Antilia

Antilia é o nome de uma ilha mítica que surge na cartografia dos finais da Idade Média situada no Atlântico Ocidental. Segundo Armando Cortesão, a primeira referência conhecida a esta ilha encontra-se numa carta náutica feita por Zuane Pizigano em 1424. O nome Antilia é aí atribuído a uma grande ilha, de dimensões idênticas às de Portugal, que é representada com sete reentrâncias, o que, não devendo ser puro acaso, se poderá explicar por essa ilha ser identificada com a ilha das Sete Cidades, que aparece assinalada em lendas portuguesas e, embora registadas no século xv, deverão ser muito antigas. Segundo essas lendas, sete bispos portugueses teriam fugido no século viii perante a invasão islâmica da Península Ibérica, refugiando-se numa ilha atlântica, que devido a este acontecimento seria conhecida em Portugal pelo nome de ilha das Sete Cidades. Com efeito, é sob este nome e não de Antilia que essa ilha é designada na documentação portuguesa do século xv, quando se alude a essa misteriosa ilha ou ilhas, cuja denominação, aliás, não é expressa na maior parte dos documentos portugueses onde se registam promessas de doação de ilhas que se procuravam encontrar no oceano.

A primeira referência explícita à ilha das Sete Cidades na documentação portuguesa aparece em 1475 numa doação a Fernão Teles de ilhas que ele pretendia mandar descobrir. Também Cristóvão Colombo, durante os anos em que viveu em Portugal, teve conhecimento dessas lendas, bem como o interesse que certas pessoas das ilhas da Madeira e dos Açores tinham em encontrar tais ilhas. A aquisição destas informações, que se encontram na génese dos projectos colombianos, está expressa em vários testemunhos relacionados com Cristóvão Colombo, sobretudo os que se encontram registados por Fernando Colombo e Bartolomeu de Las Casas, que citam documentos perdidos de Colombo. No texto da Historie della vita e dei fatti dell Ammiraglio Don Cristoforo Colombo alude-se a uma ilha atlântica que «alcuni Portughesi mettevano nelle lor caarte col nome di Antila», acrescentando que «la qual han per cosa certa che sia l’Isola delle Sette città popolata da Portghesi nel tempo che al Re don Roderico». Em vários mapas de origem italiana e catalã existe tal representação da Antilia, que desde meados do século xv está representada a ocidente dos Açores, a uma distância para ocidente que é idêntica à que separa este arquipélago de Portugal continental. Em algumas dessas cartas pode-se admitir que tenha havido cópia de cartas portuguesas perdidas, como se indicia pelo facto de nelas se reproduzirem traçados de terras descobertas pelos portugueses. Segundo uma tradição portuguesa registada por duas vias diferentes essa ilha Antilia ou das Sete Cidades teria sido reencontrada, por acaso, no tempo do infante D. Henrique, cerca de 1447. Os seus descobridores, contudo, não quiseram lá voltar.

Fernando Colombo identifica ainda a Antilia com a ilha das Sete Cidades quando aborda a carta que em 1474 Paolo Toscanelli enviou ao cónego Fernando Martins, certamente a pedido de D. Afonso V ou do seu filho D. João, que nesse ano fora encarregado de dirigir os descobrimentos portugueses pelo seu pai e estaria então preocupado em saber qual seria a melhor via para chegar à Índia. Note-se, contudo, que tal identificação entre as duas denominações que aparecem nos textos de Fernando Colombo e Las Casas não existe na cópia conhecida da carta de Toscanelli, onde se alude apenas à Antilia, que Toscanelli diz ser conhecida dos portugueses. Há autores que têm defendido a possibilidade de esta Antilia traduzir um vago conhecimento de terras americanas, mas tal teoria nunca pôde ser provada. José Manuel Garcia (Out.1996)

Bibl. Cortesão, A. (1975), Esparsos. Coimbra, Imprensa da Universidade, III. Cortesão, J. (1966), Os Descobrimentos Pré-Colombinos dos Portugueses, Lisboa, Portugália Ed.