Andrade, António Ernesto Tavares de
[N. Vila Franca do Campo, ilha de S. Miguel, 2.1.1850 - m. Lisboa, ?] Escritor, pensador e jornalista, frequentou o curso preparatório no Liceu de Ponta Delgada. Destinando-se à vida eclesiástica, abandonou-a para se matricular no ensino superior em Lisboa, aonde rumou em finais de Setembro de 1871. Fascinado pela vida literária e jornalística da capital, onde conviveu, entre outros, com Augusto Soromenho, Inocêncio Francisco da Silva, João de Deus, Gomes Leal e Silva Pinto, descurou os estudos, regressando à terra natal sem os ter concluído. Passou a ganhar a vida como amanuense na Repartição da Fazenda do concelho de Vila Franca, depois escrivão da Câmara Municipal da mesma vila, tornou a Lisboa, empregando-se como oficial na Repartição de Finanças de um dos bairros lisboetas. Fundou e foi redactor principal do Eco Civilizador (V. F. Campo, 1870) e redactor do A Voz do Povo (ibid., 1879-81), colaborando no jornal lisboeta Revolução de Setembro e no eborense Diário do Alentejo, de Gomes Percheiro, seu proprietário e redactor, que conhecera em 1871, em Lisboa, na Livraria de João António Gomes Franco de Castro, onde o já referido grupo literário se costumava reunir. Estreou-se como escritor, aos 20 anos, no primeiro jornal que fundou, com densos artigos sobre temas históricos, sociais e filosóficos, revelando ao público a tendência especulativa que caracterizaria o conjunto da sua obra. Abraçou o idealismo espiritualista cristão, estudando e convivendo com Descartes, Maine de Biran, Jouffroy e Gratry. A Espinosa, Condillac, Hegel, Comte e Darwin, preferia aqueles, ou as páginas teístas dos Factos do Espírito Humano, de 1858, do filósofo brasileiro Gonçalves de Magalhães, ou a síntese ecléctica de Cousin e sua escola. Dominava com suficiência as teses científicas dos autores mais próximos do teísmo cristão sobre a origem e a evolução do universo e da vida (Cuvier, von Humboldt e Secchi), para sustentar as suas posições pessoais e a crítica que por toda a sua obra expendeu contra o racionalismo puro e o panteísmo (próximos nos objectivos do ateísmo), do mesmo modo que, no seu declarado *antipositivismo, argumentava e combatia o materialismo da tendência positivista e evolucionista. O mesmo espiritualismo inspirou-lhe o longo texto argumentativo sobre a existência de Deus e sua defesa (Andrade, 1870a) e o romance filosófico Eugénio ou o Livre Pensador (Andrade, 1871), o primeiro livro e o único ficcional que publicou, em prosa romântica. No intuito filosófico, faz lembrar o Candide de Voltaire, embora tivesse por este último fraca consideração devido ao ateísmo que professou. A doutrina que revela não poderia ser mais oposta à daquele: uma visão filosófica optimista e juvenil da Vida, do Universo e do Homem, exaltando o Amor, forma matinal e princípio unitário dos seres. Manifesta nas suas obras sensibilidade para os problemas sociais. Perante a realidade cruciante do *analfabetismo, reclamou do Estado a lei para a obrigatoriedade do ensino, assumindo a defesa do livre acesso das mulheres à instrução pública. Desferiu rudes golpes no jornalismo seu contemporâneo, apelando para a verdade e a ética, bases e horizontes deontológicos da missão jornalística, numa época de profundas mutações políticas e dissidências ideológicas ou partidárias. As suas ideias abraçaram a política progressista e democrática, contra a linha conservadora que persistiu nos ideais dos saudosos do cabralismo. Manuel Cândido Pimentel (Dez.1996)
Obras principais: (1870a), O conhecimento de Deus ou demonstração filosófica da existência de Deus. O Eco Civilizador, Vila Franca do Campo, 1, 15 de Maio: 2-3; 2, 22 de Maio: 6-7; 3, 29 de Maio: 10-11; 4, 5 de Junho: 14-15; 5, 12 de Junho: 18-20; 6, 26 de Junho: 22. [O artigo termina aqui, com a promessa de continuar, mas não continuou.] (1870b), Aos leitores. Ibid., 1, 15 de Maio: 1. [Primeiro editorial do jornal, sobre a ideia de progresso civilizacional.] (1870c), Folhetim: Roma antiga. Ibid.: 1 e 2. [Sobre a história imperial romana do período áureo à decadência.] (1870d) [Editorial não titulado sobre a origem da civilização]. Ibid., 2, 22 de Maio: 5. (1870e) [Editorial não titulado sobre a ideia de progresso e a necessidade da religião]. Ibid., 3, 29 de Maio: 9. (1870f) [Editorial não titulado sobre os males do século xix]. Ibid., 4, 5 de Junho: 13. (1870g) [Editorial não titulado sobre a filosofia cristã]. Ibid., 5, 12 de Junho: 17-18. (1870h) [Editorial não titulado sobre a luta entre o bem e o mal na história]. Ibid., 6, 26 de Junho: 21 e 22. (1871), Eugénio ou o Livre Pensador: Romance Filosófico. Ponta Delgada, Tip. de Manoel Correia Botelho. (1875), À Excelentíssima Senhora Condessa de Fonte Bella. Ponta Delgada, Tip. de Manoel Correia Botelho. (1876), Factos da Actualidade. Ponta Delgada, Tip. de Manoel Correia Botelho. (1879), Biografia do Excelentíssimo Senhor Visconde de Botelho. Vila Franca do Campo, Tip. de João de Medeiros Jr. (1883), Memórias Biográficas dos Excelentíssimos Senhores Visconde e Viscondessa da Praia. Vila Franca do Campo, Tip. da Liberdade. (1897), Ideais Modernos. S. Miguel, Tip. do Campeão Popular.
Bibl. Dias, U. M. (1931), Literatos dos Açores. Vila Franca do Campo, Empresa Tipográfica Lda.: 733-735.
