anarquismo
O anarquismo é uma teoria político-social que começou a ser definida, de forma mais sólida, nos finais do século xviii e ao longo do século xix. Os anarquistas combatem a existência do Estado, sob qualquer das suas formas, criticam o sistema capitalista, recusam o regime parlamentar e a formação de partidos políticos. Na sua perspectiva, a vida em comunidade não deve estar submetida a leis ou autoridades externas, mas a livres contratos entre os mais variados grupos, com o objectivo de satisfazerem as suas necessidades e aspirações. No pensamento anarquista internacional desenvolveram-se várias tendências que se reflectiram em Portugal. Na segunda metade do século xix, os ideais anarquistas foram ganhando terreno no nosso país. No seio das associações de trabalhadores foi notória a influência de Proudhon, numa primeira fase, que, de certo modo, se reflectira nas primeiras obras de Antero de Quental. Posteriormente, os anarquistas separaram-se da Associação Internacional dos Trabalhadores, dominada pelos marxistas, e criaram uma União Federal, no seio da qual se desenvolveu o anarquismo moderno. Influenciados por Bakunine, Kropotkine e outros, combateram o anarquismo individualista e defenderam um anarquismo comunista que ganhou adeptos no seio dos operários. Em 1887, o grupo comunista-anarquista de Lisboa publicou uma declaração de princípios, afirmando a sua independência em relação aos partidos políticos. No mesmo ano, surgiu no Porto o primeiro jornal anarquista - A Revolução Social - e, em 1892, outro em Lisboa, denominado A Revolta. A partir de então, foram publicados outros jornais anarquistas e o movimento dedicou-se, quase exclusivamente, à propaganda dos seus ideais filosóficos. Depois de 1909, os anarquistas disputaram a influência política no movimento sindical aos socialistas e republicanos. Durante a República, a influência dos anarquistas cresceu significativamente no seio do movimento operário. Neste movimento destacaram-se os açorianos António José de Ávila e Adriano Botelho, cuja acção política se desenvolveu, essencialmente, no continente.
Nos Açores, a ideologia anarquista nunca encontrou espaço para crescer, porque o movimento operário sempre foi muito incipiente. Mas alguns estudantes universitários açorianos aderiram a esses ideais. Luís da Silva Ribeiro perfilhou-os, enquanto estudante em Coimbra, mas já os tinha abandonado quando regressou a Angra; João H. *Anglin colaborou num jornal anarquista micaelense e Aurélio Quintanilha, para além de se ter distinguido no movimento anarquista nacional, fundou um jornal em Angra. Juntamente com os intelectuais foram encontrados elementos de outros estratos sociais que se ligaram às associações operárias e fundaram a imprensa anarquista nos Açores. Em 1.5.1908, surgiu em Ponta Delgada o jornal Vida Nova, órgão do operariado micaelense, com publicação quinzenal. Tinha como primeiro director e proprietário Francisco Sousa Silva e como administrador António da Costa Melo. A publicação do jornal terminou no n.º 73, em 31.12.1912, sendo na altura seu proprietário A. Rosa Martins. Os princípios orientadores baseavam-se na defesa dos interesses dos trabalhadores, na sua formação política, transcrevendo artigos de conhecidos anarquistas estrangeiros e recomendando leituras de obras de Malatesta, Reclus e Kropotkine. Neste jornal apareceram vários artigos assinados por João H. Anglin que seguiu, mais tarde, outras opções políticas. No mesmo periódico colaborou com frequência o anarquista terceirense Manuel Eusébio Sousa Júnior. Em Julho de 1915, surgiu em Angra um jornal anarquista, denominado A Lanterna. Teve como redactor principal Aurélio Quintanilha e como editor João Ávila. Foram publicados apenas dois números devido ao boicote das tipografias terceirenses, algumas das quais, sob ameaça, se recusaram a fazê-lo, sendo, por isso, composto e impresso em S. Miguel. Tal como o jornal Vida Nova, recomendava a leitura de livros de autores anarquistas. Para além destas publicações, os anarquistas açorianos desenvolveram alguma acção no movimento operário ao longo da I República, mas a sua intervenção foi muito reduzida. Com a implantação da ditadura, foram enviados para as ilhas vários deportados anarco-sindicalistas que, apesar de propagandearam os seus ideais e criarem algumas amizades, não conseguiram adesões significativas às suas propostas. Desde então até ao presente, os poucos anarquistas açorianos das mais diversas tendências não têm tido expressão política organizada. Carlos Enes (Nov.1995)
