aranha-do-mar

1 Nome vulgar da espécie de peixe Echiichthys vipera (Trachinidae) segundo Sampaio (1904) (como Trachinus vipera), também conhecida por ratinho (Collins, 1954) e peixe-aranha (Instituto da Conservação da Natureza, 1993). Espécie do litoral, bêntica, ocorre sobre fundos lodosos, arenosos e empedrados, de pouca profundidade, onde repousa, enterrada, muitas vezes, deixando expostos os olhos e a extremidade da primeira barbatana dorsal. Patzner et al. (1992) registam a sua ocorrência a menos de 3 m de profundidade, na baía de Porto-Pim. Nash e Santos (1993) referem, para este local, variações na abundância, do tipo sazonal, relacionadas com a temperatura da água do mar, e do tipo circadiano, com um máximo em Setembro (3 e 11 indivíduos por 1000 m2, de dia e à noite, respectivamente) e um mínimo em Junho. O comprimento total dos indivíduos encontrados, em Porto Pim, variou entre 4 e 6 cm, mas, mais frequentemente entre 5 e 11 cm. Trata-se de uma espécie do Mediterrâneo e do Atlântico Ocidental, conhecida nos Açores, desde Hilgendorf (1888), onde é temida pelos pescadores, por causa da ferida produzida pela barbatana dorsal (Sampaio, 1904) e pelo espinho opercular que injectam um veneno forte. Luís M. Arruda (Fev.1996)

2 Este nome também designa, nos Açores, organismos muito diferentes, mas que de alguma forma se assemelham às verdadeiras aranhas terrestres. Assim, o nome aranha-do-mar tanto se aplica aos pequenos picnogonídeos como aos caranguejos da família Homolidae. Os picnogonídeos, apesar de pertencerem juntamente com as aranhas ao filo Artropoda, constituem a classe Pycnogonidea, ordem Pantopoda (Brusca e Brusca, 1990). Têm sido um grupo problemático em termos de localização entre os outros taxa de artrópodes, embora a tendência actual seja a de reconhecer a sua semelhança com os Chelicerata (onde se incluem as verdadeiras aranhas), embora possuam características únicas dentro dos artrópodes, como sejam o proboscis anterior, as patas ovígeras (especiais para o transporte dos ovos, existentes nos machos) e a forma peculiar do corpo (Brusca e Brusca, 1990).

Na maioria das espécies, o comprimento do corpo oscila entre 0,65 e 2,5 mm para um comprimento das patas entre 1 e 10 mm. As espécies de profundidade podem, no entanto, atingir os 80 mm de comprimento do corpo (Nogueira, 1967). Têm entre 4 a 6 pares de patas e um corpo estreito dividido em segmentos. Anteriormente possuem um cephalon com um proboscis em cuja extremidade se localiza a boca. O número de patas é variável mas tipicamente possuem sete. No macho, um par de apêndices, as patas ovígeras, estão modificadas para transportar as posturas. Em muitas espécies as fêmeas que não possuem este par de apêndices põem os ovos e o macho fertiliza-os e recolhe-os transportando-os nas suas patas até à eclosão (Barnes, 1987).

Estes animais vivem em todos os oceanos. A maioria são tipicamente bentónicos e ocorrem comummente em costas rochosas que propiciam o substrato para a fixação dos seus items alimentares: anémonas, hidrozoários, briozoários, esponjas e corais. Alguns são capazes de movimentos natatórios e podem ser encontrados nalgumas amostras de plâncton.

Não existem referências bibliográficas para os Açores relativas a este grupo, de que é comum encontrar exemplares na zona das marés.

Dos caranguejos da família Homolideae, são também designadas com este nome duas espécies que ocorrem nas águas do arquipélago. Ambas as espécies possuem apêndices esguios que são muito mais compridos que a carapaça, à excepção do quinto par de patas que é geralmente de menores dimensões, localizado numa posição dorsal relativamente à carapaça e terminando numa subquela preênsil (Ingle, 1980; González-Gurriarán e González, 1985; Holthius, 1987).

a) Paromola cuvieri tem a carapaça ligeiramente convexa, de forma ovóide e com o rostro saliente (Bouvier, 1940; Zariquiey-Alvarez, 1968; González-Gurriarán e González, 1985; Noël, 1992). O comprimento é geralmente superior a 5 cm (Noël, 1992), podendo atingir 21,5 cm (Holthius, 1987). Geralmente de cor vermelho-acastanhada ou alaranjada, tem os dáctilos mais escuros (Ingle, 1980; Christiansen, 1982; Holthius, 1987). A superfície da carapaça e das patas exibe, geralmente, muitos tubérculos e espinhos (Zariquiey-Alvarez, 1968; Ingle, 1980; Christiansen, 1982; Holthius, 1987). O comprimento das patas do macho atinge, geralmente, três vezes o da carapaça. Nas fêmeas a diferença não é tão acentuada (Ingle, 1980; González-Gurriarán e González, 1985; Noël, 1992).

Ocorre no Atlântico Oriental desde a Noruega e Irlanda até à África do Sul (Ingle, 1980; Christiansen, 1982; González-Gurriarán e González, 1985; Noël, 1992).

Espécie de profundidade, ocorre em fundos vasosos, vaso-arenosos (González-Gurriarán e González, 1985; Holthius, 1987) e rochosos (Ingle, 1980) a partir dos 50 m e até cerca de 1320 m de profundidade.

Citada pela primeira vez para os Açores por Barrois (1888a, (b) , que se reporta a colheitas feitas pelo próprio em Agosto e Setembro de 1887 e referindo também um exemplar existente no Museu Carlos Machado (Barrois, 1888a). É uma espécie relativamente comum nos fundos rochosos ao largo de S. Miguel, sendo capturada acidentalmente pelos pescadores.

b) Homola barbata (Fabricius, 1793). Distingue-se da espécie anterior por possuir uma carapaça de forma quadrangular, de dorso plano ou pouco convexo e por possuir um rostro pouco pronunciado (Bouvier, 1940; González-Gurriarán e González, 1985; Noël, 1992), ser geralmente de menores dimensões – menos de 5 cm (Holthius, 1987; Noël, 1992) – e possuir de cada lado da metade posterior da carapaça apenas uma fila longitudinal de espinhos (Holthius, 1987).

É uma espécie anfiatlântica. Ocorre no Atlântico Oriental desde o Norte de Espanha à África do Sul e no Atlântico Ocidental de Massachussets ao Brasil. Habita também o Mediterrâneo (Zariquiey-Alvarez, 1968; Manning e Holthius, 1981; Noël, 1992).

Predomina em fundos móveis (Manning e Holthius, 1981), entre os 40 e 100 m de profundidade (Zariquiey-Alvarez, 1968; Holthius, 1987), podendo chegar aos 600 m (Manning e Holthius, 1981).

Citada pela primeira vez para os Açores por Milne-Edwards e Bouvier (1894), que se referem a um exemplar capturado a 195 m de profundidade, a sudoeste da Graciosa, em 1888, durante a campanha do Hirondelle. Também, em 1895, durante a campanha do Princesse Alice, foi capturado um exemplar, a 88 m de profundidade, na zona das Formigas (Milne-Edwards e Bouvier, 1899). Ana Cristina Costa (Set.1996)

Bibl. Barnes, R. (1987), Invertebrate Zoology. Philadelphia, Saunders College Publishing. Barrois, T. (1888a), Catalogues des crustacés marins recuellis aux Açores durant les mois d’aut et Septembre 1887. Lille, Le Bigot, Frères. Id. (1888b), Note preliminaire sur la faune carcinologique des Açores. Lille, Le Bigot, Frères. Bouvier, E. (1940), Decapodes marcheurs. Faune de France, 37. Brusca, R. e Brusca, G. (1990), Invertebrates. Sinauer Associates, Inc. Christiansen, M. (1982), A review of crustacea decapoda brachyura fide the Northeast Atlantic. Quaderni di Laboratorio, Tecnologia e Pescas, 3, 2-5: 347-354. Collins, B. L. (1954), Lista de peixes dos mares dos Açores. Açoreana, 5, 2: 103-42. González-Gurriarán, E. e González, M. (1985), Crustáceos Decápodos das Costas de Galicia I Brachyura. Cuadernos da Área de Ciências Biolóxicas. Públicaciós do Seminario de Estudos Galegos. Hilgendorf, F. M. (1888), Die Fische der Azoren, In Simroth, H. (ed.), Zur Kenntniss der Azorenfauna. Archiv für Naturgeschichte, 1, 3: 179-234. Holthius, L. B. (1987), Vrais crabes, In Fisher, W., Schneider, M. e Bauchot, M. L. (ed.), Fiches Fao d’identification des espèces pour les besoins de la pêche. Méditerrannée et Mer Noire, 323-367. Ingle, R. W. (1980), British crabs. British Museum (Natural History), Oxford University Press. Instituto da Conservação da Natureza (1993), Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal, vol. III: Peixes Marinhos e Estuarinos. Lisboa, ICN. Manning, R. B. e Holthius (1981), West African Brachyuran Crabs (Crustacea: Decapoda). Smithsonian Contributions to Zoology, 306: 1-64. Milne-Edwards, A. e Bouvier, E. (1894), Brachyures et Anomures. Crustacés provenant des campagnes du yatcht l’Hirondelle 1886, 1887 et 1888. Première partie. Résultats des Campagnes Scientifiques par Albert 1er Prince du Monaco. Monaco, Imprimerie de Monaco, 7: 1-112. Id. (1899), Crustacés décapodes provenant des campagnes scientifiques de l’Hirondelle (supplement) et de la Princesse Alice (1891-1897). Ibid., 13: 1-106. Nash, R. D. M. e Santos, R. S. (1993), The occurrence of the lesser weever in the Azores. Journal of Fish Biology, 43: 317-319. Noël, P. (1992), Clé préliminaire d’identification des crustacea decapoda de France. Paris, Musée National de Histoire Naturelle. Nogueira, M. (1967), Bases para a determinação dos Pantópodos das costas portuguesas. Arquivos do Museu Bocage (2), 1, 15: 284-338. Patzner, R. A., Santos, R. S., Ré, P. e Nash, R. D. M. (1992), Littoral Fishes of the Azores: an annotated checklist of fishes observed during the ‘Expedition Azores 1989’. Arquipélago (Life and Earth Sciences), 10: 101-11. Sampaio, A. S. (1904), Memória sobre a Ilha Terceira. Angra do Heroísmo, Imp. Municipal. Zariquiey-Alvarez, R. (1968), Crustáceos Decápodos Ibéricos. Investigación Pesquera, 32.