aspleniáceas

Família de fetos, baseada no nome genérico Asplenium, constituída por plantas perenes, terrestres, opilíticas ou epífitas, de rizoma curto, erecto a rastejante, por vezes ramificado e revestido no ápice de escamas clatradas, de frondes cerca de 1 cm a 3 m longas, de estipe não articulado, geralmente escamoso na base, muitas vezes híspido e glanduloso, geralmente rotundo ou sulcado na face adaxial, de lâmina inteira a várias vezes dividida, raramente dicotomicamente, de nervuras secundárias divididas, geralmente livres, por vezes anastomosadas, de soros longos e inseridos basicospicamente em cada vénula fértil, de indúsio longo e delgado, inseriado na vénula fértil, por vezes por aproximação de dois soros formam-se indúsios bivalves, ocasionalmente envolvendo o soro pequeno formando uma bolsa, raramente rudimentar ou ausente, de esporos monoletos e geralmente elipsoidais.

Fazem parte desta família cerca de 700 espécies, cujo tratamento relativo a categorias taxonómicas superespecíficas tem sido alvo de controvérsia entre os pteridólogos. Ao longo da história taxonómica das aspleniáceas têm-se manifestado tendências atomizadoras em numerosos géneros e unificadoras em poucos géneros dos diversos autores. Pichi-Sermolli (1977) propôs um esquema sistemático representativo das primeiras tendências. Reconhece o grande género Asplenium e outros 13 pequenos géneros, nomeadamente o género Phyllitis. Tryon e Tryon (1982) consideram existir nesta família apenas sete géneros e incluem Phyllitis no género Asplenium. Lovis (1973) verifica que no género Asplenium é frequente o aparecimento de híbridos entre espécies morfologicamente muito distintas, e que esse fenómeno se estende a outros géneros desta família. Isto dá origem a híbridos intergenéricos que têm constituído problemas taxonómicos de difícil resolução. Vida (1963), ao verificar a existência de um grande número de híbridos intergenéricos, considera que aqueles géneros devem ser considerados como secções do género Asplenium. Salvo, Prada e Díaz (1982), nas aspleniáceas europeias, reconhecem apenas um género, Asplenium, e dois subgéneros: Pleurosorus e Asplenium, e incluem Phyllitis na secção Asplenium. Em 1992, Jermy e Viane dão a Phyllitis a categoria de subgénero do género Asplenium. Segue-se aqui a primeira tendência (Pichi-Sermolli, 1977) para as aspleniáceas ocorrentes nos Açores. Apenas existem dois géneros: Asplenium e Phyllitis.

Às plantas pertencentes a Aspleniam obovatum subsp. lanceolatum, A. marinum e A. hemionitis não se lhes dá qualquer nome nos Açores.

Asplenium obovatum subsp. lanceolatum caracteriza-se por fotos de rizoma curto, erecto a rastejante e revestido de escamas linear-lanceoladas tornando-se filiformes para o ápice do rizoma, castanho-escuras e clatradas de frondes, em pequenos tufos até 35 cm longas, de estipe geralmente menor do que a lâmina, brilhante, castanho-avermelhado na base e esverdeado no ápice e com escamas filiformes castanho-escuras na base, de lâmina 2 (3) –penatissecta, ovado-lanceolada ou oblongo-lanceolada, de ráquis esverdeada, de segmentos primários ovado-oblongos a ovado-lanceolados, penatissectos excepto no ápice, sendo os maiores deflexos, de segmentos secundários ovados a ovado-lanceolados e com algumas escamas filiformes castanho-escuras na página abaxial e com dentes agudos e mucronados na margem, de soros oblongo-ovados inseridos próximo da margem do segmento e de indúsio oblongo e ligeiramente sinuado. Ocorre até 300 m de altitude, colonizando paredes de pedra, fendas de rochas, raramente escarpas rochosas e lavas recentes, sobretudo em sítios secos e geralmente expostos, associada a plantas antropocóricas. É relativamente frequente mas pouco abundante em todas as ilhas açorianas. Também existe nos arquipélagos da Madeira e das Canárias. Distribui-se pela Europa atlântica e pela região mediterrânica ocidental.

Foi indicado pela primeira vez para os Açores, precisamente as ilhas das Flores e do Faial, por Watson (1844). As plantas deste taxon foram inicialmente denominadas Asplenium lanceolatum, nome dado por Hudson (1778) para fetos da Inglaterra. Sucede que aquele nome não pode ser usado visto que Forsskål (1755) atribui nome idêntico a plantas da Península Arábica. Palhinha (1943, 1946) e Fernandes (1957) atribuem as plantas dos Açores a A. obovatum, que morfológica e geneticamente é distinto do taxon em questão. A maior parte dos autores que estudaram a flora açoriana passaram a denominar os fetos dos Açores A. billotii (Palhinha, 1966; Vasconcelos, 1968; Ward, 1970; Sjögren, 1973; Ormonde, 1983 e 1991; R. Fernandes in A. Fernandes, 1983). Por outro lado, Sleep (1983) confirmou que este taxon é autotetraplóide e que se teria originado a partir de formas de A. obovatum, que é diplóide, ou de formas diplóides com morfologia idêntica à de A. billotii mas com constituição genómica idêntica à de A. obovatum, por duplicação de cromossomas. Ao encontrar-se na Turquia (Demiríz et al., 1990) e em Espanha (Rasbach et al., 1990) formas diplóides com morfologia idêntica a A. billotii e que foram denominadas A. obovatum subsp. obovatum var. protobillotii, pensou-se que se estaria na presença das formas diplóides que teriam dado origem a A. billotii. Uma vez que não havia razão para considerar as plantas autotetraplóides como espécie independente, mas com categoria subespecífica subordinada à espécie A. Obovatum, foram denominadas A. obovatum subsp. lanceolatum. Este nome já tinha sido proposto por Pinto da Silva (1959) e foi apoiado por R. Fernandes (1960), desde que o nome lanceolatum não fosse o indicado por Hudson. A história nomenclatural deste taxon está nos trabalhos de Ormonde e Constância (1992) e Ormonde et al. (1995).

A Asplenium marinum pertencem os fetos de rizoma curto, grosso, ramificado, revestido densamente de escamas anegradas, por vezes com mancha escura na base, de frondes em tufo fraco, até 40 cm longas, de estipe 1/2 tão longo como a lâmina, castanho-avermelhado a castanho-anegrado e brilhante, de lâmina unipenatissecta, linear-lanceolada, de ráquis castanho-avermelhada na base, tornando-se verde para o ápice, provida de asas laterais verdes e estreitas, de segmentos oblongo-trapezoidais, obtusos na ápice e crenado-dentados, de nervuras bifurcadas 2 a 3 vezes, de soros linear-oblongos inseridos ao longo das nervuras terminais, oblíquos à margem e à nervura principal e de indúsio inteiro. Ocorre até cerca de 800 m de altitude, geralmente abaixo de 300 m, nas barreiras rochosas, paredes de pedra, correntes de lava e no cascalho basáltico, em sítios expostos e secos por onde escorre água, ou sítios expostos do interior ou não, onde chega a acção violenta dos ventos marítimos. É espécie diferencial da aliança Festucion petraeae e companheira em associações antropocóricas. Existe em todas as ilhas açorianas e distribui-se pela Europa Ocidental atlântica, região mediterrânica ocidental e arquipélagos da Madeira e das Canárias.

Foi referenciada por Forster (1787) pela primeira vez para os Açores, na ilha do Faial. Mais tarde Watson (1844) encontrou-a na mesma ilha e na das Flores.

Asplenium hemionitis é caracterizado por fetos de rizoma curto, ascendente a sub-rastejante, coberto densamente de escamas ovado-lanceoladas e castanho-anegradas, de frondes persistentes, em tufos frouxos, de estipe geralmente maior do que a lâmina, canaliculado, castanho-avermelhado, tornando-se verde para o ápice, com algumas escamas filiformes na base, de lâmina simples, profundamente cordada, triangular a ovada, inteira a 3-5(-7) lobada, geralmente coriácea, glabra e brilhante, de lobos obtusos a agudos, por vezes subcaudados, sendo o médio mais longo que os laterais, de nervuras principais 3-5 palmadas, uma em cada lobo, de nervuras secundárias radiantes dicotomicamente, de soros lineares longos e inseridos no bordo superior das nervuras secundárias, de indúsio membranáceo, estreito, inteiro, abrindo para o ápice da lâmina ou dos lobos e de esporos esferoidais e cristado-perfurados. Ocorre até 600 m de altitude, mas preferencialmente entre 100 e 300 m e nas ilhas das Flores, do Faial, da Terceira e de S. Miguel pode ir até 300 m. Está presente como espécie acompanhante nas associações de altitudes superiores a 200 m da classe Pruno-Laureteo azoricae, no entanto pode estar em contacto com associações de Festucion petraeae ou de Mercurialion annuae. Encontra-se em todas as ilhas dos Açores e nos arquipélagos macaronésicos, excepto nas ilhas Selvagens. Distribui-se por Portugal continental (serra de Sintra e Mafra), Marrocos e Argélia.

Foi assinalada pela primeira vez para os Açores, em 1844, por Seubert e por Watson, que indicam a ilha do Faial e as ilhas das Flores, do Faial e do Pico, respectivamente. As ilhas onde ultimamente foi encontrada foram as de Santa Maria (Hansen, 1971) e da Graciosa (Caixinhas, 1973-74).

A identidade desta espécie foi alvo de controvérsia, porque alguns autores a consideraram como o taxon que é designado por Phyllitis sagittata, também conhecido como Asplenium sagittatum. Guinea e Heywood (1954), R. B. Fernandes (Fernandes e Fernandes, 1990) e Queirós e Ormonde (1987) historiaram os motivos que originaram essa confusão. Linnaeus (1753), no protólogo desta espécie, apresenta uma diagnose, indica dois sinónimos pré-lineanos, a sua ocorrência em Itália e em Espanha e apresenta ainda uma nota que estabelece a comparação entre Asplenium hemionitis e a espécie seguinte, A. scolopendrium, também conhecida como Phyllitis scolopendrium. Este protólogo abrange dois taxa diferentes, visto que a descrição se refere a Asplenium hemionitis, mas os dois sinónimos e a distribuição geográfica referem-se a Phyllitis sagittata. Embora a nota comparativa leve a pensar que o Asplenium hemionitis seja a espécie como é actualmente considerada, ao estabelecer a afinidade com o A. scolopendrium pode sugerir que o A. hemionitis seja igualmente uma Phyllitis. Por isso em 1786, Lamarck descreve uma espécie nova que denominou Asplenium palmatum, citando dois sinónimos pré-lineanos que correspondem aos fetos existentes em Portugal continental e na ilha da Madeira e considera que o binome A. hemionitis utilizado por Linnaeus, incluindo os sinónimos pré-lineanos e a distribuição geográfica deve aplicar-se aos fetos que actualmente atribuíamos a Phyllitis sagittata. O Asplenium palmatum corresponde ao que actualmente os pteridólogos entendem ser A. hemionitis. Os botânicos que se ocuparam do estudo da flora açoriana utilizaram indiscriminadamente os binomes A. hemionitis (Milde, 1867; Trelease, 1897; Sampaio, 1904; Druce, 1911; Cedercreutz, 1941; Palhinha et. al., 1941; Fernandes, 1957; Palhinha, 1966; Vasconcellos, 1968; etc.) e A. palmatum (Seubert e Hochstetter, 1843; Seubert, 1844; Watson, 1844 e in Godman, 1870; Drouët, 1866; Palhinha, 1943 a e b; Palhinha, 1946). A resolução deste problema consistia na lectotipificação da espécie A. hemionitis. De facto, no herbário de Linnaeus, existente na Sociedade Lineana de Londres, encontra-se um exemplar e no de Linnaeus, que se encontra em Estocolmo, um outro. Ambos foram identificados, por este botânico, como A. hemionitis e correspondem a A. palmatum. Deste modo, a espécie deve ser interpretada como o é actualmente e o seu lectotipo foi designado de entre os dois referidos exemplares. José Ormonde (Dez.1996)

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