armada das ilhas
Desde 1518, pelo menos, que há notícia do envio regular de uma armada às ilhas dos Açores, a fim de aguardar as naus regressadas da Índia e conduzi-las em segurança a Lisboa. Fr. Luís de Sousa, nos Anais de D. João III, regista desde 1524 a 1542, em vários destes anos, o envio aos Açores desta armada. O número de navios que a integrava oscilou bastante, certamente devido à necessidade do momento, mas também pela disponibilidade dos armazéns da Guiné e da Índia em cada um dos anos. De um mínimo de quatro (1540) chega a atingir as treze velas (1598), integrando naus, galeões, caravelas e uma zavra, ou caravelão, para recados. A partida da armada do Tejo tinha lugar, normalmente, entre os meses de Março e Maio. Rumando até às Berlengas, navegaria em altura de 40° até chegar à Terceira. Escalado o porto de Angra, nesta ilha, e desembarcados os passageiros, que eventualmente ali se destinassem, o capitão-mor da armada deveria informar-se junto das autoridades locais (corregedor, provedores da fazenda e das armadas) de quaisquer notícias ou movimento de corsários que demandassem aquelas ilhas, a fim de tomar as medidas de segurança necessárias. Feita esta diligência, seguiria para a ilha do Corvo, mandando «saber das justiças da terra se ouuerem vista ou tem nova de alguma nao ou naos da India ou de navios de cosairos», ordenando que estabelecessem vigias em terra, dando notícia através de fogueiras e de um enviado, de qualquer navio que avistassem. A uma distância nunca superior a 40 léguas (128 milhas/74 km) ou a 70 léguas (224 milhas/130 km) a oeste do Corvo e navegando numa latitude compreendida entre os 40° e 39° (até 20 de Julho) ou 39° e 38° (de Julho a Agosto), a armada deveria aguardar as naus regressadas da Índia e, em alguns anos, as de África (particularmente da Mina). A sua missão seria de alerta permanente em relação a qualquer embarcação vinda do Oriente, como de constante atenção a navios de corsários que porventura ali surgissem. Em ocasião de maior perigo, um caravelão, armado na ilha Terceira, navegaria entre as ilhas das Flores e Faial, estabelecendo um contacto permanente entre as autoridades terceirenses e o capitão-mor da armada, ao mesmo tempo que reforçava a vigilância contra o inimigo. O aparecimento de algum navio, ou navios, no extremo ocidental do arquipélago implicava, quase sempre, o seu acompanhamento ao porto de Angra por algumas unidades da armada das ilhas. Aqui, depois de providas e reparadas, e consoante o seu estado, as condições meteorológicas e as notícias de corsários, ou navegariam de seguida para Lisboa ou voltariam de novo para o Corvo, a aguardar as últimas embarcações da Índia, a fim de virem todas juntas. Note-se, porém, que o envio, em separado, de alguma das naus da Índia dos Açores para Lisboa deveria ser acompanhado por embarcações da armada das ilhas. E como esta, em regra, não pudesse dispensar mais do que um ou dois navios para esse fim, tinha o provedor das armadas da ilha Terceira que reforçar tal protecção armando nas ilhas uma ou mais embarcações para a acompanhar. De todas as notícias e ocorrências acontecidas durante a permanência da armada das ilhas nos Açores deveria o capitão-mor informar a Coroa, utilizando, certamente, os navios de comércio que se deslocassem para o reino. Mas a novidade particularmente importante e que deveria ser transmitida o mais rapidamente possível era a da chegada de qualquer nau do Oriente. Neste caso, seria logo enviado recado ao rei, com uma via das cartas que para ele viessem da Índia, as quais seriam acompanhadas de «hum homem dos da Ymdia pratico nas cousas della», como se recomendava em 1578, e que soubesse «dar razam do que Ihe for perguntado», como já se havia estipulado no regimento de 1572. É, todavia, de notar que o provimento das naus da Índia no porto de Angra só deveria ter lugar quando tornado absolutamente indispensável e far-se-ia no mar alto sem «tomar porto pelo perigo que he ancorarem». Cumpria à armada das ilhas provê-las no necessário. Todavia, a insuficiência desta ou a necessidade de reparações em Angra conduziu, em muitos casos, os navios da Índia ao porto da capital da ilha Terceira e aos das demais ilhas. Lembre-se, a propósito, que já o Regimento para as Naus da Índia nos Açores definira, desde 1520, as condições e o procedimento dessa aportagem, procurando-se, acima de tudo, acautelar os carregamentos e prevenir contra inesperadas investidas dos corsários. Nas proximidades do Corvo permaneceria, assim, durante cerca de quatro meses esta armada, regressando a Lisboa com a última nau que chegasse nesse ano da Índia, não devendo tal espera ultrapassar os finais de Agosto. Em missão de permanente alerta, de acção combinada com as vigias de terra e com possíveis informações vindas da Terceira se mantinha a frota no extremo ocidental do arquipélago. O capitão-mor deveria reunir diariamente e pela manhã a armada, através do caravelão dos recados ou de outro navio transmitiria as suas ordens e receberia as informações. Em tal operação era divulgado o nome do santo que naquele dia era invocado e que constituía elemento identificador durante a noite, já que o farol não era utilizado para que a armada não pudesse ser detectada pelo inimigo. No regresso ao Continente português, a armada das ilhas, para além de acompanhar as naus da Índia, e, eventualmente, da Mina ou de outras partes de África, deveria trazer consigo quaisquer barcos que dos Açores pretendessem ir para esse destino. A chegada a Cascais era assinalada por três tiros disparados pela nau do capitão-mor ou pela que primeiro aportasse, para que os pilotos a metessem dentro da barca. Aqui ficariam ao largo com todas as naus da especiaria até que fosse efectuada revista pelos oficiais da Casa da Índia. Artur Teodoro de Matos (Jul.1997)
Bibl. Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, Reservados, cód. 3074, fls. 63-72 e 79-83. Biblioteca da Ajuda (Lisboa), cód. 51-VI-19, fls. 281-290; Matos, A.T. (1985), A provedoria das armadas da ilha Terceira e a Carreira da Índia no século xvi In Actas do II Seminário Internacional de História Indo-Portuguesa. Lisboa, Instituto de Investigação Científica Tropical. Id. (1983), Os Açores e a Carreira das Índias no século xvi, In Estudos de História de Portugal vol. II: Séculos XVI-XX (homenagem a A. H. de Oliveira Marques). Lisboa, Estampa. Id. (1990), A Armada das Ilhas e a Armada da Costa no Século XVI. Novos Elementos para o Seu Estudo. Lisboa, Academia de Marinha.
