arquitectura

Dependente naturalmente da influência do Continente, mas capaz de uma recriação formal e espacial, em conjugação com os materiais, a inventiva e as necessidades insulares, assim tem sido a arquitectura açoriana. No plano erudito, as ilhas são possuidoras de um considerável legado de arquitectura religiosa, sobretudo dos séculos xvii e xviii, com destaque para os seguintes conjuntos: os das antigas igrejas e colégios jesuítas (Angra, Ponta Delgada e Horta); os numerosos mosteiros e conventos, sobretudo franciscanos (nomeadamente em Ponta Delgada – S. José e Esperança – e Vila Franca do Campo, Angra do Heroísmo, Velas de S. Jorge, Vila do Porto de Santa Maria, Lajes do Pico e Santa Cruz das Flores); igrejas como a matriz de Ponta Delgada (com preciosos elementos manuelinos), a original paroquial de S. Pedro (Ponta Delgada), a Sé de Angra (exemplar da tipologia «chã» e maneirista), a igreja de S. João Baptista, em Angra (precoce edifício da «arquitectura da Restauração»), e algumas misericórdias (a original construção da Ribeira Grande, ou a marcante fachada da de Angra); e ainda os recolhimentos (Santa Bárbara, Ponta Delgada) e as numerosas ermidas, autónomas e anexas. Também deve referir-se a existência de uma consistente arquitectura militar, de que subsistem exemplos notáveis, como os quinhentistas Fortes de S. Sebastião e de S. João Baptista, em Angra, e as fortalezas litorais de Ponta Delgada e da Horta. Finalmente, uma arquitectura civil de personalidade também marcou os Açores, com destaque para os edifícios das Casas de Câmara, em Angra do Heroísmo (reconstruída no século xix) e na Praia da Vitória (Terceira), em Ponta Delgada, Ribeira Grande e Vila Franca do Campo (S. Miguel), com a sua tipologia de alpendre e escadório (a remeter para as homólogas construções do Brasil).

O campo de maior desenvolvimento da arquitectura já enraizada num «modo de construir» de expressão açoriana é, porém, o das casas de quinta e solares urbanos, arquitectura doméstica que atingiu expoente nos séculos xvii e xviii. São obras marcantes de uma articulação dos temas eruditos com a originalidade vernacular, consolidadas pelo uso da pedra negra basáltica, nas molduras e vãos, envolvida pela caiação abundante, e com um «sentido telúrico» da construção. O Solar das Necessidades, nos arredores de Ponta Delgada; o Palácio dos Bettencourt (actual Biblioteca Pública e Arquivo de Angra); e o conjunto da área urbana da Ribeira Grande são exemplos significativos, sobretudo abundantes nas principais cidades e seus arredores.

Equacionada fundamentalmente no período moderno, entre os séculos xv e xviii, a arquitectura açoriana inclui depois alguma experimentação neoclássica: relacionada com as áreas termais (Vale das Furnas, S. Miguel), com a renovação de equipamentos (Hospital de Ponta Delgada), e ainda com os novos programas palacianos (Santana, em Ponta Delgada) e privados (colónia dos cabos submarinos na Horta). Exemplos mais discretos e esporádicos surgem igualmente no campo da «arquitectura do ferro» (galeria metálica em solar da Rua Luís de Bettencourt, Ponta Delgada), e da arte nova (decoração interior da loja New York, ou do Palácio de Santana, em Ponta Delgada).

Uma periodização desta arquitectura, autónoma em relação à do Continente, foi ensaiada por Francisco Ernesto de Oliveira Martins, que refere sucessivamente as fases: do «povoamento», em 1430-1582, onde cita as obras ainda com marcas gótico-manuelinas («casa do donatário», vila do Porto; janelas na Ribeira Grande; portais das matrizes de Praia da Vitória e de S. Sebastião, na Terceira, e da matriz de Vila Franca do Campo, em S. Miguel); da «ocupação filipina», em 1582-1642, com obras maneiristas ou «chãs» como o Solar da Madre de Deus, em Angra, ou a casa Soares de Albergaria, em Ponta Delgada; da «emigração para o Brasil», em 1642-1760, com obras entre o «chão» e o barroco, como a igreja dos Remédios dos Cantos, em Angra, a casa-solar da Urzelina, em S. Jorge, a Igreja-Convento de S. Pedro de Alcântara, no Cais do Pico, ou a Igreja do Carmo na Horta; do «negócio da laranja», em 1760-1830, com obras como a Igreja da Madalena do Pico, a misericórdia da Praia da Vitória e os solares neoclássicos da chamada «arquitectura da Laranja» em S. Miguel; «da emigração para os Estados Unidos», em 1830-1950.

Sem dúvida discutível, esta ordenação teve, porém, o mérito de tentar pela primeira vez uma estruturação histórica dos tempos insulares, de forma autónoma em relação à do Continente.

No século xx, as diversas correntes de modernidade passaram pelas ilhas de forma desigual, sendo de destacar: na década de 30, a obra ímpar, de gosto Art Deco e modernista, por Manuel António de Vasconcelos, engenheiro, que projectou e construiu entre outros o Hotel das Furnas e o casino (no vale termal), a barbearia Gil (no centro de Ponta Delgada) e a residência própria (na Avenida Gaspar Frutuoso), todas em S. Miguel; e o Montepio Terceirense, depois Banco Português do Atlântico em Angra; além destas obras, deve destacar-se, por Norte Júnior, o edifício do Amor da Pátria, na Horta, de nítido desenho «artes decorativas»; nos anos 40-50, mais «cinzentos», as obras públicas dominam a produção de equipamentos, quase sempre de modo imposto ou esteticamente seguidista em relação ao continente. O conjunto da nova praça central de Ponta Delgada é o exemplo paradigmático; obras como a Caixa Geral de Depósitos e os Correios de Angra, ou como a alfândega e o Palácio de Justiça de Ponta Delgada provam esta tendência evocativo-historicista, surgindo quase sempre a colunata basáltica monumentalista, ou o beiral ruralista, ou a estilizada arcaria; nas décadas mais recentes, algumas obras francamente modernas e renovadoras do panorama têm sido edificadas, podendo destacar-se: a pousada da Serreta, por João Rebelo (depois emigrado para o Canadá), dos anos 60; o auditório de Ponta Delgada, por Luís Cunha (recuperando um antigo claustro), de 1978; já dos anos 80: o Centro Regional de Segurança Social, em Angra, por Chorão Ramalho; o edifício do Canto da Fontinha, em Ponta Delgada, por João Maia Macedo; o conjunto da Assembleia Regional, por Correia Fernandes, na Horta. Deve assinalar-se igualmente um esforço substantivo na recuperação do património monumental e habitacional, com relevo para Angra depois do sismo de 1980.

Finalmente, deve ser dado relevo à arquitectura popular (ou regional) tradicional, pelo carácter profundamente original que reveste, nomeadamente no que toca à casa insular: inserção na «família» da casa da Europa Ocidental, cruzando características do habitat mediterrâneo com o norte-europeu, visível no sistema misto de «lareira alta»/«forno interior», mas com predomínio da vertente meridional, filtrada pela preponderante influência portuguesa; é dominante a «casa de pedra» típica do mundo euro-mediterrâneo, de planta rectangular, impregnada de forte sentido ruralista (patente por vezes mesmo em meio urbano – veja-se o «quintal» e seus acessórios vivenciais); capacidade de combinações e recriações originais de vários tipos e formas de casa, dentro da tradição arquitectónica portuguesa, numa «tensão» equilibrada entre a inovação e a persistência dos modelos criados; deve destacar-se a importância do constante uso do forno inscrito na cozinha (com o original sistema «forno-lareira-chaminé»), e da diversidade da «relação espacial casa-cozinha» (3 tipos principais: «casa dissociada», «casa linear» e «casa integrada»); na casa urbana: uma exacerbação da elaboração de elementos formais de pormenor; o uso frequente das torres e mirantes superiores (de «ver-o-mar»); uma riqueza de soluções inventivas nas aplicações de pedra ou caiação no emolduramento (e travamento anti-sísmico) dos vãos, com relevo para o «estilo micaelense» da Ribeira Grande e para as fachadas de «faixa e avental» na Graciosa e Terceira; uso frequente de elementos de protecção dos vãos com madeira (em rotulados, persianas, reixas), ou de construção das gateiras e mansardas em tábua aparente – revelando nos primeiros a tradição muçulmana, nos segundos a influência americana. José Manuel Fernandes (Out.1996)

Bibl. Bottineau, Y. (1977), L’Architecture aux Açores du Manuelin au Baroque. Colóquio-Artes, Lisboa, 35: 53-67. Martins, F. E. O. (1983), Arquitectura dos Açores- Subsídios para o Seu Estudo. Horta, Direcção Regional de Turismo. Tostões, A., Silva, F. J., Caldas, J. V., Fernandes, J. M., Janeiro, M. L., Barcelos, N. e Mestre, V. (1985), Arquitectura Popular dos Açores (policopiado). Id. (1987), Arquitectura na Madeira e Açores. Dicionário de Arquitectura. Lisboa, Ed. Presença (policopiado). Id. (1996), Cidades e Casas da Macaronésia. 2.ª ed., Porto, Faculdade de Arquitectura.