apologética
O vocábulo (de apologeiqai, defender-se) significa originariamente próprio para defesa ou justificativo. A tradição latina e cristã conservou essa noção com o sentido religioso da justificação ou defesa da fé contra o pensamento dos autores pagãos e contra as diversas tendências interpretativas heréticas da mensagem do cristianismo. Este uso remonta à patrística, tendo-o a Igreja cultivado nos séculos posteriores. Historicamente considerada, a apologética nos Açores é susceptível de ser encarada segundo três grandes períodos, que englobam os séculos xv-xvii, xviii e xix-xx. Dado o vasto campo da sua incidência, não constitui um género perfeitamente definido: a literatura que cobre abrange sucessivamente a catequética, a parenética, a homilética, a pastoral e a teologia pastoral, estendendo-se ainda ao jornalismo cristão que o arquipélago viu surgir no século xix.
Séculos xv-xvii Nos Açores, cuja descoberta e povoamento implicaram a necessidade espiritual da catequização das gentes que para ali acorriam, foram os franciscanos os primeiros a consolidarem a expansão da fé, possivelmente a partir de 1446, data da sua instalação em Vila do Porto (Santa Maria). É difícil traçar o quadro da sua acção nestes primeiros tempos da vida insular, por ser praticamente nula a documentação que hoje possuímos. Tendo em conta os escassos elementos históricos, não é difícil observar que a apologética esteve, nos seus primórdios, profundamente soldada à catequética franciscana. Há, porém, a acrescentar como será reconhecido por alguns dos mais fervorosos apologetas açorianos dos séculos xvi a xx que os povoadores eram, na sua maioria, cristãos, pelo que a sua catequese se destinou não tanto à conversão, mas à instrução das consciências, levando-as à adesão pística. Aliás, os mais evidentes sinais de tendências heterodoxas nos Açores abundarão apenas a partir do século xviii, projectando-se nas centúrias seguintes, quando a sociedade açoriana se abre a outros credos e os intelectuais, perdida a fé tradicional, abraçam tendências materialistas e ateias, o que obriga a Igreja açoriana a assumir a maior cruzada pela fé, de que os séculos anteriores não registam memória. É, nesta primeira fase, digna de honrosa menção, pela eloquente página de sacrifício e apostolado, a acção doutrinária dos missionários açorianos no seu contacto com a gentilidade. Perante os cultos da Índia, do Japão, da China, do Brasil e de outras partes do Império de Portugal e Castela, sobrevalorizaram a apologia do credo católico em detrimento da própria vida António de *Araújo, Francisco Furtado, Bento de Góis, João Baptista Machado e Manuel Pinheiro. As suas cartas, o verbo da sua oratória sacra e as notícias da existência que abraçaram dão testemunho vivo da apologia das verdades cristãs como a omnisciência e a omnipotência da Pessoa Divina e, entre outros, os dogmas da consubstancialidade, da Encarnação e da Ressurreição contra os erros dos gentios. Com a criação, em 1534, da Diocese de Angra, 88 anos após a chegada da Ordem de S. Francisco ao arquipélago, os bispos, através de pastorais, editais, provisões e outros documentos, tentaram levar a ordem e a disciplina à classe sacerdotal - muitas vezes embrenhada na lassidão do espírito e no relaxamento dos hábitos , posto que a pureza e a força da mensagem evangélica exigem do sacerdote imagem de virtude e acções virtuosas. O primeiro momento significativo surgiu com as Constituições Sinodais de Angra, saídas do primeiro Sínodo diocesano reunido na Sé Catedral entre 4 e 15.5.1559, sob os auspícios de D. Jorge Santiago (3.º bispo de Angra, 1552-61), que passaram a regular durante os séculos seguintes a vida da diocese. O documento preceitua a forma ortodoxa dos ritos religiosos e as relações entre o clero e os fiéis, expondo com simplicidade directa a doutrina do credo católico e os seus mais essenciais dogmas. Entre os finais do século xvi e princípios do xviii, os prelados endureceram a disciplina, tentando corrigir desvios e reprimindo costumes da população e da classe eclesiástica. Foi importante a acção dos 9.º, 16.º e 17.º bispos, D. Jerónimo Teixeira Cabral (1598-1612), D. Fr. Clemente Vieira (1687-92) e D. António Vieira Leitão (1693-1714). A obra do P.e Bartolomeu do Quental resume a eloquência da oratória do nosso seiscentismo, no que respeita ao valor literário, à justificação do cristianismo e dos dogmas católicos. Nas suas meditações cristológicas e marianas colhemos autênticas prelecções sobre a vida e a divindade de Cristo, a transubstanciação e a pureza e santidade de Maria.
Século xviii São de exemplar referência as obras de Fr. Manuel de S. Luís, P.e João Pereira, P.e Paulo Pereira e Fr. Miguel do Canto. O primeiro é, sem dúvida, o maior orador açoriano dos finais de Seiscentos e da primeira metade de Setecentos da ordem franciscana. Nos seus sermões perpassa o espírito da missão evangélica, com temas diversos, desde a admoestação moral que convida os fiéis à penitência e à virtude até às viagens predicatórias e especulativas em torno da natureza humana e divina de Cristo e da virgindade da Imaculada. Tanto João Pereira como Paulo Pereira, ambos jesuítas, possuem obra de vigor apologético. O primeiro, com as suas Exortações Domésticas (1715), e o segundo, com os seus Sermões Vários (1715), visaram a unidade da fé católica, aprofundando conceptualmente a sua dogmática dentro da tradição do tomismo. A Fr. Miguel do Canto se deve o primeiro grande texto apologético da cultura açoriana, pela veemência teórica com que combate uma das mais injuriosas heterodoxias da história eclesiástica peninsular que se relaciona com o movimento reformista conhecido em Portugal pelo nome de Jacobeia. Em 1746, sob o pseudónimo de Diego Calmet Onufri, publicava, em Madrid, o seu Vexame Teológico-Moral contra o sigilismo dos jacobeus, doutrina errónea da prática do Sacramento da Penitência em que os confessores obrigavam os penitentes a denunciar nomes e moradas dos seus cúmplices de pecado, prática que o cardeal Nuno da Cunha, inquisidor-mor, proibira em 6.5.1745, em edital, sob pena de excomunhão. Tal prática subordinava o sacramento a fins humanos, violando a integridade ética que deveria envolver a relação sacerdote-fiel pelo sigilo. O texto acabaria por erguer uma defesa doutrinária do Sacramento da Penitência, apoiando-se na condenação do cardeal e no breve Suprema do papa, promulgado a 7.7.1745, que reprovava e integralmente proibia a violação do segredo sacramental. Refira-se ainda a célebre e ilustrada acção de D. Fr. José da Avé-Maria Leite da Costa e Silva (23.º bispo de Angra, 1782-99), que instituiu, através de uma pastoral de 25 de Maio de 1788, as Palestras Morais, espécie de tertúlias didácticas onde o clero preleccionava sobre a religião e a moral católicas, que duraram até se terem extinguido os conventos, e às quais, nalgumas ocasiões, assistiram leigos (Deusdado, 1909: 44).
Séculos xix-xx D. José Pegado de *Azevedo (24.º bispo de Angra, 1800-12), que também procurou lutar contra as alterações do sistema disciplinar que certos abusos dos párocos provocaram e regulou a vida institucional e espiritual da diocese, deixou-nos uma carta pastoral, de 5 de Agosto de 1809 (Drumond, 1859: 78-93), cujos conteúdos primam por uma exaltada visão da fé católica e da unidade da Igreja ameaçadas pela guerra napoleónica que a Europa conhecia. Documento contra a impiedade dos tempos modernos, constitui uma longa lamentação sobre o estado de tribulação europeia que culminou na prisão sacrílega do papa Pio VII, a mando de Napoleão, com muitas analogias com os primeiros tempos da cristandade mártir, a perseguida pelas tropas imperiais de Roma. As últimas décadas do século xix e a primeira metade do xx foram ricas em motivos heterodoxos que acarretaram rixas entre padres e leigos. A título de exemplo, cite-se o escritor angrense António de Campos Júnior, que no século granjeou fama, cujos romances históricos, sobretudo o intitulado O Marquês de Pombal, de 1899, se distinguiram, para o prisma católico, pela descrença e sacrilégio, ao ponto de os jornais A Liberdade (Porto) e A República (Ponta Delgada) tecerem desfavorável crítica, apontando o seu antijesuitismo e apodando-o de detractor da fé (Dias, 1931: 741). Também o jorgense António de Sousa Hilário feriu a susceptibilidade eclesiástica, pois que, não sendo sacerdote, publicou, em 1875, um Sermão Dedicado à Santíssima Virgem das Angústias, distribuindo-o no átrio da Igreja de Nossa Senhora das Angústias (Faial), o que gerou franca controvérsia (Dias, 1931: 783). Da muita diatribe que se pode colher na imprensa da época, avultam, em inteligência e doutrina, as pastorais de D. João Maria Pereira do Amaral e Pimentel (28.º bispo de Angra, 1871-99), que teve de combater em várias frentes: contra o protestantismo e as formas do materialismo e do anticlericalismo. O Boletim do Governo Eclesiástico da Diocese dos Açores, cujo aparecimento se deveu ao prelado, procurou confutar sem tréguas a heresia materialista e o jornalismo laico de inspiração ateia e protestante, proibindo e recomendando leituras, o que valeu ao prelado ter sido atacado na sua pessoa e dignidade por aqueles que, através dele, procuravam atingir a Igreja. Polemizaram com o bispo os jornais angrenses *Alerta!, de 1881, caracterizado pela sua ideologia contra o ultramontanismo (que classifica de reaccionarismo por oposição ao liberalismo, tónica comum entre os progressistas) e pela apologia do cientismo evolucionista, e O *Atleta, em 1885, que se definiu próximo das ideias protestantes, contra o qual o bispo lançou a sua Carta Pastoral de 6 de Abril do mesmo ano. Já em 1876, através de uma pastoral, condenara Augusto Ribeiro, autor de Os Lazaristas dos Açores, obra naquela data publicada e inspirada no drama jacobino Lazaristas, de António Enes, que fizera o seu aparecimento no ano anterior e fora criticado pelo P.e José Joaquim de Sena Freitas.
Este último deve, com justiça, ser considerado o maior apologeta açoriano do século xix. O ânimo vigoroso que o caracterizou fê-lo terçar armas pela fé católica. Nos Açores, no Continente e no Brasil, tornou-se célebre pelas polémicas que enfrentou, denunciando as heresias em que incorriam vultos como Guerra Junqueiro, Emídio Navarro e Teófilo *Braga. O seu *antipositivismo de raiz é uma das múltiplas facetas de uma luta que abrangeu o protestantismo, a maçonaria, o antijesuitismo, o liberalismo e até a literatura de ideologia anticlerical, epicurista ou libertina, da poesia ao romance, de que são exemplos a polémica com Junqueiro e a crítica do ficcionalismo naturalista de Émile Zola patente na refutação, em 1888, da obra do brasileiro Júlio Ribeiro, A Carne, romance erótico de nítida influência zolaísta. Além de Sena Freitas, o cónego António Maria Ferreira, em obra e em textos dispersos por jornais, dedicar-se-ia à contestação do positivismo e do transformismo lamarckista e darwinista, aos quais opôs o espiritualismo cristão de linha tomista. Acrescente-se que, nesta data, coincidente com os finais do século xix, o tomismo, na Europa, em Portugal e nos Açores, assume a proporção de um movimento contra as diversas doutrinas materialistas, prolongando-se em força e argumento até aos finais da primeira metade do século xx.
A reacção católica açoriana contra o credo maçónico foi outra cruzada da diocese angrense. Os escritores beberam ideias nos documentos pontifícios, nomeadamente na Humanum Genus (20.4.1844), de Leão XIII, onde o papa expunha as heresias maçónicas, já denunciadas pelo Syllabus de Pio IX, como o naturalismo, o racionalismo, o latitudinarismo, entre outras, condenação que se reporta à bula In eminenti, de Clemente XII (28.4.1738), confirmada pela bula Providas, de Bento XIV (7.5.1751). Alguns intelectuais nados nos Açores abraçaram os ideais maçónicos, como João José da Graça, autor de umas provas naturais (cosmológicas) da existência de Deus (o Supremo Arquitecto), publicadas em 1877, e de alguns textos sobre a maçonaria. O Grande Oriente Lusitano, politicamente anti-radical e anti-setembrista, desenvolveu actividade nas três principais cidades (Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Horta), em 1839-93. A maçonaria seria proibida em Portugal pela lei n.º 1901 de 1935, sobre sociedades secretas (publicada no Diário do Governo, 1.ª série, n.º 115 de 21 de Maio), resultado da acção de José Cabral, então deputado, que apresentou, naquele ano, o projecto de lei à Mesa da Assembleia Nacional, o que veio a traduzir-se em regozijo, desfrutado pela sociedade eclesiástica, incluindo a açoriana.
O estudo da apologética nos Açores não se faz ainda sem ter em conta os vários periódicos católicos que, no século xix, foram surgindo nas ilhas com a introdução da imprensa no tempo do liberalismo. Com maior ou menor incidência, todos eles contribuíram para a inteligência do credo religioso e defesa dos valores cristãos ameaçados. Ainda que rapidamente, apontemos alguns: A União (Angra, 1893-), O Templo (Ponta Delgada, 1856-58), O Católico Terceirense (Angra, 1857-58), A Missão (Ribeira Grande, 1867), A Civilização (Ponta Delgada, 1875-82), O Católico (Angra, 1876-85) e O Peregrino de Lourdes (Angra, 1887-1908). Exemplifiquemos, em jeito de súmula de conteúdos. Aí encontramos referenciados e criticados autores, inclinações e heresias, entre outros: a interpretação protestante de David Friedrich Strauss e toda a explicação histórico-cientificista da vida de Cristo (com a consequente defesa do dogma da sua natureza humana e divina); o racionalismo iluminista e libertário; o protestantismo que o Católico Terceirense, numa local de 1858, refere ter-se introduzido nos Açores por acção da Sociedade Bíblica de Londres; a negação da virgindade de Maria dogma que encontraria um defensor no P.e João Inácio Cândido da Silveira, que sobre ele proferiu um sermão no Mosteiro de S. Gonçalo de Angra (1856) e que o Católico Terceirense publicou na íntegra; o antijesuitismo (sempre considerado como reacção global do anticlericalismo contra a Igreja no seu todo); a negação da infalibilidade da Igreja, da graça e do valor espiritual da confissão auricular.
Facto significativo deu-se com a criação do seminário angrense por D. Fr. Estêvão de Jesus Maria da Costa (27.º bispo de Angra, 1827-70). A instituição, inaugurada em 1862, haveria de revelar-se pela acção eclesiástica e pelo saliente combate que contra as heresias envolveu tanto professores como alunos, já entrado o século xx, e cujo registo mais notável data do bispado de D. António Augusto de Castro Meireles (34.º bispo de Angra, 1923-28), precisamente com a criação da revista Prelúdios (1924-28), órgão do Ateneu Dramático-Literário do Seminário, de substancial orientação tomista. São muitos os textos de teor apologético subscritos por mestres e estudantes, de que salientamos, como mais notáveis, os de Manuel Rocha, do cónego José Augusto Pereira e do P.e Manuel Cardoso do Couto. Aí se isenta a pureza da fé dos sucessivos erros cometidos pelas diferentes seitas (do protestantismo ao espiritismo), visando-se sucessivamente o materialismo, o positivismo, o ateísmo, o marxismo e, de uma forma geral, outras diversas tendências sensismo, racionalismo, hedonismo, deísmo e agnosticismo com raízes no iluminismo ou no iconoclastismo enciclopedista do século xviii e que constituem o cadinho onde se formou o livre-pensamento dos séculos xix e xx. Este combate seria prolongado pelo jornal católico A União que, desde o seu aparecimento, em 1893, nunca deixou de ser exemplar tribuna pública do catolicismo. A partir dos finais de 1940, sob a direcção de Cardoso do Couto, o periódico regista algumas das mais brilhantes invectivas contra as heterodoxias que ameaçavam corromper o tecido cristão da sociedade açoriana, designando os adversários da religião católica e das ordens religiosas e pleiteando com a maçonaria, o comunismo marxista-leninista, o protestantismo nomeadamente o *adventista, seita escatológica milenarista que fez a sua entrada na Terceira por volta de 1941, e que punha em causa, entre outros, os dogmas da Imaculada Conceição e da Graça e o antijesuitismo que, desde Pombal, ficou na memória dos anticlericais. Aliás, a circunstância de, naquele ano de 1940, se comemorar o quarto centenário da aprovação da Companhia de Jesus pelo papa Paulo III (carta apostólica Regimini militantis Ecclesiae, de 27.9.1540), deu ensejo a M. C. do Couto (1940d) e a outros de voltar à apologia histórica da Companhia. Nesse mesmo ano, a diocese de Angra comemorou as encíclicas Rerum Novarum e Quadragesimo Anno, e os principais oradores, M. C. do Couto (1940a) e L. Neto (1940), pondo em relevo as ideias mestras do movimento social católico, preleccionaram contra o socialismo marxista-bolchevista, opondo-lhe uma teoria católica do trabalho humano e defendendo a imortalidade da alma e a fraternidade e igualdade entre os homens. Os centenários encontraram larga repercussão nos círculos católicos e registos nos jornais açorianos. Junte-se também ao ano de 1940 a publicação do Livro do 1.º Congresso Açoriano, em cujas páginas se conservam dois textos da autoria do cónego José Bernardo de *Almada, vigário-geral da diocese de Angra, um sobre o espírito católico das associações profissionais e o outro sobre o catolicismo dos Açorianos (Almada: 1940a e 1940b). À perspectiva deste último texto corresponde também o artigo de M. C. do Couto (1932), escrito por ocasião do V Centenário da Descoberta dos Açores, mas que ainda vai mais longe na tese, pois vê nas povoações rurais açorianas autênticas comunidades socialistas e comunistas: não segundo o modelo leninista, mas fundadas na lei da caridade cristã, outra prova para o combate contra o cepticismo e a inclinação heterodoxa do tempo. Seria, aliás, inumerável a literatura que faz a apologia da religiosidade do povo açoriano e que, de modo mais ou menos perceptível, se situa no contexto da defesa doutrinária do catolicismo. Cite-se, a exemplo, a obra do P.e Ernesto Ferreira, A Alma do Povo Micaelense, de 1927. Outro nome que, das décadas de 30 e 40, cumpre conservar a memória é o de José Vieira *Alvernaz, que foi reitor do Seminário Diocesano e, posteriormente, bispo de Cochim. Homem de profunda erudição e conhecimento, deixou na imprensa local, entre outros, textos de fervor apologético sobre a justiça e a caridade cristãs e sobre a influência da Igreja na formação lusitana ou nacionalista da mentalidade açoriana.
Na segunda metade do século xx, entre 1950 e 1974, a classe eclesiástica prosseguiria esta peleja pela fé. Multiplicaram-se as acções dos grupos católicos no interior das paróquias, surgindo aqui e além círculos de reflexão sobre a vida comunitária dos fiéis, colóquios religiosos e boletins paroquiais, aprofundou-se e exaltou-se o valor nuclear da família e a visão católica do trabalho, e não apenas de acordo com a doutrina da Igreja, mas em concordância com a linha política do Estado Novo. O proselitismo religioso, apesar da viva reacção dos sacerdotes, foi, de uma maneira ou de outra, penetrando no interior da sociedade açoriana, mas sem as repercussões notáveis que teve no continente português, sobretudo a partir da Revolução de Abril de 1974. De entre a literatura que surgiu, na década de 50, expondo os erros doutrinários das seitas, é justo apontar-se a obra do P.e António Luís de Fraga contra os sabatistas, onde o autor enumera as contradições sectárias no que respeita à imortalidade da alma e atinge os abusos da interpretação veterotestamentária e dos dogmas da Revelação (Fraga, 1952). Outras seitas fariam o seu aparecimento, e, entre elas, com maior intervenção proselitista, as Testemunhas de Jeová e a Igreja de Jesus Cristo dos Santos do Último Dia (vulgo: Mórmones). Depois de 1974, as tendências protestantes foram, na imprensa das ilhas, recebendo a crítica de um ou outro articulista, mas sem o brilho e a força doutrinários que encontramos nos textos das décadas anteriores.
As ideias comunistas reprimidas pelo Estado Novo, e que eram, por isso, objecto abstracto, mais ou menos longínquo, do discurso dos doutrinários católicos, irromperam após o 25 de Abril, tornando-se uma realidade. Todavia, se nos primeiros tempos convulsivos da revolução o comunismo foi encarado pela diocese como ameaça política e religiosa sobre que havia de ilustrar-se o povo por um retorno aos velhos argumentos contra o materialismo e o ateísmo, a eleição dos sociais-democratas, sucessivamente reiterada pelo voto popular, desvaneceria um tal perigo, dando razão, sob este aspecto, à tese da espiritualidade cristã do povo açoriano. Por outro lado, a política do Governo Regional, até 1996, conheceu sempre a melhor das relações com a Igreja. Não obstante, e à margem deste convívio mais ou menos consciente de poderes, o crescimento natural das diversas tensões internas da sociedade tradicional vão levando os valores ancestrais a desagregações, pelo motivo das novas influências exteriores, penetrando nos domínios da moral, dos usos e costumes de tradição. A perda do controlo e uniformidade da política, da cultura e da religião pela queda do Estado Novo, o novo mundo que o advento das tecnologias de informação abriu, fazendo que a comunicação social deixasse de restringir-se apenas à rádio ou à imprensa escrita, como outros factores, nomeadamente a taxa crescente da alfabetização, a flexibilidade do sistema institucional escolar, o surgimento do ensino universitário e o aumento do poder económico dos núcleos familiares, que permite uma maior liberdade de acesso à instrução, tornaram o tecido social mais sensível a novas contingências libertárias, cujos contornos não podem deixar de preocupar o clero, pois que, nesse contexto, se encontram as razões da crise vocacional dos jovens para a vida eclesiástica, bem como os riscos de desagregação da família pela incidência do divórcio, perda da fé e afastamento do abrigo espiritual do catolicismo. Manuel Cândido Pimentel (Jan.1997)
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