do anticiclone subtropical do Atlântico Norte, geralmente conhecido por anticiclone dos Açores, dada a sua frequente localização na região açoriana. Este centro de altas pressões marca o limite norte da circulação intertropical, caracterizada por convergência de ar dos dois hemisférios em direcção ao equador, naquilo que se chama a Cintura dos Ventos Alísios, sua ascensão na zona equatorial com forte precipitação, com retorno em altitude em direcção às latitudes mais elevadas e subsidência no anticiclone subtropical. Esta grande célula de circulação atmosférica, designada por Célula de Hadley, é conhecida desde as grandes viagens dos descobrimentos portugueses.

O anticiclone dos Açores é uma estrutura quase permanente da circulação global da atmosfera apresentando, no entanto, uma oscilação anual em intensidade e localização. Especialmente no período de Inverno, este anticiclone encontra-se frequentemente a sul do arquipélago, permitindo a passagem de perturbações frontais que afectam o estado do tempo na região, o que cria condições propícias para a ocorrência de abundante precipitação. Quando o anticiclone se estende mais para norte, ocupando a zona açoriana, a circulação atmosférica está associada à rotação, no sentido dos ponteiros do relógio, desse grande sistema de altas pressões, acompanhada por um lento movimento vertical descendente, o que propicia condições de grande estabilidade atmosférica.

A atmosfera é uma fonte de vida, não só porque ela constitui o ambiente em que vivemos mas também porque nela têm lugar os processos fundamentais do ciclo global da água: a sua evaporação nas bacias oceânicas, o transporte a longas distâncias e a precipitação. No caso dos Açores a disponibilidade de água para precipitação resulta fundamentalmente de dois factores: a passagem de sistemas frontais activos, especialmente durante o Inverno, e a acção da orografia sobre a circulação atmosférica. Em ambos os casos o movimento ascendente provocado – quer pela circulação frontal quer pelas montanhas – constitui um dos mecanismos mais poderosos de forçamento de precipitação localizada, numa massa de ar suficientemente húmida.

Os gases, tóxicos, emitidos pelo vulcanismo, que constitui um elemento marcante da paisagem açoriana, parecem não ter muito a ver com o ar atmosférico. No entanto, eles dão uma ideia do que era a atmosfera primitiva da Terra antes do longo processamento biogeoquímico que levou à fixação, na crusta terrestre e na biosfera, de grandes quantidades de carbono e enxofre, à produção do oxigénio livre e, subsequentemente, da camada de ozono estratosférico, de que depende toda a vida aérea, incluindo nós próprios. No ponto actual da história da Terra, estas emissões vulcânicas, de gases e especialmente de partículas de muito pequenas dimensões, constituem um elemento fundamental na mudança global do clima do nosso planeta. Pedro Miranda (Set.1998)