ancoradouros

Chama-se ancoradouro ao local adequado para um navio poder fundear, permanecendo em segurança. Deve proporcionar abrigo do mar e de ventos dominantes, possuir fundo de boa tença, isto é, onde o ferro fique bem unhado, e, quanto possível, possibilitando comunicações com a terra ribeirinha. Surgidouro e fundeadouro são designações com significado muito semelhante, embora na prática sugiram menor qualidade, ou menor espaço de tempo de uso.

A evolução natural dum ancoradouro é para porto de mar. Este pressupõe iguais ou melhores condições de segurança e melhores comunicações com terra, através, por exemplo, da utilização de cais acostáveis, mas alguns portos por esta designação conhecidos não proporcionam a navios grandes senão a facilidade de estarem fundeados.

Santa Maria Esta ilha, com excepção da costa voltada a oeste, de poucas reentrâncias, possui um bom número de fundeadouros, e quase todos próximos uns dos outros, devendo, todavia, distinguir-se como ancoradouros melhores o de Vila do Porto, na costa sul, e o de S. Lourenço, na costa leste.

Baía de Vila do Porto - Fica situada no canto sudoeste da ilha, abrindo-se entre a ponta Malmerendo e a ponta Marvão. Por estar voltada a sul e ser praticamente aberta e estreita, não proporciona bom abrigo com mar forte, ou ventos dos quadrantes meridionais. A acessibilidade a terra é facilitada por uma ponte cais, mas apenas para embarcações menores. Os fundos são de areia grossa e calhau rolado. Qualquer local no eixo norte-sul da baía pode ser usado como fundeadouro, mas o recomendado é com o mastro de sinais da Capitania por 18° de azimute, e o ilhéu da Vila a ficar encoberto pela ponta de Malmerendo. Mais para dentro, só com muito bom tempo; um pouco para fora, mais seguro.

Baía de S. Lourenço - Na costa leste da ilha, em grande parte de arriba inóspita, muito alta e escarpada, passada a ponta dos Cedros, no rumo do norte, avista-se o ilhéu de S. Lourenço, que marca o limite sul da baía do mesmo nome. Trata-se de uma larga faixa de areia que se espraia no sopé da encosta não muito íngreme, em forma de anfiteatro cheio de socalcos de vinhedos.

Nem há que escolher local de fundear: todo ele é bom, com o recato devido, obviamente, à proximidade de terra. Uma sonda da ordem dos 20 m e os fundos de areia proporcionam local bem abrigado.

S. Miguel O espaço exterior do porto de Ponta Delgada é um bom fundeadouro, praticável especialmente por grandes navios de carreiras transoceânicas que não possam encostar ao cais por indisponibilidade própria ou outras causas.

Caso se levante mau tempo de sudoeste e o abrigo no fundeadouro seja considerado escasso, o recurso será o fundeadouro da baía das Capelas, a noroeste da ilha.

Na costa norte, para leste das Capelas e sobretudo para pequenos iates, encontram-se os fundeadouros do Porto Formoso, resguardado até de ventos do norte. Navios maiores encontram, logo a poente deste e a leste do morro Grande, a baía de Santa Iria, ou da Ribeirinha. A baía das Capelas tem a vantagem de mais fáceis comunicações com a cidade de Ponta Delgada.

 Na costa sul, a começar no Faial da Terra, passando por Povoação, Ribeira Quente e Vila Franca do Campo, são bons fundeadouros naturais, sobretudo Vila Franca, seguindo-se-lhe Lagoa e S. Roque, estes já muito próximos de Ponta Delgada.

Terceira Na costa sul desta ilha há um morro que separa dois bons fundeadouros, o chamado monte Brasil. Do lado nascente, em baía que se desenvolve junto da cidade da Angra do Heroísmo, dispõe o navegante de bom fundeadouro, quando não soprem ventos do quadrante sul. Este fundeadouro de Angra é de fundos grandes, de areia, muito reentrante e, por esta razão, pode tornar-se perigoso caso se levantem ventos contrários, dado o abrigo aí ser escasso. É local que requer prontidão para sair. O ponto de desembarque mais indicado é o Porto de Pipas, recanto situado a leste do Forte de S. Sebastião, com pequena muralha protectora e identificável por vararem aí quase todas as embarcações.

Ao largo da baía ainda podem fundear navios grandes, em 22 m de fundo.

A poente do monte Brasil, uma outra baía, a do Fanal, mais aberta que a de Angra, é fundeadouro que possui igualmente bons fundos de areia, mas se torna menos recomendado por estar aberto aos ventos de oeste, mais comuns.

Toda a costa oeste da ilha Terceira é de terras baixas, de acesso relativamente fácil, sendo, no entanto, os ancoradouros inseguros e, por conseguinte, pouco recomendáveis. Pode exemplificar-se com o caso dos Biscoitos.

Na zona norte da costa leste, encontra-se o segundo aglomerado mais importante desta ilha, a Praia da Vitória. Para sul desta cidade, estende-se uma praia de bonita areia, a que corresponde no mar igual qualidade de fundos, podendo um navio fundear quase aonde quiser e o fundo lhe convier. Deve precaver-se, todavia, com as amarrações fixas destinadas aos petroleiros que normalmente vão descarregar combustíveis destinados à Base Aérea e ali possuem os terminais dos oleodutos. Para o lado norte, a baía possui um pequeno cais acostável, mas a praia dá bom varadouro, só dependendo do estado do mar.

Voltando desta costa leste para o sul da ilha e dobrada a ponta das Contendas, em arribas, passa-se a baía da Salga, que é má. Seguidamente, encontra-se um pequeno ancoradouro, o do Porto Judeu, aonde os fundos são de areia, existindo varadouro e pequeno cais.

Graciosa O mar, quando há vento rijo, bate-a por todos os lados, sendo os seus abrigos de pouca segurança. Na Vila de Santa Cruz, situada a nordeste, localiza-se o melhor ancoradouro da ilha.

Um navio médio pode fundear aí em 28 m, com fundo de areia. Um edifício importante a meio da abertura do porto, a casa Vieira da Costa, deve servir de referência para demandar o ancoradouro. As águas não costumam ser tranquilas, e o fundo melhor para largar ferro, de areia e cascalho, situa-se entre rochas, onde, com tempo pior, se pode perder a âncora.

Para pequenos iates, encontra-se, um pouco a sul, um outro ancoradouro, o Portinho da Barra, como que uma lagoa protegida por recifes que se pode demandar por entre a rebentação e enfiamentos em terra sobre os 260°.

Ligeiramente para sul existe um ancoradouro maior, o de Vila da Praia, suficientemente grande para nele poderem permanecer simultaneamente vários navios de razoável dimensão, entre o ilhéu da Praia e o contorno interior da costa, junto da povoação. Dois moinhos de vento, os da Rochela, dão um enfiamento bom, próximo do azimute do farolim, para quem chegar do sul e quiser demandar o fundeadouro.

Quando for impraticável a utilização dos ancoradouros da costa leste, pode-se rumar, como alternativa, à baía da Folga, no troço de costa voltado a sudoeste. Para entrar nesta, vindo de leste, tem de dar-se bom resguardo à ponta do Enxodreiro. Um bom ponto para fundear encontra-se no enfiamento do farolim com a ermida, num azimute de 40°, com uns 25 m de sonda, encontrando areia e pedra miúda.

S. Jorge Esta ilha é estreita e comprida, paralela e ligeiramente a norte da ilha do Pico, com a qual forma um longo canal com dez milhas de largo. É esta situação de abrigo interior que lhe permite ter onde fundear, pois a encosta norte, voltada aos ventos e de arribas enormes, é quase impraticável.

A baía das Velas, situada em frente à vila homónima, é bastante fechada e com bons fundos, deixando por noroeste o cais. Ao lado, situa-se um varadouro, ficando o navio a sul de impressionante costa em arriba que termina baixando para a ponta da Queimada, termo da baía a leste. A oeste sobressai o morro Grande que limita deste lado a pequena baía.

Pode largar-se ferro em fundo de areia preta com cerca de 25 m, no enfiamento da ermida do Livramento com a clarabóia do hospital, num azimute de 298°.

A estreiteza da concha desta baía não recomenda dar aí fundo quando o sudoeste esteja rijo, pois o abrigo é escasso, e o perigo de não poder sair é ainda maior. Em tal situação é preferível demandar o ancoradouro da Vila da Calheta, mais aberto, mas com maior segurança.

A Calheta fica situada mais para les-sueste, por isso mais abrigada pelo Pico, onde se tem boa tença em cerca de 30 m de fundo de areia e concha moída. Apesar de ser baía mais aberta que a das Velas, pode desfrutar-se aí de maior segurança.

Pico As duas ilhas, do Pico e do Faial, formam um canal que mais as une que as separa, havendo intensa navegação entre ambas.

No rebordo costeiro do Pico, frente à ilha vizinha, abre-se, mesmo enfiado com a saída do porto da Horta, o fundeadouro da Areia Larga, que é o ancoradouro mais safo, abrigado pelos ilhéus da Madalena, um alto e esguio, conhecido por Em Pé, outro baixo e achatado, conhecido por Deitado, a norte dos quais se implantou a vila da Madalena, com seu porto e desembarcadouro, importantes no tráfego com a Horta.

A costa norte do Pico é fraca de ancoradouros, merecendo reparo apenas o do Cais, que dá excelente abrigo do tempo sul. É de declive muito acentuado, onde o ferro pode garrar com ventos de terra. Possui cais e varadouro, sendo um dos mais importantes portos de pesca do arquipélago.

No Portinho de S. Roque, baía das Canas, Prainha do Norte, e, quase no topo leste da ilha, na baía do Castelete, pode ainda encontrar-se fundeadouro em batimétricas variáveis, como resguardo de temporais de sudoeste.

Na costa sul do Pico, as Lajes, antigo porto baleeiro, e a Prainha do Galeão, sobretudo este último, são bons fundeadouros como abrigo.

Faial O porto da Horta, limitado a norte pela escarpada ponta da Espalamaca, e a sul por bom cais acostável, possui também alguns locais de fundeadouro, onde os navios podem suportar, embora com desconforto, bastante mau tempo. Também, por vezes, deixam a Horta e vão para a Areia Larga, no Pico.

Os locais, no porto, onde se pode fundear são delimitados pelos enfiamentos do farolim da Boa Viagem com o torreão da igreja de N.ª Sr.a do Carmo, em 284°, e outro mais a sul, ao descobrir da Igreja das Angústias, dos armazéns Bensaúde, no azimute de 282°. Os fundos são de areia e, mais ao largo, de cascalho.

Na costa exterior ao porto, e para norte da ponta da Espalamaca, pode-se fundear em bons fundos nas baías do Almoxarife e da Ribeirinha, em 15 m de profundidade.

Para sul e leste do porto, encontram-se dois bons ancoradouros, o da Pedreira e o da Feteira, com fundos de boa tença em 27 ou 40 m de areia fina a grossa.

Flores As duas ilhas situadas mais a noroeste do arquipélago, Flores e Corvo, ficam já bastante longe das outras, obrigando a um cuidado especial em escolher locais de possível abrigo dos fortes temporais ali frequentes.

A ilha das Flores possui, ainda assim, na sua costa leste, um recorte saliente onde se implantou a Vila de Santa Cruz das Flores, que é também razoável abrigo, embora não em caso de mau tempo. Este troço da costa, uma ponta larga e baixa, tem pelo norte a baía de S. Pedro, a meio a povoação, com três pontos em frente razoáveis para largar ferro, chamados do Boqueirão, mais a norte, da baía da Barra, a meio, e do Piquete, a sul, terminando depois noutro fundeadouro que é o da baía da Ribeira da Cruz. A costa é suja e muito recortada, sendo necessário tomar cuidado com a demanda dos fundeadouros. O situado mais a sul, ou da Ribeira da Cruz, é o melhor destes cinco, talvez o único onde um navio pode aventurar-se a permanecer durante a noite.

No extremo sul desta costa leste deve ainda considerar-se o fundeadouro do lugar das Lajes, com fundos de areia a uns 30 m, relativamente abrigado dos ventos de noroeste.

Na costa sul da ilha, a baía da Rocha Alta, conquanto extensa e de fundos de areia, apenas abriga, e mal, de ventos norte.

Na costa voltada a poente, há uma baía grande onde, em toda ela, se pode fundear: é a baía da Fajã Grande. Marcando a igreja da Ponta da Fajã por 48°, e o farolim, por 150°, tem-se um bom fundo de 25 m.

Ao norte da ilha há também uma extensa e abrigada baía, a de Ponta Delgada, onde se pode fundear em fundos de areia de 23 m.

Corvo Esta ilha é a mais pequena e setentrional do arquipélago. É na vila do Rosário, ou Vila Nova do Corvo, localizada na ponta do extremo sul, que se concentra a totalidade dos seus habitantes. Aí também se situam as três únicas aberturas praticáveis, da ilha para o mar, ou sejam, os fundeadouros: do Porto da Casa, o menos mau, para leste da ponta; o do Boqueirão, ou do sul, e o da baía da Areia, situado a oeste. Neles se podem encontrar fundos de areia, mas não é recomendável que se demandem, ou neles se estacione de noite e não são praticáveis com mau tempo. Toda a restante costa é praticamente inacessível. Raul de Sousa Machado (Mai.1997)