Andrade, Teotónio Machado de
[N. Vila Franca do Campo, ilha de S. Miguel, 15.5.1915 - m. ibid., 1.12.1986] Professor, escritor e jornalista. Cursou o Magistério Primário (1935-37) e leccionou nas escolas do Porto Formoso, da Maia, de Vila Franca e no Externato de Vila Franca do Campo. Foi, em S. Miguel, um dos primeiros professores a promover a Acção Social Escolar, lutando pela criação de caixas e cantinas nos meios onde trabalhou, animado pelo sentimento de solidariedade para com os alunos socialmente mais desprotegidos. Sintetizou as suas concepções pedagógicas no discurso A Autoridade do Mestre (1973a). Aproximando-se da visão da maiêutica socrática, define a acção pedagógica segundo a relação mestre-discípulo. A autoridade do mestre, que deve respeitar a dignidade daqueles sobre quem actua, é, de modo axial, pressuposta como valor de que dependem o dinamismo e o sucesso da arte educacional, um trabalho de constante reinvenção dos educandos, cuja finalidade é fazer do educando um educador, e educador de si próprio. A alta missão da educação está em ser instrumento da transmissão do saber, da ilustração da inteligência e da formação moral do carácter, que propiciam a autonomia do indivíduo. Todavia, a vontade autónoma e livre, para que deve caminhar o discípulo, não seria possível sem a existência de um elemento heterónomo, a autoridade do mestre. As pedagogias inspiradas na ética racionalista kantiana teriam aqui um limite: a autonomia da pessoa é um processo de crescimento cujo sucesso depende desse prévio factor externo da autoridade do professor, que, educando, propõe fins. Personalidade multifacetada, desenvolveu intensa actividade jornalística como redactor de A Vila, que ajudou a fundar com o Dr. Augusto Botelho Simas, e como editor e redactor do semanário católico A Crença, colaborando com outros periódicos micaelenses (o Diário dos Açores e o Açoriano Oriental). Dedicou-se à história e à etnografia vila-franquenses, bem como ao teatro revisteiro regionalista, como encenador e como autor, produzindo duas revistas que conheceram grande estima do público: Eh! Louça da Vila e Boa Vai Ela. O folclore, a música e a culinária também o atraíram: organizou e ensaiou grupos folclóricos, escreveu letras de canções (nomeadamente marchas populares de S. João), muitas delas por ele musicadas, e iniciou uma recolha de culinária tradicional, que ficou incompleta, e que pensou intitular A Antiga Culinária de S. Miguel, de que nada chegou a ser impresso. Dotado de fino espírito de humor e de ironia, deixou nos jornais diversas gazetilhas que primam pela sátira de costumes e que assinou com pseudónimos (sendo os mais conhecidos os de Tito-Lito e D. Nicão). Entre esta produção encontra-se o poema herói-cómico A Carrocíada (1937), inédito da juventude, escrito em versos de alguma métrica irregular e dividido em oito cantos, no penúltimo dos quais humoristicamente traça o seu perfil físico e psicológico. Manuel Cândido Pimentel
Bibl. Andrade, T. M. (1937), A Carrocíada. Poema Herói-Cómico. S.l., s.n. [o autor dactilografou e fotocopiou o poema, dando-lhe forma de brochura, com capa em cartolina, distribuindo-o entre amigos; alguns dos exemplares estão assinados com o pseudónimo Tito-Lito]. Id., (s.d.) [1966], Versos da Revista Eh! Louça da Vila. Vila Franca do Campo, Tip. de A Crença. Id. (1972), A Senhora da Paz na Tradição Popular Vila-Franquense. Lendas e Milagres. Vila Franca do Campo, Tip. de A Crença. Id. (1973a), A Autoridade do Mestre na Actual Conjuntura Educacional. Êxitos e Insucessos. Trabalho apresentado na Reunião dos Agentes de Ensino do Distrito Escolar de Ponta Delgada (17 de Junho de 1973), s.l., s.n. Id. (1973b), A Ermida da Senhora da Paz. Ponta Delgada, ed. do autor. Id. (1973c), O Cicerone de Vila Franca. Notas históricas da Antiga Capital de S. Miguel. Vila Franca do Campo, Câmara Municipal [2.ª ed., 1986, revista e aumentada pelo autor; 3.ª ed., 1994; ambas edições da Editorial Ilha Nova da Câmara Municipal de Vila Franca do Campo].
