Antão, Santo

Santo ermita dos séculos iii e iv, natural do Egipto. Na sua biografia, traçada em primeira mão por Santo Atanásio, teve lugar de relevo a luta que travou com as tentações da alma. Essa luta tornou-se lendária e inspirou grandes artistas plásticos e literários, como Hieronimus Bosch e Gustave Flaubert, entre outros. Todavia, não é como ermita nem pela forma como venceu as tentações da alma que Santo Antão figura no hagiológio popular açoriano, mas como guardador de ovelhas e advogado dos animais. Assim, quando alguém nos Açores pergunta: «Então?» (pronunciado «antão), o outro, se não quer responder, desconversa, dizendo: «Era pastor / e agora não», ou: «Vigiava ovelhas / e agora não.» (No Continente também existe, entre muitos apodos nominais fixados pela tradição, o seguinte: «Antão guardava ovelhas: / umas suas, outras alheias.» (cf. Braga, 1985: 101.) Além disso, o povo dos Açores atribui a este santo o poder de curar o quebranto em animais. Para isso, usa a seguinte fórmula: «Animal, tu és meu, / quero-te criar. / Se tens quebranto ou ramo de inveja, / eu to quero tirar / em nome de Deus. Santo Antão / que o tire com sua mão.» José Leite de Vasconcelos recorda que, em S. Miguel, na freguesia da Bretanha, ninguém mata animais ou, sequer, os faz trabalhar no dia deste santo (17 de Janeiro); pelo contrário, todos evitam molestá-los nesse dia, coibindo-se mesmo de andar a cavalo (Vasconcelos, 1926: 70). Em sua honra se denominam um lugar de Vila do Porto, em Santa Maria, e uma freguesia do concelho da Calheta, em S. Jorge. Eduíno de Jesus (Out.1997)

Bibl. Braga, T. (1985), O Povo Português. Lisboa, Liv. Dom Quixote. Vasconcelos, J. L. (1926), Mês de Sonho. Lisboa.