anelídeos
Nome dado aos animais que têm o corpo alongado e mole, com simetria bilateral, composto por numerosos segmentos semelhantes, em forma de anel, separados por sulcos. Esta segmentação pode manifestar-se tanto na morfologia externa como na organização interna, isto é, nos músculos, nervos, órgãos reprodutores, circulatórios e excretores. Por causa dos numerosos segmentos, em forma de anel, estes animais constituem o phylum Annelida (do latim annelus, pequeno anel).
Os anelídeos são bastante comuns no meio marinho, ocorrendo também em águas doces e no solo húmido. Podem ter vida livre, viver em galerias ou tubos que constroem ou ser comensais ou parasitas de outros animais.
Neste phylum distinguem-se dois grupos que correspondem a três classes todas representadas nos Açores. O primeiro engloba os animais que têm um par de parápodes (expansões da parede corporal com funções locomotoras, respiratórias e sensoriais) por segmento, sexos geralmente separados e gónadas com disposição metamérica (classe dos poliquetas); o segundo abrange os clitelados que se caracterizam por serem hermafroditas, terem o aparelho reprodutor ocorrendo apenas nalguns segmentos e possuírem uma região da parede do corpo modificada, o clitelo, que segrega o casulo onde se desenvolvem os ovos (classes dos oligoquetas e dos hirudíneos).
A classe dos poliquetas distingue-se dos restantes anelídeos por possuírem em cada segmento um par de parápodes, dispostos regularmente ao longo do corpo, com muitas sedas quitinosas. Trata-se de animais marinhos, preferencialmente litorais mas que também vivem em mar aberto e nas grandes profundidades. Por se terem adaptado a ambientes tão diversos, exibem uma grande diversidade morfológica, funcional e alimentar. É a classe que inclui maior número de espécies conhecidas e simultaneamente a que engloba maior número de registos específicos, mais de uma centena, no arquipélago açoriano.
Os primeiros estudos sobre poliquetas dos Açores são de Fauvel (1909, 1914), que observou principalmente material dragado do fundo do mar durante as viagens das embarcações Hirondelle e Princesse-Alice, entre os anos 1885 e 1910. Também em 1910, durante a expedição do Michael Sars, foram colhidas amostras destes anelídeos no mar, ao sul dos Açores (Støp-Bowitz, 1948). Mais tarde, Chapman (1954) e Bellan (1978) apresentam listas de poliquetas litorais colhidos no Faial e no Pico, o primeiro, e em S. Miguel, o segundo. A lista de Bellan (1978) eleva para 156 o número de espécies de anelídeos poliquetas não serpulídeos conhecidos dos Açores. Zibrowius (1972a, (b) , examinando serpulídeos anteriormente estudados por Fauvel (1909, 1914) e outros recolhidos em 1904, 1969 e 1971, descreve três espécies novas para a ciência.
Segundo Chapman (1954), a fauna açoriana de poliquetas litorais é de características predominantemente sul-europeias ou ibéricas. As espécies centro-americanas encontradas são raras, não obstante o facto de estas ilhas, por estarem localizadas numa margem da corrente do Golfo, gerarem a expectativa de terem sido introduzidas espécies americanas na fauna marinha e mesmo na terrestre. Mas pode acontecer que o mar em redor das ilhas, por ser temperado, seja demasiado frio para que a maioria dos animais acostumados às temperaturas das águas das Caraíbas possa viver.
Os oligoquetas não têm parápodes, mas possuem algumas poucas sedas por segmento. Os indivíduos desta classe são dulçaquícolas, terrestres ou marinhos, podendo ser parasitas. As minhocas-da-terra (Octolasium complanatum) pertencem a este grupo. Os animais desta classe que ocorrem nos Açores são dulçaquícolas ou terrestres.
Barrois (1896) relata as primeiras colheitas de oligoquetas dulçaquícolas nos Açores, nas ilhas Faial, S. Miguel e Santa Maria. Brinkhurst (1969) refere espécies colhidas nas Flores, no Faial, no Pico e em S. Miguel. Michaelsen (1891) regista, para os Açores, seis espécies terrestres. Mais recentemente, Sciacchitano (1964a) tem oportunidade de estudar material das ilhas, encontrando apenas duas espécies que não tinham sido referenciadas por Michaelsen (1891).
A maior parte das espécies de oligoquetas referidas pelos autores cotados acima é ubiquista e muito distribuída (Sciacchitano, 1964a). As espécies límnicas são em pequeno número e com fracos indicadores de endemismo (Brinkhurst, 1969).
A classe dos hirudíneos inclui indivíduos mais especializados que os oligoquetas. A maioria é dulçaquícola e alguns são marinhos ou terrestres. São predadores e parasitas com alimentação fundamentalmente líquida. As espécies assinaladas para os Açores são em número reduzido e ocorrem em habitat dulçaquícola.
As primeiras notas sobre hirudíneos dos Açores são de Blanchard (1893, 1896) e Barrois (1896). Sciacchitano (1961) assinala Dina lineata como sendo a única espécie de hirudíneos larga e seguramente distribuída pelos Açores. Posteriormente, este autor regista a ocorrência de Haemopis sanguisuga, em S. Miguel (Sciacchitano, 1964b). Apenas Hirudo chavesi é uma forma endémica, porque as outras são muito distribuídas na Europa e na África. Luís M. Arruda (Dez.1997)
Bibl. Barrois, T. (1896), Recherches sur la faune des eaux douces des Açores. Société des Sciences, de lAgriculture & des Arts de Lille, Mémoires, 5, 6: 121-122. Bellan, G. (1978), Une petite collection dannelides polychetes recoltées dans lile de São Miguel (Archipel des Açores). Boletim da Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais, 18: 57-67. Blanchard, R. (1893), Voyage du Docteur Théodore Barrois aux Açores, Hirudinés. Revue biologique du Nord de la France, 6: 40. Blanchard, R. (1896), Campagnes de lHirondelle et de la Princesse-Alice, Hirudinées. Bulletin de la Société Zoologique de France, 21: 196-198. Brinkhurst, R. O. (1969), Aquatic oligochaeta of the Azores and Madeira. Boletim do Museu Municipal do Funchal, 23: 46-48. Chapman, G. e Dales, R. P. (1954), Aspects of the fauna and flora of the Azores, II Polychaeta. Annals and Magazine of Natural History, 12, 7: 678-683. Fauvel, P. (1909), Deuxième note préliminaire sur les polychètes provenant des campagnes de lHirondelle et de la Princesse-
