ananás
HISTÓRIA NATURAL O ananaseiro (Ananas comosus) é uma planta herbácea, perene, com folhas dispostas em espiral envolvendo um caule aéreo muito curto. As folhas são lineares, mais ou menos dentadas ou com espinhos, com uma larga bainha na beira, onde se acumula apreciável quantidade de água, detritos vegetais e até insectos mortos, constituindo assim uma espécie de reserva alimentar.
As flores estão reunidas numa inflorescência terminal protegida por brácteas intensamente coradas, são bissexuais e actinomorfas, com 6 estames inseridos na base das peças do perianto. O fruto elementar é uma pequena baga e a infrutescência é uma sorose resultante do desenvolvimento e entumescimento dos tecidos da base das brácteas e do ovário.
O número de cultivares actualmente em cultura é elevadíssimo e a distinção entre elas nem sempre é fácil.
É costume agrupar as cultivares em quatro grandes grupos: Cayenne, Queen, Spanish, Abacaxi, a que alguns juntam um quinto grupo (Pérola).
CULTURA Há informações de que o ananaseiro terá sido introduzido em S. Miguel nas primeiras décadas do século xix, como planta ornamental e de interesse botânico. Alguns anos mais tarde, fez-se uma exportação para Londres de um número reduzido de plantas frutíferas em vaso, que atingiu grande sucesso. Procurou então desenvolver-se a cultura, importando para o efeito propágulos directamente dos jardins botânicos de Paris.
Parece que a cultura em larga escala, quase nos moldes de que ainda hoje se pratica nas suas linhas gerais, foi iniciada em 1864. Factor favorável à implantação desta cultura foi o grave decréscimo da exportação da laranja para a Inglaterra devido ao envelhecimento das plantações, ao ataque de doenças, nomeadamente a gomose, e à concorrência feita pelos laranjais instalados no sul de Espanha.
A cultura do ananaseiro em S. Miguel, feita em estufa, segue técnicas diferentes das utilizadas nas regiões tropicais, onde a planta é cultivada ao ar livre.
Quase toda a produção micaelense é exportada em fresco para os mercados europeus, onde tem grande aceitação e prestígio.
A cultura do ananás açoriano concentra-se na ilha de S. Miguel. Tentativas feitas nas ilhas de S. Maria e Terceira não foram entusiasmantes. Em S. Miguel a cultura faz-se em estufas de vidro localizadas a altitudes inferiores a 400 m nas costas sul e oriental, protegidas dos ventos frios pela cadeia de montanhas que percorre a ilha no sentido do seu maior comprimento. As zonas de maiores concentrações de estufas são as de Ponta Delgada, Vila Franca do Campo, Lagoa, Povoação e Ribeira Grande. Existem cerca de quatro milhares de estufas com uma média de 1500 plantas em cada uma.
Uma estufa-tipo é de planta rectangular com 50 ´ 9,5 m e 2,8 m de altura máxima. As dimensões estão calculadas para se conseguir a máxima eficiência na cultura, tal como aqui é seguida. Cada estufa tem um caminho central, com cerca de 50 cm de largura, e um depósito de água em ligação com uma cisterna colocada a nível inferior, onde se recolhem águas de drenagem. A superfície da cultura é depois dividida em canteiros (vãos) com cerca de 9 m2 (4,5 ´ 2 m) para facilitar as operações culturais.
O volume da estufa é calculado para garantir uma conveniente massa de ar no interior, mas sem comprometer a concentração térmica e de anidrido carbónico libertados durante todo o período de fermentação do substrato em que se faz a cultura e conseguir eficiência na altura de dar fumo, visando a diferenciação floral.
Os operadores das estufas (estufeiros) actuam por experiência e são exímios executantes de uma técnica muito particular da cultura do ananás. A orientação das estufas é geralmente com o eixo maior norte-sul para permitir uma melhor utilização do calor solar, bem como o efeito do fotoperíodo. A cobertura é feita de vidro. O tipo de estufa e as práticas culturais seguidas são de tal forma que a cultura deve considerar-se protegida e não forçada, salvo no que se refere à aplicação do fumo.
O substrato para a cultura é complexo e constituído por várias camadas. Os materiais que fazem parte desse substrato são a lenha da ramada, a leiva, o musgo, o palame, a terra de estufa, a monda e a serradura.
A lenha da ramada é constituída por ramagem proveniente de podas ou obtida na mata. Domina material da Pittosporum spp e Cryptomeria japonica. O material de P. undulatum é o mais abundante. Esta massa constitui a primeira camada do vão e destina-se a constituir uma fonte de calor por decomposição, impedir o desenvolvimento de alguns fungos nocivos ao ananaseiro e facultar a drenagem da água em excesso.
A leiva é um conjunto de plantas essencialmente herbáceas colhidas, com alguma terra agarrada, nas encostas dos terrenos incultos ou abandonados onde dominam as ericáceas, poáceas e papilionáceas. Chama-se musgão quando domina a Spragnum compactum. A leiva, colocada sobre a lenha da ramada, tem funções térmica, trófica e melhoradora da estrutura.
O palame é leiva fermentada. A terra de estufa é o terreno nu depois de se ter tirado o material que constitui a lenha da ramada. A monda é o conjunto de vegetação infestante retirada da estufa ou das culturas em pleno campo. A serradura é o conjunto de detritos de corte das serrações de madeira, principalmente de Cryptomeria japonica.
A cultura do ananaseiro nos Açores, para além da preparação do substrato de que se deram brevíssimos apontamentos, compreende a selecção dos rebentos e a utilização da toca, que é a porção cilíndrica do caule no fim de ter produzido fruto e desprovido de folhas. Com o material seleccionado constrói-se um viveiro onde as tocas são colocadas horizontalmente em linhas paralelas. Os viveiros são feitos dentro da estufa e é fundamental regular a temperatura e humidade entre valores muito apertados. Cada toca dá 2 a 4 rebentos, dos quais se faz uma selecção, e mantém-se em produção de rebentos enquanto não se esgotar, sendo então retirada do terreno.
Os rebentos são plantados, geralmente em quadrado (0,3 ´ 0,3 m), após terem sido submetidos a uma enérgica poda foliar e regam-se, em especial nas primeiras fases de desenvolvimento, e regula-se a composição e temperatura do ar dentro da estufa pelo arejamento. A temperatura da estufa nesta fase, conseguida à custa do calor libertado pela cama em fermentação e do calor solar, situa-se entre 26° e 36°C.
A planta nesta fase atinge 70/90 cm de altura e é então transplantada para o local definitivo num substrato idêntico, agora em quadrado com 50-60 cm de lado. Durante este período a temperatura no interior da estufa deve situar-se entre 26° e 28°C.
A fumagem tem por objectivo provocar a floração simultânea. Aplica-se sob a forma de fumo branco, denso e abundante, durante 4 a 5 horas por dia, durante 5 a 7 dias consecutivos, actuando durante a noite e arejando de manhã. Durante a fumagem a estufa deve manter-se hermeticamente fechada.
Uma operação importante que se coloca em prática é a redução do tamanho da coroa para tornar o fruto mais elegante, reduzir a parte inútil do fruto (de 25 % para cerca de 6-8 %), facilitar e tornar mais barato o transporte pela redução da altura e manter durante muito mais tempo o fruto com o aspecto de «fresco», já que as folhas da coroa murcham primeiro que o fruto.
Ao longo da vida da planta tem de regular-se a iluminação e, por isso, em certos períodos do ano, os vidros das paredes e cobertura de estufas são pintados com cal, que depois é facilmente retirada.
O ananás tem de ser colhido muito próximo da maturação completa para que exiba todas as suas características de sabor e perfume, mas após a colheita tem um período de conservação muito curto, tanto menor quanto maior for a relação açúcares/ácidos. Os frutos dos Açores, dadas as técnicas de cultura, têm aquela relação mais básica que os das regiões tropicais, o que lhes dá uma vantagem em termos de período de comercialização.
Durante muito tempo, por morosidade do transporte e por insuficiência na produção e apresentação dos frutos, os ananases tropicais só chegavam à Europa - mercado vocacionado do ananás açoriano - por via aérea e, por isso, em pequenas quantidades e fortemente onerados pelo preço do transporte.
Hoje em dia, a situação é completamente diferente. Os transportes marítimos são muito mais rápidos, a apresentação do fruto revela enormes progressos e o consumidor europeu vai-se habituando ao ananás cultivado ao ar livre nos trópicos, que lhes é oferecido a preços frequentemente mais baixos que os custos de produção do ananás açoriano à saída da estufa.
Não se afigura possível que o ananás açoriano possa competir em preço com o ananás tropical e isso poderá mesmo ser cada vez mais difícil. Os Açores têm que apostar na excelente qualidade dos seus produtos. E os mercados ricos apreciam-na, normalmente preferem-na até níveis compatíveis com a produção global açoriana, e pagam-na. A aposta na qualidade é a única via possível para a manutenção da cultura do ananás em S. Miguel. J. E. Mendes Ferrão (Nov.1995)
HISTÓRIA A primeira referência ao ananás micaelense, presumivelmente escrita por António Feliciano de Castilho, encontra-se publicada n O *Agricultor Micaelense, em 1848. A exportação do ananás é efectuada, pela primeira vez, a 12.11.1864 mas, passados dez anos, as estufas abrigavam quarenta mil plantas, a exportação ascendia a dezasseis mil frutos, e o Gardeners Chronicle referia o incremento da sua cultura na ilha de S. Miguel e a sua superior qualidade em relação aos frutos de outras origens. José Bensaúde terá sido o primeiro a aperceber-se do valor económico do ananás, tendo construído as primeiras estufas e exportado os primeiros frutos para Londres, com lucros elevados. O grande incremento da produção do ananás é atribuído à descoberta acidental da acção do fumo no interior da estufa, que passou a permitir a frutificação em simultâneo de todas as plantas. Manuel Botelho Gusmão descreve esta descoberta no «Guia do cultivador de ananases na ilha de S. Miguel», artigo publicado no jornal O Cultivador, de 15.7.1875. Nesse ano, já se calculava a produção micaelense em quarenta mil frutos, distribuídos por estufas localizadas nos concelhos de Ponta Delgada, Lagoa e Vila Franca do Campo. Dados relativos a 1985 atestam que 80 % das estufas ainda se concentram no concelho de Ponta Delgada, localizando-se 2/3 delas nas freguesias da Fajã de Baixo, S. Roque e Livramento.
A Inglaterra manteve-se durante muitos anos como o único mercado consumidor do ananás micaelense. A Alemanha só começou a importar ananás de S. Miguel após 1897. Até à eclosão da Segunda Guerra Mundial, 85 % da exportação do ananás micaelense destinava-se à Inglaterra e à Alemanha. Ver Alemanha, relações com a.
Raul Benevides (1950) distingue dois períodos na «economia do ananás». O primeiro vai desde o início da sua exploração até 1910, com preços excepcionalmente altos. O segundo, a partir de 1910, ressente-se das duas guerras mundiais, das difíceis conjunturas posteriores e da crescente concorrência do ananás tropical, plantado a céu aberto. Também durante este período, a crescente emigração açoriana para os EUA e Canadá contribuiu para o encarecimento da mão-de-obra e para o agravamento do custo dos factores de produção. De resto, a plantação de ananás é uma cultura dispendiosa e exigente. Os custos de produção sempre foram muito elevados, por causa da imobilização de capitais na construção e manutenção das estufas de vidro e na edificação de infra-estruturas de apoio. A incerteza dos resultados da consignação do produto à comercialização, a instabilidade dos mercados consumidores e a dificuldade de obter transportes regulares obrigaram a uma certa organização. Cristiano Frazão Pacheco fundou, em 22.8.1913, a Sociedade Corretora Limitada, para reunir os cultivadores de ananases. Durante os anos 20, essa sociedade era responsável pela exportação de metade da produção, segundo o Boletim agrícola e económico da Sociedade Corretora Limitada.
Para ultrapassar os entraves derivados do transporte, a Sociedade Corretora fundou a Companhia de Navegação Carregadores Açoreanos (1920), com rotas regulares para os mercados do Norte da Europa, tendo obtido o monopólio da exportação do ananás pelo decreto 11 430, de Janeiro 1926.
Para defender os interesses de uma produção dispersa foi criado, em 1921, o Sindicato dos Cultivadores de Ananases da ilha de S. Miguel, responsável pela abertura de uma Caixa de Crédito Agrícola (1922), pela fundação da cooperativa A Fornecedora (1926) e pela publicação do jornal O Cultivador (1923).
Nos finais da década de 20, o ananás contribuía com 90 % do valor das exportações micaelenses para o estrangeiro, mas verificava-se a diminuição das receitas provenientes da sua exportação, apesar do aumento do número de frutos exportados. Face às crescentes queixas contra as deficientes condições de alguns carregamentos, assistiu-se à intervenção do Estado para impor disciplina nas actividades produtiva e comercializadora. O aparecimento da Junta Nacional de Exportação das Frutas (decreto-lei 20 020, 4.7.1931), mais tarde denominada Junta Nacional das Frutas (decreto 26 757, 8.7.1936), e a abertura de uma delegação em Ponta Delgada (decreto 22 800, 4.7.1933), bem como a criação do Grémio dos Exportadores de Frutas e Produtos Hortícolas de S. Miguel (decreto 24 560, 17.10.1934), obrigaram, doravante, todos os cultivadores de ananases a inscrever-se no Grémio e a fazer o cadastro das suas estufas. A acção corporativa pretendia, assim, orientar, disciplinar, fiscalizar, promover e organizar a exportação. Entre 1935 e 1938, graças à acção corporativa, aumentou a qualidade dos frutos exportados e subiram as cotações. No entanto, urgia disciplinar a produção, impor regularidade na oferta (que se pretendia igualmente distribuída ao longo dos meses do ano) e diversificar os mercados. No entanto, a Segunda Guerra veio interromper as expectativas criadas em torno do ananás. Nos nossos dias, a importância do ananás é diminuta. Calcula-se a existência de 580 produtores, proprietários de 3400 estufas. A comercialização é realizada por 10 operadores, dos quais apenas dois têm capacidade significativa - a Profrutos (cooperativa, com mais de 300 sócios e com 40 % de cota do mercado) e a Anazor (firma), destinando-se as suas vendas exclusivamente ao mercado continental, sendo a época natalícia aquela em que se verifica uma maior procura. O governo da Região Autónoma dos Açores tem publicado um conjunto de diplomas no sentido de proteger esta cultura, mas o ananás micaelense continua a não ser competitivo nos mercados europeus. Fátima Sequeira Dias (Jul.1996)
PRODUÇÃO E COMÉRCIO Iniciada em meados do século xix, na ilha de S. Miguel, a cultura do ananás orientou-se desde muito cedo para o mercado inglês, para onde havia já a registar outras experiências comerciais de produtos dos Açores. Outros pontos da Europa foram também destino destes produtos.
Em tempos mais recentes a comercialização do ananás deparou com uma concorrência muito forte por parte do abacaxi produzido em condições naturais, de forma extensiva, em regiões onde os custos de produção, designadamente os da mão-de-obra, são consideravelmente mais baixos do que os verificados nos Açores. A característica do produto biológico atribuído ao ananás dos Açores não tem sido suficiente para garantir um bom nível de competitividade no Continente e na Madeira, os principais mercados onde é actualmente comercializado.
O quadro 1 apresenta a evolução da produção e comercialização do ananás entre 1993 e 1995, anos da introdução de apoios comunitários a esta actividade.
Em 1995 quase foram restabelecidos os níveis de produção registados em 1984 e 1985, quando a produção atingiu as 2200 e 2280 t, respectivamente. Isto aconteceu depois de em 1982 a produção se ter ficado apenas pelas 1396 t.
A comercialização do ananás evidencia a ciclicidade da produção. Na venda para o exterior, que representou, em 1995, cerca de 70 % da produção, os volumes maiores ocorreram durante os meses de Dezembro, Novembro e Outubro. Os meses de venda mais baixa são Junho, Maio e Abril, respectivamente. O quadro 2 espelha esta ciclicidade, reportada ao ano de 1995.
Devido às dificuldades experimentadas pelos produtores do ananás e considerando o interesse económico e turístico da manutenção desta produção, foi criado um subsídio ao abrigo do POSEIMA (programa de opções específicas para fazer face ao afastamento e à insularidade da Madeira e dos Açores), que visa favorecer a sua comercialização. Em 1993, primeiro ano de aplicação deste programa, foram pagos apoios que totalizaram 397 mil contos. Mário Fortuna (Mai.1996)
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