Assunção de Nossa Senhora
É assim chamada a doutrina revelada por Deus e proposta pela Igreja à fé dos Cristãos, segundo a qual não só a alma de Maria, mas também seu corpo, obtiveram a glorificação celeste ao terminar a sua vida na Terra. Pio XII definiu-a como dogma em 1.11.1950. A Festa da Assunção de Nossa Senhora (Dormição, Transladação) começou a ser celebrada no Oriente, nos fins do século vi. Tornou-a obrigatória no seu império o imperador Maurício (m. 602). No Ocidente a festa surgiu em meados do século vii. Cerca de 700, o papa Sérgio estabeleceu a procissão estacional para esse dia e compôs a célebre oração Veneranda, que hoje ainda é usada nos ritos bracarense, lugdunense e milanês.
Nos Açores, para Gaspar Frutuoso, que colheu a tradição histórica da chegada e desembarque na primeira ilha, ficou sublimado este dia, porque houve vista da terra em dia da Assunção de Nossa Senhora e «com grande contentamento de Gonçalo Velho e de sua companhia foi celebrado aquele dia da Assunção de Nossa Senhora com duas alegres festas, uma por entrar a Senhora no céu a gozar dos bens da glória, outra por entrarem eles naquela ilha nova a lograr os frutos da terra». Ao notório favor, Gonçalo Velho correspondeu dando à ilha o nome de Santa Maria, à primeira igreja matriz o orago da Senhora da Assunção, ao brasão de armas da vila, a Senhora dos Anjos, com a legenda envolvente Laetitia Angelorum. A comenda dos Açores criada pelo infante D. Henrique, cerca de 1454, intitula-se Comenda de Santa Maria da Assunção. Desde então, os Açores jamais olvidaram a Festa de Santa Maria de Agosto das procissões e das romarias. Desde Santa Maria, com a Festa da Senhora da Assunção, na Vila do Porto, até à recôndita e pequenina ilha do Corvo, com a festa da Senhora dos Milagres, a 15 de Agosto, em todas as freguesias e cidades do arquipélago são festas. Marcou tão profundamente a piedade açoriana o culto à Senhora de Agosto, que muitos templos e altares se lhe levantaram, imagens e telas a retrataram, os oradores e os poetas a exaltaram e cantaram com o povo humilde nas suas loas e orações matinais em festas e romarias. De citar o primeiro templo em Santa Maria, dedicado à Senhora da Assunção, a matriz da Vila do Porto, séculos xv, xvi, e a Ermida da Senhora dos Anjos, século xv. Em S. Miguel, em Água do Pau, a matriz da Senhora dos Anjos, séculos xv, xvi; a matriz da Vila da Povoação da «advocação de Nossa Senhora dos Anjos», século xvi, com a paroquial de Nossa Senhora da Ajuda, na Bretanha, e a Ermida da Senhora da Glória, Livramento. Nossa Senhora dos Anjos da Fajã de Baixo era, em 1585, de Nossa Senhora da Assunção; nos Fenais, em 1568, existia já a Ermida de Nossa Senhora da Ajuda; em Ponta Delgada, no século xvi, o oratório público sob a invocação da Senhora da Ajuda. Na ilha Terceira, no século xvi, surge a Ermida de Nossa Senhora da Ajuda, no porto da Vila Nova. No século xvii, em Santa Maria, a Ermida da Senhora da Glória, na freguesia de Santo Espírito. Em S. Miguel, em Água de Pau, a Ermida de Nossa Senhora da Ajuda; na ilha do Faial, o Convento de Nossa Senhora da Glória e a paroquial de Pedro Miguel da advocação da Senhora da Ajuda. No século xviii, em S. Miguel, na ladeira do Pisão, a Ermida de Nossa Senhora da Ajuda, também orago na Covoada; na Vila de Santa Cruz, na Graciosa, surge em 1700 o Convento de Nossa Senhora dos Anjos e, sobre o monte, a Ermida da Senhora da Ajuda; no Pico, na Prainha do Norte, a Senhora da Ajuda; na Terceira, junto ao mar, em Santa Bárbara, a histórica Ermida da Senhora da Ajuda; em S. Jorge, no Topo, outra Ermida da Senhora da Ajuda.
Muitos e ricos altares, com belas capelas, se dedicaram à Senhora da Boa Morte e Assumpta, mas indica-se apenas as maravilhosas capelas e esculturas da Assunção das igrejas dos Colégios dos Jesuítas em Angra e na Horta. Não será fácil enumerar ou classificar as imagens de Nossa Senhora como sendo esculpidas nos Açores por escultores ou santeiros, mas há belos exemplares que, certamente importados, se podem indicar: a bela imagem da Senhora da Boa Morte, na Igreja de S. Pedro, Ponta Delgada, e a Senhora dos Anjos de Água de Pau, do escultor Francisco Pedro de Oliveira e Sousa, lente da Academia de Escultura e Belas-Artes da cidade do Porto; a imagem da Senhora da Glória, introduzida pelo exército liberal na igreja do Livramento em Angra, em homenagem a D. Maria da Glória, princesa do Grão-Pará, depois D. Maria II, obra-prima italiana com a imagem assumpta da Capela da Boa Morte do Colégio da Horta. Outras de grande devoção popular: a imagem da Senhora da Ajuda, em Santa Bárbara da ilha Terceira; bem como a do mesmo nome nos Fenais da Ajuda, S. Miguel; e a Senhora da Glória em Santo Espírito, Santa Maria, a quem o povo atribui grandes favores e graças.
Nos quadros das nossas igrejas a trilogia deste mistério Morte, Assunção e Coroação da Virgem vem representada, distinta e piedosamente, em cerca de vinte telas, ricas pela variedade de figuras, atitudes, panejamentos, perspectiva, colorido e mesmo perfeição técnica. Lembramos os quadros da Capela da Boa Morte da igreja do Colégio, na Horta, de origem italiana; e as pinturas no entalhamento da capela-mor da igreja franciscana da Horta. Nas igrejas de Angra há um bom número de telas sobre a Assumpta, na sé catedral e na igreja do Colégio. Em Ponta Delgada, a tela da Senhora da Assunção, de Bento Coelho da Silveira, da igreja do Colégio, está hoje no Museu Carlos Machado. Júlio da Rosa (Set.1996)
Bibl. Frutuoso, G. (1939), Livro Primeiro das Saudades da Terra. Ponta Delgada, Of. Artes Gráficas: 39. Frutuoso, G. (1963), Livro Terceiro das Saudades da Terra. Ponta Delgada, Of. Artes Gráficas: 47-48. Arquivo dos Açores (1982), 2ª ed., Ponta Delgada, Universidade dos Açores, XI: 145; XII: 100. Insulana, III: 492-493. Enciclopédia Verbo, 2: 1635. Rosa, J., A Assunção de Nossa Senhora na Tradição Açoriana. Insulana, VI: 121-67.
