Angústias

Freguesia do concelho da Horta, ilha do Faial, também designada de Horta (Angústias). GEOGRAFIA Situa-se no extremo sudeste da ilha, ocupando o sector meridional da cidade da Horta, sede do concelho. É uma freguesia pequena, mas com topografia variada; as mais importantes formas de relevo são o monte das Moças (59 m), um pequeno cone de escórias e tufos vulcânicos, situado no sopé do monte Carneiro e sobranceiro à baía da Horta, o monte Queimado (86 m), no istmo de Porto-Pim, e o monte da Guia (146 m), um cone de tufos vulcânicos finos, com a cratera aberta para sul, que constitui a extremidade sudeste da ilha. A orla costeira - formada por arribas na costa meridional e no monte da Guia - é recortada com pontas (ponta Furada, ponta do Peixe Rei) e pequenas baías, de que se destacam a de Porto Pim e a das Caldeirinhas (ou do Caldeirão do Inferno), no interior da abertura da cratera do monte da Guia. Na costa ocidental, a baía da Horta é limitada por uma muralha que encosta à arriba andesítica. Ainda resta um pequeno areal na baía de Entre-Montes e o da Praia de Porto Pim. O único curso de água que corre nesta freguesia é a ribeira da Ponta Furada, no limite ocidental. Formada por cinco lugares (Horta, Santa Bárbara, Lajinha, Pasteleiro e Angústias) e casas isoladas, é a freguesia mais populosa do Faial, com 2676 residentes em 1991, sendo destes 1297 homens e 1329 mulheres; comportava 844 edifícios. A evolução da população mostra a diminuição da população no início do século (Primeira Guerra Mundial), seguida de um aumento nítido até ao fim da década de 50, e o declínio progressivo após a erupção dos Capelinhos. M. Eugénia S. Albergaria Moreira  (Jul.1996)

HISTÓRIA Uma das três freguesias da cidade da Horta, onde desembarcou, no areal, a segunda expedição de povoadores flamengos e portugueses sob o comando de Josse Van Huertere, já no cargo de capitão do donatário da ilha do Faial, em 1468. Confronta a leste com o mar, nas duas baías da Horta e Porto-Pim, o istmo do monte da Guia, com a ermida da Senhora da Guia, primitivamente monte das Cruzes, onde estava arvorado, no século xvi, um Calvário com três cruzes de madeira. Prolonga-se para sul, ao correr da costa até à ponta Furada, com a zona do Pasteleiro, onde se cultivou o pastel em larga escala nos séculos xv, xvi e xvii. A oeste, fica-lhe o lugar de Santa Bárbara com sua ermida dos fins do século xv, que Pêro Pasteleiro, perito na arte da cultura e de gramar o pastel, ali construiu e onde jaz sepultado com sua esposa. É o edifício mais antigo da ilha. Para norte, ficam-lhe os montes da Senhora, propriedade da primeira capitoa (hoje cabeços da rádio e do posto meteorológico) que, com as terras de Santa Bárbara, constituíram as arras de casamento, que o capitão Josse Van Huertere legou à esposa, e o prolongamento da baía com o casario da cidade até à igreja do convento de S. Francisco, termo jurídico da freguesia. No centro, marcaram carácter topográfico a região de Porto-Pim, com todo o circuito da baía, arredores e a canada de Porto-Pim, que levava à ermida de Santa Bárbara, para o interior, e a zona de Santa Cruz, com o Cabeço Queimado, onde estava arvorada uma cruz, a ermida da advocação de Santa Cruz, o largo areal, o cais e o castelo do mesmo nome. Além deste Castelo de Santa Cruz, hoje estabelecimento hoteleiro, há nesta freguesia o Castelo de S. Sebastião, à entrada da baía de Porto-Pim, e o Reduto da Guarda, que dá acesso ao porto desta baía.

O desembarque de Josse Van Huertere no areal fez que o capitão levantasse a ermida da Santa Cruz no sítio, em memória da chegada à ilha, e ali construísse as suas casas, mesmo em frente do templo, voltadas ao Pico. Aqui iniciou a vila, com arruamentos, que ainda hoje trazem os nomes primitivos - Rua Nova, Rua do Meio, Canada de Porto-Pim, Rua da Igreja, Rua da Rosa, Ruas de Dentro, Trás e Cimo da Ladeira. O burgo medieval ficou centrado na Ermidinha, que foi a primeira paróquia em toda a ilha, até aos fins do século xv.

A capitoa, D. Brites de Macedo, segundo reza a tradição, trouxe consigo uma pequena imagem da Senhora das Angústias (devoção algarvia, donde parece ser oriunda a capitoa), a quem consagrou a ilha e o povo na viagem, fazendo voto de lhe mandar construir uma ermida «se chegasse salva à sua capitania e n’ela não existissem animais ferozes, o que com efeito cumprio». Em 1527 estava a levantar uma pequena igreja para substituir a Ermida da Santa Cruz, com casa para capelão, obra que o filho, 2.º capitão do donatário, Josse Dutra, concluiu. A devoção a esta imagem cresceu de tal sorte, nos fins do século xvi e princípios do século xvii, com o povoado em Porto-Pim, que o povo promoveu de novo a criação da paróquia em 1664 e concluiu novo templo em 1684, escolhendo para padroeira a Senhora das Angústias. Daqui o nome para a freguesia das Angústias. O orago permaneceu em Santa Cruz. Júlio da Rosa (Set.1996)

ECONOMIA, CULTURA E SOCIEDADE Engastada inicialmente num litoral plano e arenoso, possibilitando fáceis acessos por mar e por terra, contornando duas baías, abrigadas e seguras, a de Porto-Pim e a da Horta, ligadas por um istmo, que ter-se-á pensado substitui-lo por um canal, aquando do projecto de construção do porto artificial (1863), protegida pelo monte Queimado e pelo monte da Guia (elevações de tufo e origem vulcânica), deve ter oferecido aos primeiros povoadores (meados do século xv) as condições ideais para um prestimoso ancoradouro, levando a crer que do pequeno povoado, em redor da pequena ermida de Santa Cruz, orago e padroeira da freguesia, erigida pelo flamengo Josse Van Hurtere, ter-se-á desenvolvido e tornado burgo, vertendo e alongando-se para o lado setentrional, acompanhando o imenso areal que se estendia ao longo da baía, vulnerável apenas aos ventos de sueste.

A pesca e o pastel constituíram-se, nos primórdios, como as únicas fontes económicas mais relevantes de subsistência, mantidas entre o último quartel do século xv e finais do século xviii (1790), daí o existir ainda uma enorme franja de terra plana, que se estende das arribas, entroncando a norte, por Santa Barbara, até confinar-se na freguesia que lhe fica adjacente, a da Feteira, denominada Pasteleiro.

Alguns viajantes estrangeiros, os que melhor referenciaram a vida, alguns dos costumes e dados etnográficos e científicos da ilha, referem-na como um «povoado muito pobre, de pescadores, com casas cobertas de colmo, em que os seus autóctones se alimentavam quase exclusivamente do peixe que secavam».

Mas foi a baía e o mar, com o qual viveram, e vivem paredes meias, o grande suporte de vida da comunidade.

E essa situação de pobreza, descrita até meados do século xix, foi-se paulatinamente diluindo, ao surgirem os grandes ciclos económicos que acompanharam a vida da ilha: o vinho (vindo do Pico, era exportado pela baía da Horta), a laranja, o apoio à navegação (primeiro à vela, depois a vapor), a aeronavegação, as ligações cabográficas e, mais recentemente, o iatismo internacional, apoiado pela marina mais movimentada do arquipélago (excedendo anualmente o milhar de embarcações, entradas e saídas).

E com a construção do porto artificial (1876) dá-se uma mudança qualitativa no viver das gentes da freguesia. A navegação passa a afluir mais, procurando segurança, mantimentos, carvão, aguada e reparações. Oficinas dispondo de boa aparelhagem e de bons profissionais garantem uma eficácia que chega a impressionar as tripulações.

Com a colocação de tanques abastecedores de combustível na cidade de Ponta Delgada, e não acompanhando a evolução técnica desejada, o porto, embora continuando a ser o mais abrigado do arquipélago, foi perdendo movimento, confinando-se hoje quase exclusivamente à pesca que aumentou nos últimos vinte anos.

Os últimos recenseamentos mostram-na como a mais populosa da ilha, com variações apreciáveis no início do século (Primeira Guerra Mundial), seguido de um aumento até finais dos anos 50 e de um declínio progressivo após a erupção vulcânica dos Capelinhos (1958), o que estará a ser compensado nos últimos vinte anos, por se mostrar ser esta freguesia a zona de expansão habitacional da cidade, por excelência.

Até finais da década de 50, uma importante faixa da população inseria-se em actividades ligadas ao sector primário, nomeadamente agricultura e pesca (zona ribeirinha das Angústias e Santa Bárbara). Com a emigração maciça para os Estados Unidos da América, após a erupção vulcânica já citada, esta situação ter-se-á invertido, por ser a freguesia que apresenta mais áreas disponíveis para a construção, consequentemente permitindo a fixação dos habitantes das outras freguesias da cidade, (Matriz e Conceição), de outras ilhas, do Continente e até do estrangeiro (emigrantes regressados), o que lhe trouxe, para além de uma mais-valia na dinâmica de vida, um maior equilíbrio nos sectores secundário e terciário.

É na zona de Santa Bárbara que está implantada a «zona industrial», destacando-se como indústrias principais: uma fábrica de confecção e lacagem de alumínios; uma de componentes em cimento para construção civil; serração de madeiras e pintura e bate-chapa de automóveis. Na zona do Pasteleiro, há também uma importante fábrica de conservas e transformação de pescado, cuja matéria-prima é essencialmente a albacora (atum).

Com o advento das comunicações por cabo submarino (1893), a freguesia albergou as instalações de um dos maiores feixes de ligação intercontinental do mundo (Western Union Telegraph, Commercial Cable Coy, Deutsch-Atlantische Telegraph, Italcable), espaço onde funcionou, desde 1936, o antigo Liceu, hoje Escola Dr. Manuel de Arriaga (com uma frequência superior a dois mil alunos), e onde estão implantados: o Hotel Faial; um lar para crianças (na antiga casa pertença da família Dabney); a sede da Secretaria Regional da Agricultura, Pescas e Ambiente, com as Direcções Regionais das Pescas e do Ambiente; a Direcção Regional das Comunidades; o Conservatório Regional de Música (desde 1990) e dois bairros residenciais.

Na arquitectura religiosa destacam-se: a igreja das Angústias (1684), a ermida de N. Sr.ª da Guia (1714, reconstruída), a de Santa Bárbara (1480), a mais antiga da ilha, e o Convento de S. Francisco (1695).

Estando grande parte da antiga defesa da cidade nela concentrada, destacam-se como edifícios militares: o Castelo de Santa Cruz (1567), hoje transformado em unidade hoteleira; o Castelo da S. Sebastião (reconstruído em 1817), o Reduto da Guarda ou Forte de Porto-Pim (ambos na baía de Porto-Pim) e o Forte da Greta (hoje em ruínas).

Como infra-estruturas educacionais, para além das já anteriormente citadas, possui ainda um dos três Pólos da Universidade dos Açores (desde 1976), vocacionado para a investigação marinha, nas áreas da oceanografia e pescas; uma escola preparatória, duas básicas e uma infantil.

Parte significativa dos serviços públicos estão nela sediados, sendo de realçar o Hospital, a Capitania do Porto, a Junta Autónoma, a Rádio Naval, a Delegação de Obras Públicas, a Casa da Cultura e o Observatório Príncipe Alberto de Mónaco.

A freguesia é detentora de um comércio activo, com algumas das organizações empresariais de maior relevo e dimensão na ilha.

Com uma actividade cultural e recreativa intensa, sobressaem: o Clube Naval, fundado em 1943, com um vasto currículo no domínio da navegação à vela e na organização e apoio a competições e regatas internacionais; o Angústias Atlético Clube, fundado em 1923, com sede própria e um digno palmarés na vida desportiva regional, em inúmeras modalidades, e que ao longo dos tempos tem desenvolvido uma apreciável acção, não só desportiva, como cultural, social e recreativa; a Filarmónica União Faialense, estabelecida também em sede própria, e que no ano transacto comemorou um século de existência (1897); a Sociedade Recreativa Pasteleirense, uma agremiação que se iniciou como simples lutuosa e que também tem desenvolvido uma acção recreativa de registo.

A freguesia possui várias organizações cívicas, como grupos de escutismo, grupos corais, de teatro (Sortes à Ventura e Carrocel), e ainda ambientalistas, de formação e convívio para idosos. Dispõe igualmente de parques infantis e de recreio; várias infra-estruturas desportivas, como dois campos de futebol e um pavilhão gimnodesportivo. Tem várias atracções turísticas de relevância, desde miradouros sobre a baía e a cidade, a uma bela praia de areias escuras, em Porto-Pim, local onde neste momento se procede ao lançamento de um cabo de fibra óptica, para ligação conjunta das restantes ilhas. Nesta praia situa-se um velha fábrica de transformação de cachalote, desactivada, reminiscências de uma indústria ainda florescente há escassos anos, que ocupou e foi o ganha-pão de muitos dos habitantes da freguesia, indústria que se converteu em outra actividade, por imposição de normas internacionais e comunitárias, a de whale-watching, que consiste em observar os cachalotes na seu habitat natural, e em que é pioneiro o proprietário do Café Sport ou Café Peter, um bar de baía, único sobrevivente dos que existiram ao longo dos anos que detém um dos mais completos e antigos museus de scrimshaw (1950), hoje internacionalmente conhecido, pelo apoio que prestou e presta ao iatismo internacional, que ao longo dos tempos tem demandado estas paragens do Atlântico. Humberto Moura (Abr.1998)

Heráldica Ordenação aprovada pela assembleia de freguesia, em 17 de Dezembro de 1998:

Brasão: Escudo azul, três besantes de ouro, carregado cada um de três gotas de negro, alinhados em faixa; em chefe, coração de ouro trespassado por uma espada de prata; campanha ondada de prata e verde, com cauda de baleia de prata movente da campanha. Coroa mural de prata de três torres. Listel branco, com a legenda a negro: «Horta – Angústias».

Bandeira: Branca. Cordão e borlas de prata e azul. Haste e lança de ouro.

Selo: Nos termos da lei, com a legenda: «Junta de Freguesia das Angústias – Horta». Luís M. Arruda (2006)

 

Bibl. Alemão, V. F. (1980, 1982), Manuscrito. Arquivo dos Açores, Ponta Delgada, I e VII. Blanc, T. A (1971), Projecto do porto artificial na baía da Horta e Porto-Pim. Arquivo Açoriano, Coimbra, XVI. Cortesão, J. (1975), Os Descobrimentos Portugueses. Lisboa, Círculo de Leitores. Frutuoso, G. (1963), Saudades da Terra. Ponta Delgada, Secretaria Regional de Educação e Cultura. Instituto Nacional de Estatística (1961), X Recenseamento Geral da População. Lisboa, INE, I. Id. (1971), XI Recenseamento da População. Lisboa, INE. Id. (1981), Recenseamento da População e da Habitação. Açores. Lisboa, INE. Id. (1991), XIII Recenseamento da População, dados não publicados de 1991. Lisboa, INE. Lima, M. (1943), Anais do Município da Horta. Famalicão, Of. Gráficas Minerva. Macedo, S. (1981), História das Quatro Ilhas que formam o distrito da Horta. Ponta Delgada, Secretaria Regional de Educação e Cultura. Rebelo, E (1982). Notas Açorianas. Arquivo dos Açores, Ponta Delgada, VII. Rogers, F. M. (1983), A Horta dos Cabos Submarinos. Horta, Delegação do Turismo. Rosa, J. (1984), Nossa Senhora das Angústias na Ermidinha de Santa Cruz. Horta, Núcleo Cultural. Serpa, F. (1920), Os Flamengos na Ilha do Faial. A família Utra (Huertere). Lisboa, Centro Tipográfico Colonial.