armaria

Trazida pelos colonizadores Foi no século xv que se deu a colonização dos Açores, com casais oriundos de Portugal e da Flandres, sendo também estas as origens do seu primeiro armamento. Tratando-se de ilhas desabitadas e não cobiçadas durante a fase de colonização, esta decorreu de forma pacífica; consequentemente, poucas armas entraram no arquipélago neste período. Das espadas, adagas, lanças, bestas, armaduras e escudos então em uso, apenas se conhece um único exemplar quatrocentista descoberto nos Açores – um cranequim gótico, de origem flamenga, para armar uma besta.

Enviada do Reino No reinado de D. Manuel I (1495-1521), mudou drasticamente a situação de paz então vivida nos Açores. Os colonos tinham desbastado as ilhas e implantado culturas rendíveis. A economia açoriana crescia rapidamente, não só devido à abundância das colheitas e sua exportação, como pelo contacto com as primeiras frotas, tanto espanholas como portuguesas, que voltavam carregadas de prata e ouro das Américas e com especiaria, pedraria, marfim, louças e sedas da Ásia. Esta súbita riqueza acordou a cobiça geral, surgindo piratas franceses, ingleses e argelinos, que não só davam caça a estas frotas riquíssimas e então ainda pouco protegidas, como também aprisionavam os seus habitantes, que vendiam para a escravatura. A população açoriana, então basicamente camponesa, não estava minimamente preparada para estes assaltos, pelo que resolveu D. Manuel I enviar um grande número de lanças compridas, peitorais e capacetes, que foram distribuídos directamente à população. Esta, sem a mínima preparação guerreira, transformou as lanças em varredoiros de fornos, os capacetes em caldeirões e as escarcelas destinadas à protecção das coxas foram rapidamente adaptadas para portas das bocas dos fornos (Arquivo dos Açores, 1981b). No reinado de D. João III (1521-57), decidiu-se a fortificação dos lugares mais importantes das ilhas e o envio de artilharia, arcabuzes, espingardas e outro material de guerra. As armas enviadas do Reino já não eram distribuídas directamente à população, mas entregues a um anadel, que as guardava, limpava e mantinha em estado permanente de possível utilização (Arquivo dos Açores, 1980a). Na edificação das fortalezas envolveu-se então toda a população açoriana. Uns comparticipavam com material de construção, outros com horas de trabalho. Todos eram submetidos a impostos em prol da defesa (Arquivo dos Açores, 1982a). Para a construção da Fortaleza de S. Brás, decidida em 1551, devido ao rapto de 27 pessoas, incluindo 9 mulheres, lançou-se um imposto sobre todas as fazendas da ilha de S. Miguel, pago pelos seus habitantes na proporção dos haveres de cada um. Em 1553, lançou-se mais um imposto, este de 2 % sobre o valor do açúcar e do pastel que se exportava com o fim de aplicar a receita à defesa da ilha, suas fortificações, armamento, munições e gente de guerra. No mesmo ano também, já se ensinava o uso de armas de fogo por um anadel-mor (Arquivo dos Açores, 1981b). A construção da Fortaleza de S. Brás levou vinte e oito anos, ficando pronta na altura da sua entrega aos Espanhóis em 1580. Os primeiros artilheiros eram nove, vindos do Continente (1552), tendo sido substituídos (1555) por trinta alistados em S. Miguel, que tinham de prestar serviço um dia por semana e todos os domingos e feriados. As suas peças de artilharia, todas em bronze e da melhor qualidade, entregues em 1554, eram: um grande tiro, chamado S. Miguel, uma columbrina, quatro esperas, duas meias esperas, oito pedreiros, oito falcões com vinte e quatro câmaras de carregamento pela culatra de dezoito berços com setenta e duas câmaras (Arquivo dos Açores, 1982a). Quando os Espanhóis tomaram a ilha Terceira (em 1583), apreenderam já 283 peças de artilharia espalhadas pelos diferentes fortins e baluartes e grandes quantidades de pólvora escondidos na Sé de Angra e em outras igrejas (Arquivo dos Açores, 1980b). O material, uma vez enviado para os Açores, era utilizado até à exaustão, encontrando-se ainda no fim do século xviii, em pleno uso, peças de artilharia dos séculos xvi e xvii (Arquivo dos Açores, 1981b).

Trazida por forças exteriores Salvo poucas excepções, as armas levadas para os Açores que não se destinavam ao reabastecimento das ilhas raramente aí ficaram. Porém, foi isso o que aconteceu com duas das mais belas peças de armaria antiga até hoje descobertas nos Açores: o capacete de D. Diogo de Meneses, 15.º governador da Índia Portuguesa (1576-78) e comandante-chefe das forças de D. António, prior do Crato, e o machado de comando naval de Strozzi, almirante italiano da esquadra de D. António, morto na Batalha de Vila Franca do Campo, frente à ilha de S. Miguel (1582). A única força estrangeira que deixou um número considerável de armas nos Açores não era sequer uma força de guerra. Tratou-se da frota baleeira americana, que ainda na segunda metade do século passado se servia com frequência dos portos açorianos para o seu reabastecimento. Como forma de pagamento, era então frequente transaccionar armamento obsoleto nos Estados Unidos da América mas ainda plenamente em uso nos Açores, nomeadamente revólveres Colt e Remington, de carregamento pela boca do tambor, e espingardas Hall de Harpers Ferry, com ignição de pederneira, mas de carregamento pela boca da culatra; estas já se encontraram em número considerável nos Açores e são, de resto, consideradas raras.

Fabricação local Com excepção de uma espada de honra fabricada no século passado na ilha Terceira, com utilização de uma lâmina importada, só se sabe da fabricação local de armas muito primitivas, geralmente criadas por ferreiros em época de aflição, transformando alfaias agrícolas em armas brancas. A fabricação de armamento local açoriano foi, assim, quase inexistente.

Armamento de passagem Desde o início do século xvi até à actualidade, são os Açores considerados como a principal encruzilhada no Atlântico. Assim, todas as grandes potências mundiais passaram e passam, pelos Açores, tanto por via marítima, como por via aérea, o mais sofisticado armamento. Rainer Daehnhardt (Jun.1996)

Bibl. Arquivo dos Açores (1980a), Ponta Delgada, 1: 137. Id. (1980b), Ponta Delgada, 2: 41. Id. (1981a), Ponta Delgada, 4: 140. Id. (1981b), Ponta Delgada, 5: 81, 367, 368, 407, 417. Id. (1982), Ponta Delgada, 9: 165, 173. Id. (1983), Ponta Delgada, 12: 418. Gaier, C. (1991), Prestige de l`armurerie Portugaise. Liège, Echevinat de la Culture, des Musées et du Tourisme: 50. Daehnhardt, R. (1982), Um bastão de comando naval. Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, 42: 133-52. Id. (1996), Homens, Espadas e Tomates. Lisboa, Ed. Nova Acrópole: 87.