atafona

1 A atafona foi um engenho de moenda da maior importância no sistema moageiro do País, tanto nas cidades como nas zonas rurais. Nos Açores, a sua existência documenta-se logo nos primeiros tempos do povoamento, através das cartas de doação passadas pelo soberano ou outras personalidades aos capitães do donatário, como objecto de monopólio. Esse regime manteve-se até à promulgação da lei de 2 de Agosto de 1766, que criou o Governo e Capitania-Geral das ilhas dos Açores, e deu aos seus moradores «a liberdade de poderem ter atafonas e servir-se da sua água particular para moinhos, bem como o uso de engenhos de bestas em suas casas e fazendas».

Em Portugal Continental, as atafonas apresentam-se sob duas formas: de transmissão directa e de transmissão indirecta. Nos Açores, elas são todas de transmissão directa. Neste caso, a roda motriz, horizontal, montada num possante eixo, é de dentes radiais, que engrenam num carreto único, também horizontal, cujo eixo, vertical, é o próprio eixo da mó andadeira. A roda motriz fica ao raso do solo e a moenda situa-se sobre ela, na própria loja. A almanjarra é uma peça encurvada, espigada no eixo dessa roda. O mecanismo da moagem compõe-se dum casal de mós, com cerca de 70 cm de diâmetro, montadas num estrado de madeira apoiado em blocos de pedra. O aguilhão do veio da andadeira joga numa rela fixa no aliviadoiro, assente numa das pontas e suspenso da outra por um varão de ferro, regulando e fixando a sua altura e, consequentemente, elevando ou baixando mais a mó andadeira. A moega onde se deita o cereal a farinar é suspensa por um prumo pregado ao estrado e a quelha que encaminha o grão para o olho da mó é vibrada por uma régua designada por boneca.

Os animais, bois ou bestas, isolados ou em parelha, circulam em torno da roda motriz e da moenda, passando a almanjarra por cima do atafoneiro, obrigando-o a uma postura atenta.

As atafonas instalavam-se ora em casa própria – a casa da atafona –, ora no centro do próprio curral do gado, neste caso designado por atafona.

Testemunho impressivo dum longo tempo tecnológico, mantiveram-se em actividade até ao terceiro quartel do século xx. Benjamim Enes Pereira

2 andar numa atafona, loc. Andar numa roda viva; andar muito ocupado, sem parar. Luiz Fagundes Duarte (Fev.1998)

Bibl. Oliveira, E. V., Galhano, F. e Pereira, B. (1983), Tecnologia Tradicional Portuguesa – Sistemas da Moagem. Lisboa, Instituto Nacional de Investigação Científica. Ribeiro, L. S. (1945), A atafona. Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores, Ponta Delgada, I: 42-46.