associativismo
Numa perspectiva sociológica, entende-se por associação todo o tipo de agremiação de pessoas que prosseguem, em conjunto, determinados fins só alcançáveis numa dinâmica de grupo. As associações são, portanto, colectividades de interesse geral, com finalidades de utilidade pública, ou de utilidade pública e particular conjuntamente. Neste sentido, a análise do fenómeno do associativismo nos Açores é, necessariamente, lata e não tem em conta as distinções colocadas pela ciência jurídica entre associações e sociedades.
O associativismo nas ilhas açorianas acompanha, nas suas linhas gerais, a evolução registada no resto do País, desenvolvendo-se no tempo e no espaço de acordo com as necessidades que se colocam em cada momento. É um fenómeno essencialmente urbano que desabrochou ao longo do século xix, com áreas de intervenção muito diversificadas. Nas associações religiosas, encontramos, desde o início do povoamento, uma diversidade de congregações, confrarias e irmandades que têm desenvolvido uma actividade espiritual, conjuntamente com acções de beneficência e apoio a órfãos e inválidos, praticamente em todas as ilhas. Com o movimento liberal, muitas delas foram extintas, mas lentamente se reorganizaram em novos moldes, expandindo-se a partir do Estado Novo. As associações de carácter cultural são um fenómeno da sociedade contemporânea, predominante nos espaços urbanos, com um conjunto de actividades plurifacetadas, que se entrecruzam na mesma agremiação. Têm surgido por iniciativa de uma elite mais esclarecida que encara a divulgação da cultura e do ensino como motores do desenvolvimento social e da libertação do homem. Na segunda metade do século xix, muitas destas associações tinham por objectivo ministrar a instrução primária aos seus associados, compensando a débil estrutura do ensino oficial. Para o efeito, criaram gabinetes de leitura, com aulas diurnas e nocturnas. Nas cidades, algumas destas associações eram dinamizadas por elementos da maçonaria. No período da República declinou a actividade lectiva destas associações, mas, em contrapartida, promoveram-se palestras e conferências dedicadas às classes trabalhadoras com o objectivo de as educar para se tornarem cidadãos activos e conscientes; nos primeiros anos do Estado Novo, foram alterados os objectivos das palestras, procurando integrar os cidadãos, de forma passiva, na nova ordem estabelecida.
Mas também foram criadas associações culturais para os estratos sociais alfabetizados, que publicaram revistas especializadas e promoveram sessões e debates a um nível mais elevado. O associativismo cultural nos meios rurais passou, essencialmente, pela fundação de sociedades filarmónicas em todo o arquipélago, a partir da segunda metade do século xix. Para além da educação musical, estas sociedades foram incorporando no seu seio espaços para representações teatrais e, posteriormente, salas de cinema. Mas estas numerosas sociedades espalhadas por quase todas as freguesias não têm conseguido manter vivo o espírito cultural que lhes deu vida. A partir da década de 70, a maior parte delas tem funcionado como mais um espaço de café-bar, mantendo como única actividade cultural a sobrevivência da filarmónica. A maioria das associações de âmbito exclusivamente cultural teve vida efémera, predominando e perdurando as que conjugaram a actividade cultural com a variante recreativa. Nos finais do século xix, foram surgindo os clubes ou sociedades destinados a estratos sociais bem demarcados: elites locais, pequena burguesia e classes trabalhadoras. A convivência foi sempre possível no sentido descendente, mas o inverso não se tem concretizado. No período da República, as festas de Carnaval com os respectivos bailes popularizaram-se e deram vida a estas colectividades. As matinés e saraus dançantes constituíram uma das principais actividades destas instituições até aos anos 70, altura em que começaram a surgir as chamadas discotecas, como espaços públicos, acabando com a vida das colectividades. As associações desportivas desenvolveram-se também desde o início do século xx, principalmente em torno do futebol. Esta foi a modalidade mais popular, que deu origem a numerosos clubes, nas cidades e vilas, estendendo-se depois aos meios rurais. Em torno de jornadas desportivas entre as ilhas foram realizadas excursões e foi iniciada a chamada confraternização açoriana.
As associações políticas têm sido, na sua quase totalidade, o prolongamento dos partidos políticos nacionais, fundados depois da Revolução Liberal. As organizações políticas de âmbito exclusivamente regional tiveram pouca expressão, excepto o denominado Partido Regionalista Micaelense, criado depois da Primeira Guerra Mundial. Na década de 20, foram fundadas outras associações sem grande alcance político: o Partido Popular Vila-Franquense, a Aliança Ribeira-grandense e a Liga Mariense. Só depois do 25 de Abril surgiram iniciativas de âmbito regional, como por exemplo o Movimento para a Autodeterminação do Povo Açoriano (MAPA), a Frente de Libertação dos Açores (FLA) e a Liga de Acção Patriótica dos Açores (LAPA).
As associações de previdência e de socorros mútuos, que foram instituídas na segunda metade do século xix, têm abrangido as classes pobres dos meios urbanos, prestando-lhes auxílio nos momentos mais difíceis de doença prolongada e contribuições para um funeral condigno.
As sociedades cooperativas, de consumo ou de produção, são também numerosas nas ilhas do arquipélago. As primeiras iniciaram a sua actividade nos finais do século xix e as de produção só se desenvolveram a partir de 1917, ligadas à indústria de lacticínios.
As associações de classe ou sindicatos surgiram no século xix, em torno das actividades agrícolas ou comerciais. As primeiras são associações de agricultores e indivíduos que exercem profissões correlativas à agricultura e têm por finalidades estudar, defender e promover tudo o que diz respeito ao sector. Em S. Miguel surgiu a primeira associação do género no País, a Sociedade Promotora da Agricultura Michaelense, em 1843, e também o primeiro sindicato agrícola nacional, na vila da Lagoa, em 1893. Com o advento da República, os trabalhadores começaram a organizar-se em associações de classe de operários e de artífices, nas cidades açorianas. Organizaram-se em confederações, publicaram alguns jornais e conseguiram pequenas vitórias pontuais na melhoria das condições de trabalho. Com o Estado Novo, os sindicatos livres foram absorvidos pela organização corporativista, mas, com o 25 de Abril, o movimento sindical reestruturou-se em novos moldes. Os sindicatos existentes nos Açores são filiados nas organizações nacionais da CGTP-IN e UGT. De entre as associações comerciais, destaque-se a *Associação Comercial de Ponta Delgada, a terceira a ser fundada no País, depois de Lisboa e Porto, e a *Associação Comercial de Angra. O sector do comércio foi também dos primeiros em que os assalariados se organizaram nos Açores, com a criação da *Associação dos Empregados do Comércio de Angra, em 1906, e a de Ponta Delgada, em 1908.
No âmbito das associações com fins meramente materiais existe uma variedade de sociedades comerciais, industriais, agrícolas e financeiras. Registe-se, contudo, que o número destas associações é muito inferior ao daquelas de carácter religioso, recreativo e cultural. Os Açorianos têm revelado um considerável espírito comunitário na organização das actividades lúdicas que não se tem manifestado com a mesma intensidade nas actividades económicas. O associativismo tem reflectido, portanto, formas de estar na vida em que o mais importante não tem sido a actividade produtiva rendível, mas o divertimento, tendo sido procurado através das associações exibir níveis de riqueza que não tem correspondido aos magros recursos individuais. Carlos Enes (Nov.1995)
