Armada Invencível
Este é o epíteto da frota espanhola que tenta a invasão da Grã-Bretanha em Julho/Agosto de 1588. A armada filipina zarpa do porto de Lisboa em Maio, sob o comando do duque de Medina-Sidónia. Na altura, dispõe de 130 navios e mais de 20 000 combatentes, mas aguarda pela junção de um contingente flamengo, da responsabilidade de Alexandre Farnésio, duque de Parma. Por sua vez, a esquadra inglesa permanece em vigia da costa, sob a chefia de lord Effingham, que possui 170 embarcações e cerca de 6000 militares. Na comparação mais elementar, ressalta a relativa equivalência das naus e a evidente disparidade dos homens. Todavia, numa apreciação mais minuciosa, avulta também a diversidade dos meios navais, sobretudo a antinomia entre a imponência dos galeões de Filipe II e a agilidade dos navios de Isabel I. Estas diferenças manifestam naturalmente a contradição das estratégias. Neste contexto, sucede o confronto, que resulta numa pesada derrota da Armada Invencível. Este desfecho deriva logo da dificuldade do mar, que estorva a rigidez da organização castelhana. Depois, advêm os préstimos da versatilidade e da astúcia britânicas, que por artifícios tácticos logram o incêndio da expedição ibérica, então muito vulnerável aos ataques dos defensores.
No mundo português, o desfecho da contenda gera implicações muito negativas, que ameaçam a integridade do império colonial e questionam a conveniência económica da unificação peninsular. Com efeito, a nossa participação na expedição filipina demonstra o equívoco da preservação da independência de Portugal, garantida juridicamente pelo compromisso de Tomar em 1581. Assim, na óptica dos inimigos de Filipe II, o alinhamento dos Portugueses pela cadência diplomática de Madrid constitui um pretexto de invasão das principais possessões ultramarinas, sobretudo Angola e o Brasil. Neste contexto, a debilidade da marinha e a falta de pronto socorro filipino determinam a perda de áreas nevrálgicas, que dificilmente se reconquistam.
Nos Açores, existem curiosamente analogias com a organização e a derrota da Armada Invencível. Assim, a expedição do marquês de Santa Cruz, que conquista a Terceira em 1583, constitui um ensaio da grande esquadra de 1588, porque confirma a possibilidade da obtenção de vitória, pela deslocação a grande distância de um numeroso contingente de militares. Aliás, no seguimento da submissão dos Açores, que aparentemente reforça a segurança do Ultramar, D. Álvaro de Baçan propõe o empreendimento da campanha de Inglaterra e a continuidade da empresa de Larache. Na óptica do comandante espanhol, a concretização destes projectos constitui a garantia do primado filipino nos mares. Na verdade, o combate dos Ingleses equivale a uma exigência da repulsa dos princípios de Tordesilhas, que questiona o monopólio colonial dos Ibéricos. Por seu turno, a jornada do Norte de África possui um alcance mais restrito. Com efeito, visa o acometimento de uma base de pirataria, que ataca alvos económicos nas costas da Andaluzia e do Algarve, e molesta as frotas comerciais das Índias no derradeiro troço da rota, compreendido entre o cabo de S. Vicente e o porto de Sevilha.
A derrota da Armada Invencível tem repercussões no arquipélago, que ressaltam logo em 1589, através do acréscimo da ameaça inglesa e do consequente reforço da prevenção espanhola. De facto, no biénio de 1589-90, os corsários britânicos acometem as ilhas de S. Miguel, Graciosa, S. Jorge, Faial, Flores e Corvo. Na altura, avulta o desembarque do conde de Cumberland, em Setembro de 1589, no sítio da Alagoa da então Vila da Horta, que implica o saque e a devastação do povoado e ainda o pagamento de resgate em troca da retirada. Nesta conjuntura, o poder filipino fortalece a organização defensiva, promovendo o conserto de antigas fortificações e até a reconstituição das milícias terceirenses, dissolvidas no tempo da conquista. No entanto, releva sobretudo a adesão do rei ao projecto de construção de uma fortaleza no monte Brasil da ilha Terceira, que se inicia nos primeiros anos do decénio de 1590. O novo castelo, então cognominado de S. Filipe, constitui um dos maiores e mais inexpugnáveis bastiões erigidos pelos espanhóis no além-mar, assumindo à luz das rivalidades euro-ultramarinas do termo do século xvi o carácter de atalaia do Atlântico. Com efeito, a nova praça acautela a fidelidade política dos Terceirenses contra o eventual assomo da propaganda antoniana e protege a principal base açoriana de correspondência entre a Europa e o Ultramar, conferindo segurança às armadas da Índia e da América, que regularmente buscam amparo nas baías de Angra.
A organização da Armada Invencível surge no quadro das disputas europeias e ultramarinas, que no ocaso de Quinhentos confrontam a Espanha de Filipe II e a Inglaterra de Isabel I. Todavia, a união ibérica de 1580 envolve Portugal nas implicações da derrota dos Espanhóis, que motivam o acometimento do Império e a perturbação da estabilidade do Reino. Nos Açores, as vicissitudes da crise dinástica e a preponderância nas relações transatlânticas também geram analogias com a preparação e o desastre da Grande Armada. Antes, as ilhas testam o préstimo da estratégia filipina, quando resistem às expedições do marquês de Santa Cruz. Depois, suportam a ousadia britânica, potenciada pelo alvoroço da vitória. Avelino de Freitas de Meneses (Dez.1997)
Bibl. Fernandez-Duro, C. (1884-85), La Armada Invencible. Madrid. Elliott, J. H. (1988), La Europa Dividida: 1559-1598. Madrid, Siglo xxi. Martin, C. e Parker, G. (1988), Le dossier de l´ invincible armada. Chronologie, notes et annexes. Paris, Tallandier. Meneses, A. F. (1987), Os Açores e o Domínio Filipino (1580-1590). Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira.
