artes populares
Intrinsecamente ligadas a um viver quotidiano, elas reflectem a vida de um povo em todas as suas manifestações. O trabalho, o lazer e a religiosidade marcam os ritmos criativos das ilhas, de uma forma simples ou mais elaborada, consoante a imaginação do artista e a matéria-prima disponível.
Os trabalhos em madeira estiveram desde os primórdios da colonização ligados à terra, ao mar e à casa. Em madeira se faziam os arados, as forquilhas, os manguais, os trilhos de debulha; os granéis e as cafuas; os carros de bois e as cangas; as lanchas e as canoas baleeiras, as portas, as fechaduras, as janelas e o mobiliário.
O mobiliário açoriano é, aliás, uma curiosa síntese de influências várias e criações locais. O cedro, o jacarandá e o mogno determinam, em linhas gerais, as épocas mais importantes da sua execução e a inventiva dos artistas locais determina a harmonia de soluções e técnicas. Embora o mogno seja hoje a principal madeira utilizada no mobiliário, um pouco por todas as ilhas são utilizadas outras madeiras locais como o teixo, o pau-branco ou a faia. Angra de Heroísmo e Praia da Vitória são as localidades onde se confeccionam ainda móveis com delicados trabalhos em talha ou embutidos em madeira ou em marfim. Aliás, a arte de trabalhar o marfim ou o osso de cachalote é igualmente um trabalho masculino, ligado a uma arte mítica das ilhas a caça à baleia.
Durante as viagens de baleação os marinheiros dedicavam os seus tempos de lazer ou de solidão a esculpir o osso e o marfim dos cachalotes, elaborando, com um simples canivete e grosseiras limas, finíssimos desenhos. Nas linhas incisas aplicavam tintas que faziam realçar os temas escolhidos (figuras femininas, cenas de cais, cenas mitológicas, barcas baleeiras, cenas de arpoação da baleia, etc). Esta arte do scrimshaw é ainda hoje praticada um pouco por todas as ilhas, muito embora os trabalhos mais elaborados se executem na Terceira, nas Flores e no Pico.
A cestaria e a olaria, assim como a arte de trabalhar a pedra, a cantaria ou a calcetaria, foram sempre artes tradicionalmente masculinas.
Precisando de contentores para os produtos da terra, o homem utilizou as fibras vegetais para o seu fabrico, aquelas que lhe estavam mais à mão, como o vime, a palha, o junco, o folhelho de milho ou a espadana. Os cesteiros ainda utilizam preferencialmente o vime com a técnica do entrecruzado ou a palha com a técnica da espiral cosida, muito embora encontremos na cestaria açoriana a técnica do entrançado, quando a matéria-prima é mais fácil de domar. Os nomes e a diferenciação formal dos cestos referenciam o uso que lhes é dado, e assim encontramos os balaios, os ceirões, os tanhos, bem como os cestos do dízimo, de almude, do queijo, de barrela, de leiva, de estercar, etc. A funcionalidade indica necessariamente o nome.
Para enfeite da casa também o cesteiro executa mobiliário em vime. Com o folhelho e a espadana faz as esteiras e os capachos, entrecruzando várias fibras entrançadas que, depois de cosidas, formam um conjunto de grande sobriedade.
São quinhentistas as primeiras referências aos oleiros de Vila Franca do Campo e, posteriormente, às olarias de Santa Maria e da Terceira. As necessidades quotidianas foram fazendo surgir os recipientes necessários à conservação e confecção de alimentos, à lavagem da roupa, à higiene do corpo, ao transporte ou ao serviço de mesa. Balsas, fogareiros, panelas, caçarolas, sertãs, cuscuzeiros, alguidares, lava-mãos, tenores, infusas, talhas, talhões, canadas de ir ao leite ou caçoilinhas de beber vinho são algumas das formas mais características da olaria das ilhas.
A partir de 1862 temos o registo de um novo tipo de cerâmica, pintada e vidrada, conhecida por louça da Lagoa. A decoração com motivos vegetalistas é executada a azul sobre fundo branco e as formas são essencialmente utilitárias (boiões para guardar a banha e os enchidos, terrinas sopeiras, canecas) ou decorativas (floreiras, canudos, centros de mesa).
As telhas e os tijolos, que ainda se fabricam na Graciosa, foram-se fazendo um pouco por todas as ilhas, pois este tipo de trabalho não exige argilas de grande qualidade. Ligados também à arte do barro encontramos ainda os bonecos tradicionais das lapinhas e presépios.
A arte de trabalhar a pedra está presente em todas as ilhas, mas é na decoração das fachadas das igrejas e conventos, de volutas ondeadas, colunas salomónicas, festões e florões que bordejam as molduras de portas e janelas, que melhor se sente a criatividade e o domínio da técnica dos canteiros açorianos.
A tecelagem em linho, em lã ou em seda está documentada desde o século xv e sempre fez parte de um mundo feminino, muitas vezes complemento de uma economia rural e familiar. Com linho se executavam toalhas, camisas, sacos para o cereal, alforjes e sobrecamas. Com lã se faziam as baetas, os conhecidos «panos da terra», utilizados no vestuário. A seda teve pouca expressão nas ilhas, com excepção da Terceira.
É, no entanto, na tecelagem das colchas que melhor se sente a sensibilidade artística das tecedeiras, principalmente da Terceira, de S. Miguel e de S. Jorge. As estrelas de oito pontas, a flor de quatro pétalas, os corações, as pombas, o signo saimão ou as figuras geométricas como o quadrado, o rectângulo e o losango, distribuídas muitas vezes num enxadrezado miudinho, em tintos vermelhos, rosas, verdes ou azuis, são os motivos mais característicos das tramas ou tapumes de lã. Os tintos, obtidos hoje pelo uso das anilinas, eram antigamente extraídos da raiz da ruivinha, da urzelina, da flor-do-lírio, da urzela, do sumagre, do pau-roxo, do trigo queimado, etc.
As rendas e os bordados sempre marcaram o quotidiano feminino de todas as ilhas, como elemento decorativo do trajar ou do bragal. O crivo, o ponto de cruz, o labirinto, o ponto de assis, o filó ou o matiz nasceram das mãos habilidosas das mulheres, que também bordavam a ouro e prata sobre veludo ou damasco as pombas do Espírito Santo. Entretinham-se igualmente com os delicados bordados a missanga, escumilha, escamas de peixe presas com canutilho de prata, ou ráfia sobre uma fina trama onde se desenvolviam geralmente os motivos florais.
É, no entanto, o bordado a matiz, conhecido por bordado de S. Miguel, o que maior divulgação tem. É, efectivamente, na década de 30 e por influência erudita de Lily Bensaúde que é introduzido o bordado a matiz monocromático, utilizando o azul-faiança em dois tons. Os motivos ornamentais têm a nítida influência da louça da China, com cravinhos, aves, trevos, florinhas, utilizando como principais pontos o matiz, o ponto pé-de-flor e o ponto de recorte na orla. A execução do bordado é sempre feita com dois fios de filosela de algodão.
Se o bordado se encontra em todas as ilhas, porque sempre as mulheres se dedicaram a esta arte, os crivos apenas se encontram hoje no Faial, onde se desenvolveu igualmente um tipo de renda acaseada conhecida por «croché de arte» ou renda do Faial.
A renda de guipura, inglesa, de bilros, frioleira ou o próprio croché são as rendas mais conhecidas, mas é talvez a chamada renda do Pico ou de gancho (executada primitivamente com um gancho de cabelo) aquela onde melhor se sente a criatividade e a imaginação do ilhéu.
Os mais variados panos, da seda ao veludo, a lã, o papel, as escamas de peixe, as penas, a cera, a folha metálica ou o miolo de figueira são os materiais mais utilizados na confecção das flores artificiais, uma arte feminina cuja tradição remonta ao século xvii. Com as suas raízes conventuais, ela está ligada à religiosidade popular, sendo um dos exemplares mais delicados e imaginativos o andor do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Em S. Miguel e na Terceira o século xix é uma época a assinalar na arte das flores artificiais.
Com a extinção dos conventos o gosto artístico por este trabalho divulgou-se mais amplamente na sociedade civil e está hoje bem documentado nos registos, nas lapinhas, nos presépios e também nos tapetes de flores que ornamentam as ruas por onde passa a procissão ou nos enfeites dos carros de bois da festa do Espírito Santo.
As flores em miolo de figueira do Faial (Horta e Conceição) e em papel, escamas de peixe e pano de S. Miguel (Lagoa, Nordeste, Povoação, Ribeira Grande, Vila Franca do Campo e Ponta Delgada) estão ainda bem presentes no quotidiano das populações, assim como os bonecos de folha de milho, característicos do Faial (Horta), Ponta Delgada (Lagoa) e Santa Maria (Vila do Porto).
Ligado à festa e à doçaria a arte do papel recortado, que teve ampla divulgação em toda a Europa durante o século xviii e primeira metade do século xix, nasceu necessariamente nos vagares da clausura onde a arte doceira teve também os seus esplendores de açúcar e ovos. Segundo Luís Bernardo de Ataíde, esta arte entrou nas ilhas pelas mãos do Pe. Sousa Freire, vigário da Ribeira Grande, onde faleceu pelo ano de 1728. Com uma simples folha de papel dobrada, muita paciência e inventiva, os artistas desenham com uma tesoura corações, flores, anjos, custódias, pombas ou os mais variados rendilhados, com que adornam os cestos de oferendas de fruta ou de doces, as prateleiras, os louceiros e os castiçais da casa em dias festivos ou os altares e andores em dias de procissão.
A doçaria freirática teve larga implantação nas ilhas, tendo passado, com a extinção das ordens religiosas, para o quotidiano das casas mais abastadas, onde os bolos de véspera, o maçapão, as maçarocas de ovos, as argolinhas de aguardente, os pingos de tocha, os melindres ou os biscoitos da Terra Chã sempre apareciam em dias festivos ou a acompanhar o chá, entre papéis finamente recortados. Menos rica de ingredientes e fantasias é a doçaria de cariz mais popular, onde se registam os suspiros e o arroz doce ou as fatias douradas, os coscorões e as melaçadas, polvilhadas fartamente de açúcar e canela, ligadas às festividades do Carnaval ou as papas de carolo que se comem no primeiro dia de Maio, quando nas janelas e sacadas surgem os Maios.
Mas apenas de açúcar se faz o *alfenim, certamente de tradição oriental, chegado ao Continente e levado para as Ilhas pelos primeiros povoadores, pois já a ele se refere Gaspar Frutuoso. A partir de uma calda fina de açúcar obtém-se a quente uma massa possível de modelar e assim vão surgindo as figuras antropomórficas e zoomórficas com os olhos pretos de grãos de ervilhaca ou ainda as cestinhas de flores variadas. Presente em todas as ilhas, é, no entanto, na Terceira que se fazem os trabalhos mais delicados: cestinhas de flores, pombas, cisnes, ovelhinhas, tourinhos, galinhas, pintos, coelhos, rosquilhas, etc.
As artes populares, da latoaria aos instrumentos musicais, do trajo e da ourivesaria aos artefactos de festa, são memória de uma cultura tradicional que soube adaptar-se com imaginação e sensibilidade às realidades e dificuldades materiais de cada ilha, caldeando experiências, convívios e saberes. Elizabeth Cabral (Jun.1998)
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