aranhas

A fauna das aranhas dos Açores apresenta bastante interesse em virtude dos seus endemismos e das suas afinidades com a fauna de regiões abastadas. Encontram-se nos Açores dois géneros endémicos e ainda uma espécie cavernícula.

História, composição da fauna A fauna araneidológica dos Açores ainda não se encontra bem estudada, pois só poucas espécies são conhecidas das ilhas de S. Jorge e do Corvo. Uma primeira lista das aranhas dos Açores foi apresentada por Denis (1964: 100-1); e Wünderlich (1991: 13-15) assinalou 103 espécies pertencentes a 75 géneros e a 25 famílias. As aranhas epígeas mais frequentes são espécies muito pequenas pertencentes aos géneros Lepthyphantes, Agyneta e Erigone, todas da família Linyphiidae. Também comuns são as aranhas de patas compridas da família Pholcidae, que vivem, por exemplo, nos locais sombrios dos anexos das nossas casas, e mesmo em cavernas. As aranhas mais exóticas, raras e pouco conhecidas, são espécies endémicas minúsculas do género Minicia, as quais possuem no prosoma dos machos lobos bastante grandes.

Biogeografia, espécies introduzidas e endémicas Muitas das espécies de aranhas dos Açores foram introduzidas pelo homem e apresentam uma larga distribuição na região paleárctica (mais ou menos 45 %), ou são mesmo cosmopolitas (mais ou menos 13 %); 16 % são endémicas e 26 % são endemismos macaronésicos. Uma espécie pan-macaronésica é Microlinyphia johnsoni (Wünderlich, 1991: 13-15, 82-94). A maior parte das espécies introduzidas ocorrem nas ilhas de S. Miguel e do Faial e são originárias da região paleárctica; muito poucas são de origem neárctica, como Erigone autumnalis e várias espécies do género Eperigone. As principais espécies endémicas são: Lecognatha açoreensis (Tetragnathidae), Gibbaranea occidentalis (Araneidae), Agyneta rugosa, Lepthyphantes açoreensis, Diplocentria açoreensis, Savigniorthipis açoreensis e Tryphochrestus açoreensis (da família Linyphiidae), Dipoena oceanica (= Lasaeola oceanica), Rugathodes açoreensis, Rugathodes pico (Theridiidae), Dictyna açoreensis (= Emblyna açoreensis) (Dyctynidae), Pardosa açoreensis (Lycosidae), e Pisaura açoreensis (Pisauridae).

Na ilha das Flores ocorre Minicia florensis e na do Pico Minicia picoensis. Deste género é provável existirem nas ilhas de S. Miguel e Terceira outras espécies endémicas ainda não descobertas. A maioria destas espécies são endemismos pan-açorianos, excepto as do género Minicia, pertencentes à família Linyphiidae que apresenta muitas espécies na região paleárctica. Até agora a ilha que tem sido melhor estudada sob o aspecto araneidológico é a Terceira. Há uma relação biogeográfica muito estreita entre as espécies endémicas e a área mediterrânica ocidental, especialmente com a Madeira e as Canárias, mas não relacionadas com a região neárctica (ver mapa 1). No capítulo dedicado à ecologia serão referidas duas espécies endémicas com interesse significativo. Tendo em atenção a posição isolada dos Açores no meio do oceano Atlântico, entre a América e a Europa, são encontradas algumas lacunas na fauna endémica de aranhas. Com efeito, ainda não são conhecidos endemismos das famílias Dysderidae, Pholcidae, Oecobiidae, Agelenidae, Clubionidae, Thomisidae, Philodromidae e Salticidae, as quais apresentam, por exemplo, nas ilhas Canárias bastantes espécies endémicas.

Colonização e espécies ameaçadas de extinção Grande número das espécies açorianas são originárias do Sudoeste da Europa. Não se conhecem as vias de colonização que levaram estas espécies desde o continente europeu, Madeira e Canárias até aos Açores (mapa 1). Algumas, provavelmente, foram transportadas pelo vento (Wünderlich, 1991: 205, 208), outras através de meios flutuantes. Colonizações recentes foram devidas à acção do homem, por exemplo, as espécies do género neárctico Eperigone e as cosmopolitas Dysdera crocota, Oonops pulcher, Pholcus phalangioides, Oecobius navus, Ostearius melanopygius, Nesticodes fufipes, Steatodagrossa, Tegenaria domestica, e Urozelotes rusticus. Alguns endemismos açorianos encontram-se provavelmente em perigo com a introdução de outras espécies, com as quais competem, como Lepthyphantes açoreensis, devido a Lepthyphantes tenuis, e Argyneta rugosa, devido a Argyneta fuscipalpis (todas da família Linyphiidae) (Wünderlich, 1991: 222).

Ecologia A diversidade ecológica das ilhas açorianas é conhecida geralmente como sendo de índice 3 (Pico 4), (Wünderlich, 1991: 158, 163). As ilhas Canárias, em comparação, possuem um índice de diversidade 6, e a Madeira de 4. De especial interesse é a fauna de aranhas pertencente a dois biótopos diferenciados. 1. Na floresta de laurissilva Faial-Brezal, encontramos Microlinyphia johnsoni, Entelecara schmitzi (Linyphiidae), e provavelmente Leucognatha açoreensis (Tetragnathidae). A espécie do género Leucognatha parece ser, provavelmente, pertencente a uma primitiva floresta subtropical de laurissilva, com características terciárias (Wünderlich, 1991: 191). Não há conhecimento no mundo de qualquer outra espécie aparentada. 2. As cavernícolas. A espécie holárctica Eidmanella pallida (Nesticidae) ocorre em grutas, mas também fora delas, debaixo de pedras em locais húmidos. Rugathodes pico (Theridiidae) é uma verdadeira habitante de grutas e conhecida apenas das ilhas do Pico e do Faial. Esta aranha de patas compridas apresenta olhos muito reduzidos (fig. 2) e só um pouco de pigmento. A espécie base, R. açoreensis, vive fora de grutas e em árvores, talvez em todas as ilhas dos Açores (não é ainda conhecida das ilhas de S. Jorge nem do Corvo). J. Wünderlich ([trad. de A. Bivar de Sousa]  (Dez.1995)

Bibl. Denis, J. (1964), Spiders from the Azores and Madeira. Boletim do Museu Municipal do Funchal, 18: 68-102. Wünderlich, J. (1991), Die Spinnen-Fauna der Makaronesischen Inseln. Taxonomie, Ökologie, Biogeographie und Evolution. 619 S. J. Wünderlich Verlag, D-75334 Straubenhardt. Id. (1993), The Macaronesian cave-dwelling spider fauna (Arachnida: Araneae). Memories of the Queensland Museum, 33, 2: 681-686.

 

Notas e bibliografia do tradutor:

1. No capítulo 1, «História», teria sido interessante referir a importância das campanhas científicas de S.A.R. o príncipe Alberto do Mónaco, efectuadas na região dos Açores a partir de 1881, nos seus «yatchs» L’Hirondelle e Princess Alice. Com efeito, além de estudos oceanográficos, também foram realizados estudos sobre a fauna e flora das ilhas açorianas. Numa das viagens do L’Hirondelle (1887-88) encontrava-se a bordo M. Jules de Guerne que recolheu várias aranhas, que foram estudadas pelo grande especialista mundial Eugène Simon, em 1889. Em 1896, este especialista publicou uma lista das aranhas capturadas nos Açores durante as campanhas do «yatch» Princess Alice nos anos de 1892 a 1896. No entanto, o primeiro trabalho sobre as aranhas dos Açores parece ter sido o publicado também por Eugène Simon, em 1883, sobre material colhido pelo naturalista açoriano Francisco de Arruda Furtado.

2. Também em 1930, M. M. Chopard e A. Méquignon efectuaram uma expedição científica aos Açores, tendo Lucian Berland, em 1938, publicado um trabalho sobre as aranhas coligidas nos Açores por aqueles dois cientistas.

3. Dos cientistas portugueses destacamos Amélia Bacelar e António de Barros Machado, que, respectivamente, em 1937 e 1944, publicaram trabalhos sobre a fauna araneidológica dos Açores.

Bibl. Bacelar, A. (1937), Contribuição para o estudo da fauna aracnológica dos Açores e da Madeira. Arquivos do Museu Bocage, 8: 155-164. Berland, L. (1932), Voyage de M. M. Chopard et A. Méquignon aux Açores (août-septembre 1930). II. Araignées. Annalles. Société. Entomologique de France, CI: 64-84. Berland, L. e Dems, J. (1938), Le Peuplement des îles Atlantides. Les araignées des îles de L’Atlantique. Mémoire de la Société de Biogéografie, 65: 34-36. Barros-Machado, A. (1944), As afinidades e a origem da fauna araneidológica dos Açores. Publicações Culturais do Instituto de Zoologia Dr. Augusto Nobre, Faculdade de Ciências do Porto, 18: 1-16. Id. (1982), Acerca do estado actual do conhecimento das aranhas dos Açores (Araneae). Boletim da Sociedade Portuguesa de Entomologia, 7, supl. A: 137-143. Simon, E. (1883), Matériaux pour servir à la faune arachnologique des îles de l’Océan Atlantique. Annales Société Entomologique de France, 6, III: 259-314. Id. (1889), Liste préliminaire des Arachnides recueillis par M. Jules de Guerne aux Açores pendant les campagnes de l’Hirondelle (1887-1888). Bulletin de la Société Zoologique de France, XIV: 304-5. Id., (1896), Liste des Arachnides provenant des campagnes du yatch Princesse Alice (1892-1896). Ibid., XXI: 156.