arado

Na longa história da tecnologia, o arado aparece associado à domesticação dos animais de tiro e representa um dos marcos mais significativos da aventura e civilização agrária.

Jorge Dias, no seu estudo pioneiro Os Arados Portugueses e as Suas Prováveis Origens, estabelece, segundo um critério morfológico, que articula com um critério convergente geográfico-ecológico, funcional e histórico, três tipos fundamentais: radial, de garganta e quadrangular.

O arado radial é o mais pequeno e elementar e caracteriza-se pelo facto de as suas três peças estruturais – dente, rabiça e temão – irradiarem do mesmo ponto, o vértice do ângulo formado pelo dente e a rabiça. A sua área global compreende a região serrana minhota, Trás-os-Montes, Beiras, sobretudo as interiores, ilhas da Madeira, Açores, Canárias e Baleares, certas zonas sul-americanas, Pirenéus e Norte de África.

O arado de garganta caracteriza-se por um temão composto, a garganta, peça encurvada que se insere a meio do dente, e a cabeça, que se liga ao jugo, e uma rabiça que vem igualmente prender-se ao dente. É o arado fundamental da área mediterrânea.

O arado quadrangular define-se pela sua estrutura básica quadrangular: dente e temão horizontais, rabiça e teiró verticais. Incorpora certos elementos, nomeadamente a sega que corta a leiva, um rodado dianteiro e rabiças laterais que fazem dele o modelo tecnicamente mais desenvolvido destes tipos de arado. Encontrava-se em duas grandes áreas, uma localizada no Noroeste do continente europeu e outra na Ásia.

Os arados açorianos são do tipo radial, com certos pormenores morfológicos variáveis de ilha para ilha, mostrando por vezes traços atípicos ou hibridismos que porventura traduzem influências de outros tipos, nomeadamente do de garganta.

Nas ilhas de Santa Maria, Terceira, S. Jorge, Pico e Graciosa, o corpo principal do arado compõe-se de dois elementos: um, denominado rabiça, é uma peça angulada cuja metade dianteira corresponde ao dente, que arrasta pelo solo e leva na ponta a relha ou ferro e cuja metade traseira constitui a base da rabiça propriamente dita; e outro, que leva o nome de rabo ou terço, cuja extremidade superior constitui a mãoseira. O temão é também feito de duas peças, não raro com curvatura acentuada na parte anterior.

Por seu turno, nas ilhas de S. Miguel e Faial, esse corpo principal é composto de três elementos: o dente ou coice, peça direita chanfrada na ponta para assentamento do ferro; a cunha da rabiça ou sapata, peça intermédia, também angulada; a rabiça, rabo ou rabiçote, levemente curva, por onde se empunha e maneja o arado. O temão é feito de uma só peça e direito.

As duas aivecas fixam-se à frente, junto à base do ferro, e são mantidas afastadas na parte de trás pelo mexil. A teiró, fixa ao dente, atravessa e mantém o ângulo do temão em relação ao dente, regulando a profundidade da lavra. Este tipo de arado, puxado em geral por uma junta de gado bovino, é próprio para laborar em solos secos e friáveis, onde o problema da sua mobiliza­ção não é virar uma leiva funda, mas sim revolver a terra, rasgando-a e evitan­do que a humidade do solo desapareça.

O cronista Gaspar Frutuoso, nas Saudades da Terra, fala, além deste tipo comum, de um outro, de maior tamanho, usado nas viradas fundas da terra, puxado por três juntas de bois e que atingia uma profundidade de três palmos e meio, o qual foi utilizado pela primeira vez no ano de 1565, em Vila Franca do Campo, com o fim de descobrir terra boa. arado americano Tipo de charrua uniforme móvel cujo modelo, como o nome indicia, é de origem americana, mas que foi integrado na cadeia de fabrico de alfaias agrícolas de certas fábricas nacionais, com pequenas alterações, combinando, em certos casos, componentes de madeira com outros em ferro. Seguindo a estrutura básica do velho arado quadrangular de madeira, é composto por uma aiveca móvel em ferro, temão curto de madeira e uma ou duas rabiças em madeira ou ferro, com sistema de regulação da profundidade da lavra baseado numa pequena roda montada em duas hastes curvas, fixas num dos lados das pontas, ficando as outras amovíveis, podendo fixar-se à ponta do temão a diferentes alturas por meio de porcas com orelhas.

É um dos primeiros instrumentos do complexo agrícola que prenuncia o advento da sua mecanização e se situa à margem desse quadro autárcico que na maioria dos casos produzia as alfaias de utilização corrente, feitas a partir de materiais locais talhados pelo mão do homem, segundo memórias e saberes que preservavam a originalidade e diversidade das suas tipologias.

A difusão deste arado é tardia e pouco generalizada. A fragilidade económica das classes rurais não facilitava a aquisição de numerário e, além disso, os produtos vindos de fora eram pouco acessíveis. Dependendo da energia animal para a sua tracção, este arado integra-se inteiramente na mesma sequência aratória do velho arado de pau e não introduz alterações de fundo nas práticas agrárias, dado que a sua actuação exigia o mesmo número de pessoas e de animais. Benjamim Enes Pereira (Fev.1998)

Bibl. Costa, C. (1947), Etnografia agrícola – Alfaias agrícolas micaelenses. Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores, Ponta Delgada, 6. Oliveira, E. V., Galhano, F. e Pereira, B. (1995), Alfaia Agrícola Portuguesa. 3.ª ed., Lisboa, Publicações Dom Quixote. Oliveira, E. V. e Pereira, B. (1987), Tecnologia Tradicional Agrícola dos Açores, Lisboa, Instituto Nacional de Investigação Científica.